A geração de ouro dos anos 90 já lá vai, mas esta de hoje não deixa ninguém envergonhado. Okay, é difícil competir com Zvonimir Boban (uiii), Suker, Prosinecki, Jarni e Stimac, que terminaram em terceiro no Mundial de 1998. O apuramento para o Euro 2016 foi apertadinho (seis vitórias e três empates em dez jornadas), com a Noruega a terminar a um ponto. Foi a Itália de Antonio Conte que venceu o Grupo H. Perisic foi uma maravilha no apuramento, com seis golos em nove partidas. Tem sido ele uma das figuras em França. Que o digam nuestros hermanos

Mas isto de ter Modric e Rakitic no mesmo meio-campo deixa água na boca. E Mandzukic na frente? ‘Tá bonito. O homem até sai e dá lugar a Kalinic, o avançado da Fiorentina, e este marca de calcanhar à Espanha. Não havia dúvidas quanto ao potencial desta equipa. Tinha tudo para ser uma das surpresas do Euro. Em quatro presenças em Europeus, a Croácia chegou duas vezes aos quartos-de-final (1996 e 2008), caindo na fase de grupos em 2004 e 2012.

PARIS, FRANCE - JUNE 12: Luka Modric of Croatia celebrates scoring his team's first goal during the UEFA EURO 2016 Group D match between Turkey and Croatia at Parc des Princes on June 12, 2016 in Paris, France. (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

Luka Modric, médio do Real Madrid e grande figura da seleção croata (Photo by Mike Hewitt/Getty Images)

O treinador é Ante Čačić e é ele quem está a esboçar um grande, grande feito neste Campeonato da Europa. Tem 62 anos e teve uma carreira relativamente humilde até aqui. Tudo começou em 1986, dois anos depois de Portugal se estrear em Campeonatos da Europa, no Prigorje Markuševec. O currículo conta com 17 clubes, mais três passagens pelos sub-21 da Croácia e ainda da Líbia (equipa principal e sub-21). Em 2012, ao serviço do Dinamo Zagreb, foi campeão croata. Foi o ponto alto da sua carreira. Até agora…

No campo, a tocar na redondinha, estão aqueles craques que já sabemos. Modric (Real Madrid), Rakitic (Barcelona), Perisic (Inter), Mandzukic (Juventus) e Sime Vrsaljko, que está a caminho do Atlético Madrid. Ou seja, há jogadores com clubes mais vistosos do que a seleção de Portugal anuncia. Mas a técnica, aquele jeitinho para tocar na bola e ganhar espaço, aquelas ideias todas para criar uma teia mágica para envolver o adversário, não é tudo. Há muito coração. E não falamos apenas da habitual ambição de cada um. Esta seleção viveu momentos conturbados após o Croácia-Turquia, o jogo de estreia. É que, depois de uma exibição de qualidade, o capitão Darijo Srna soube que o seu pai, Uzeir, tinha morrido durante a partida.

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A história de Uzeir, que nasceu em Gornji Stopici, na Bósnia, foi trágica. Até parece mentira. Quando era bebé, Uzeir quase morreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando os militares sérvios nacionalistas incendiaram a aldeia onde vivia com a sua família. A mãe, que estava grávida, e a sua irmã foram queimadas vivas. Noutra altura deste filme, o pai seria morto depois, por uma bala perdida. Trágico.

O capitão da seleção croata, após o jogo com a Turquia, voou para Metkovic, uma cidade-fronteira com a Bósnia, para estar presente no funeral da pessoa mais importante da sua vida. Ficou no ar a dúvida se o lateral do Shakhtar voltaria. Mas ele voltou, explicando que foi esse o último desejo do pai, e foi arrepiante na hora do hino. Srna chorou e emocionou a Europa…

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A caminhada destes croatas, que tocam na bola como poucos, que gostam do passe-e-vai, que se desmarcam, que baralham as marcações, que não têm medo de chutar à baliza, tem sido uma beleza. Começou com a vitória sobre a Turquia, com uma bomba de longe de Luka Modric. O pequeno Cruijff da Croácia resolveu, confirmando o seu peso na equipa. É que ele joga muito. Recebe numa cabine telefónica e foge, sem os outros darem por ele. Faz receções de sonho, mete a bola onde não é suposto. Não é suposto porque ninguém devia ter assim tanto jeito para usar uma bola.

Adiante. O segundo jogo do Grupo D foi contra a República Checa de Rosicky. As coisas começaram bem com o golo de Perisic, o número 4 que gosta de vadiar no meio-campo alheio e trocar os olhos a quem se mete pelo caminho. Tem ginga, galga metros, vai para cima, não tem medo de nada. Dribla e assiste. Tem golo. Está em todas e será um caso sério para Vieirinha. Talvez aqui faça sentido pensar em Cédric, que terá mais rins para um extremo complicado. Voltando ao que se passou no segundo jogo: Rakitic, com a classe que já não surpreende ninguém, ficou na cara de Petr Cech e picou a bola por cima dele. Foi pura classe. Era o murro na mesa dos croatas, um “Estamos aqui, já deram por nós?”.

Ninguém previu foi o que aconteceu a seguir. Luka Modric saiu tocado e o meio-campo sofreu com isso. Milan Skoda reduziu o marcador e o jogo ficou mais dividido. Depois, num ato completamente inesperado e injustificável, os adeptos croatas enviaram tochas para o relvado (porventura em protesto contra a sua federação) e o jogo foi interrompido. Isso, já se sabe, não ajudará à concentração de ninguém. O jogo foi retomado e Vida, desnecessariamente, tocou a bola com a mão: penálti. Dois-dois: foi Necid que assumiu e deixou tudo como começou.

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No derradeiro jogo, quando se falava apenas na magia de Iniesta, na visão e influência de Nolito, no regresso de Morata ao Real Madrid, os croatas encolheram os ombros e trataram de derrubar os ainda campeões da Europa. Os espanhóis até começaram bem, com um golo de Morata (7′). Kalinic empatou antes do intervalo, de calcanhar, num estilo à Mancini. A três minutos do fim, quando parecia que as coisas iam acabar como foram para o intervalo, Perisic (lá está!) fez o golo da vitória e ofereceu a liderança do grupo à Croácia.

Cristiano Ronaldo, que bisou contra a Hungria e colocou Portugal nos “oitavos”, conhece bem Rakitic, contra quem já jogou muitas vezes nos clássicos de Espanha. Já sobre Modric o que poderá ele dizer a Fernando Santos? “É um génio, mister. Imparável. É mesmo o Cruijff da Croácia…”