Estão “em choque”, mas fizeram “planos de contingência”. Prepararam-se, mas não acreditaram que o resultado do referendo britânico fosse este: o da saída do Reino Unido da União Europeia. A Europa acordou “triste” a 24 de junho, mas eles – os portugueses que lançaram empresas com sede londrina – querem esperar para ver. Miguel Santo Amaro não duvida: “Hoje, precisamos de ser mais conservadores do que precisávamos ontem”.

O cofundador e líder da Uniplaces – plataforma de aluguer de quartos para estudantes com sede no Reino Unido – acrescenta: “Curiosamente, isto pode ser benéfico para o ecossistema de empreendedorismo português”. Os outros três empreendedores com quem o Observador falou têm a mesma opinião. “Eu voto Remain em Lisboa”, afirmou Jaime Jorge, da Codacy. “O lado positivo é esse”, acrescentou Carlos Silva, da Seedrs. “Há aqui claramente uma oportunidade para Portugal”, afirmou Nuno Sebastião, da Feedzai.

Quanto ao que o Brexit pode fazer à startup scene britânica, os posts no Twitter falam por si.

Miguel Santo Amaro afirma que a decisão de os britânicos pode fazer com que “Londres perca força” enquanto uma das principais startup citys europeias. Jaime Jorge concorda. “A geração mais informada e empreendedora esteve unilateralmente por detrás do voto Remain. Será que vão ficar em Londres dada a hipótese de sair?”, questiona o líder da plataforma online de análise de código. Jaime acrescenta que “as principais cidades europeias têm agora a tarefa de conseguir atrair a possível migração de pessoas e empresas” que o resultado do referendo vai provocar.

Isto vai potencialmente ter impacto na decisão de arrancar com uma empresa no Reino Unido agora. Quer do ponto de vista de recrutamento e movimentação de pessoas, de abrangência de mercado, de currency, do know-how embutido na rede de contactos das pessoas. Estou certo de que virá muita gente visitar Lisboa em novembro durante o Web Summit, com perspetiva de encontrar um novo escritório e de se mudar de Londres para aqui”, adiantou ao Observador.

Carlos Silva, fundador da plataforma de crowdfunding luso-britânica Seedrs acrescenta que se quisermos ver um lado positivo na saída do Reino Unido da União Europeia, é esse. “É curioso porque ainda hoje estava a discutir o Brexit com empreendedores britânicos e eles manifestaram o desejo de ter operações fora do Reino Unido e Lisboa foi logo um dos sítios que mencionaram.”

Confiante de que Lisboa pode atrair talento de fora, sobretudo de empresas britânicas, conta que o resultado do referendo foi um “choque” para a maior parte das pessoas com quem conversou. “Ontem, as conversas eram todas no sentido de estarem confiantes de que o resultado seria outros. Hoje, já era importante ter um escritório fora do Reino Unido”, acrescentou.

A Feedzai, que atua no setor da tecnologia financeira, tem sede em Portugal, mas abriu um escritório recentemente em Londres para as operações europeias. O presidente Nuno Sebastião disse ao Observador que o Brexit “é uma oportunidade” para o país.

“Não seria de surpreender que as empresas norte-americanas optassem por abrir o braço europeu em Lisboa. Não era nada que me chocasse. É como se diz: ‘a perda de alguns é o ganho de outros’. Isto, globalmente, é mau, mas há aqui uma oportunidade para o ecossistema português”, afirmou Nuno Sebastião.

“Sabíamos qual seria o impacto. Estamos preparados”

A Uniplaces levantou 22 milhões de euros em investimento em novembro de 2015, numa operação liderada pelo fundo de capital de risco britânico Atomico e com a participação do também britânico Octopus Ventures. Juntaram-se os portugueses Caixa Capital e Shilling Capital Partners. Ao Observador, Miguel Santo Amaro diz que estão a discutir internamente qual será o impacto do Brexit na empresa, apesar de já se terem preparado.

“Olhámos para o risco que representava a saída do Reino Unido da União Europeia, sabíamos quanto é que iríamos precisar e preparamo-nos financeiramente para os pagamentos que podemos antecipar”, afirmou.

O líder da Uniplaces disse ainda que o facto de grande parte do financiamento da empresa ser em libras “dá que pensar”, mas que como a maioria dos colaboradores estão no escritório português, prepararam-se para que a maioria dos custos ocorressem em euros. E não em libras.

“Isto não tem muito impacto nas empresas portuguesas que têm operações no Reino Unido, embora com o David Cameron a sair do Governo as coisas fiquem ainda mais incertas. Temos de tentar perceber como é que a economia vai reagir. A próxima semana vai ser um pânico”, afirmou Miguel Santo Amaro.

O líder da Uniplaces conta que já trocou emails com os investidores esta sexta-feira, mas que é preciso esperar para ver como é que os fundos vão reagir. E não é pessimista. “Se olharmos para o referendo vimos que os líderes do país e as populações mais jovens queriam ficar na Europa. Agora é preciso ter algum ânimo. Não é o fim do mundo. Não podemos ficar todos alarmistas. Vamos ver como o euro reage”, disse.

Otimista assumido, acrescentou que as startups vão ter de ser mais conservadoras do que eram. “Quando não se sabe o que aí vem, temos de ser conservadores”, concluiu.

Nada muda” para a Codacy

A Codacy também tem sede no Reino Unido, mas congrega toda a equipa em Lisboa. Ao Observador, Jaime Jorge explicou que apenas menos de 3% das receitas da empresa vêm dos britânicos, pelo que prevê que o Brexit não afete a operação de crescimento da empresa.

“Agora mais do que sempre empresas como a Adobe, a Schneider Electric, Google e Paypal vão precisar da Codacy para assegurar a qualidade no seu software”, afirmou.

Jaime Jorge explica que como a startup não tem escritório em Londres, está “vigilante” em relação aos resultados e às medidas que saírem da votação do referendo em termos de implicações estruturais. “Temos planos de contingência em ordem para abertura de escritório noutros países caso precisemos ou não sejamos mais bem-vindos no Reino Unido”.

A Seedrs tem a base das operações no Reino Unido, mas Carlos Silva diz que no curto prazo nada vai mudar, com exceção da instabilidade dos mercados. Contudo, reconhece que podem surgir algumas dificuldades para a empresa, dependendo das condições que forem impostas na negociação com Bruxelas, nomeadamente a nível da movimentação de capitais.

“A Seedrs foi construída para para operar em vários países a uma escala global. Montámos tudo para operar através das fronteiras de vários países e, por isso, também estamos agora a abrir nos EUA. É muito difícil prever o que vai acontecer, mas não vai ser algo que interfira muito nas nossas operações”, explicou Carlos Silva ao Observador.

Quanto ao impacto que o Brexit pode ter nos investidores, desvaloriza. “Os próprios investidores têm interesse em investir fora do Reino Unido e as barreiras não serão nada de especial”, assegura. Os dados estão lançados.