Poderia ser uma forma de combater o mau tempo da última edição do Open House Lisboa, que aconteceu em outubro do ano passado com alguma chuva, mas não. Tudo não passou de uma questão logística: a Trienal de Arquitetura de Lisboa marca a agenda do próximo outono, antecipar o Open House foi a solução encontrada. No fim de semana de 2 e 3 de julho, vários espaços e lugares de Lisboa voltam a receber visitantes. Alguns já fazem parte da “mobília da casa”, mas a maioria é uma estreia no roteiro.

“Vamos ver como as pessoas vão reagir a este evento no verão”, diz José Mateus, comissário da 5ª edição do Open House Lisboa. Os chinelos de dedo, ainda que o calor convide, podem não ser os melhores amigos para quem quer percorrer os metros quadrados da História e da arquitetura de Lisboa. Na cidade das sete colinas, as sapatilhas podem ser necessárias e o primeiro ponto do roteiro, apresentado ao Observador, assim o justifica. O mapa está marcado com a visita ao Mosteiro de São Vicente de Fora, em Alfama. Quem nos recebe é o guia, Luís Gaivão, que imediatamente nos fala do tempo em que a monarquia era lei e regra em Portugal.

Foi essa mesma monarquia que ergueu o mosteiro, começou com D. Filipe I e terminou 40 anos depois com D. Filipe III. Percorreu a presença espanhola no trono português e assistiu a uma das maiores catástrofes de Lisboa, o terramoto de 1755, que fez com que a cúpula da igreja caísse e provocasse algumas dezenas de mortos no interior.

E porque o Mosteiro de São Vicente de Fora não é propriamente um espaço pequeno, a cada recanto o visitante faz uma viagem pela História de Portugal e fica a conhecer a ousadia de alguns reis portugueses.

“O rei D. João V, mais tarde, tentou eliminar qualquer vestígio de Espanha no mosteiro”, afirma o guia.

Uma tarefa hercúlea, já que parte da construção foi feita ao gosto do país vizinho. O amor português e a recusa das obras dos antecessores espanhóis tem como resultado final as mais de 100 mil peças de azulejo colocadas nas paredes do mosteiro — “a maior coleção de azulejos de arte barroca”, diz Luís Gaivão.

Reza a História e a lenda de que os reis gostavam da ideia de serem relembrados, “pelos séculos dos séculos”, e D. João V não escapou à fama. Em cima da porta da sacristia está o busto do rei, que dificilmente poderá ser retirado nos próximos tempos. “Se alguém quisesse tirar a peça dali, teria de arrancar todo o bloco de pedra, porque está embutida na parede”, explica o guia.

O conselho para trazer sapatilhas? Nos próximos minutos fará todo o sentido. Para usufruir de toda a visita ao Mosteiro de São Vicente de Fora, é necessário fazer algum exercício físico e subir as cerca de 69 escadas de acesso a um dos terraços do mosteiro. O mais provável é que a respiração controlada desapareça por alguns minutos, mas lá em cima, será possível ver Lisboa, quase de uma ponta a outra. De um lado, Almada e o seu Cristo-Rei, no meio está a Ponte 25 de Abril, e do outro lado fica o Castelo de São Jorge, o sítio onde tudo começou – Lisboa e toda a História de reis e rainhas, e das construções que chegaram até ao século XXI e ao Open House.

O evento constrói-se a partir da diversidade dos espaços e lugares, onde a arquitetura é o elo comum. De um mosteiro de dimensões generosas passa-se para uma casa particular em Alfama, com cerca de 140 metros quadrados no total. O arquiteto Pedro Matos Gameiro recebe os visitantes numa habitação de cor branca e ainda em construção: “Quem quiser ir até aos quartos ou à varanda tem de subir umas escadas de metal”, explica. Quando terminar, o metal dará lugar a escadas de pedra e cal, mas para já há que disfarçar o medo de subir, para conhecer a habitação.

“O objetivo é que se torne um espaço de arrendamento de curta duração para turistas”, diz o arquiteto. Uma das particularidades é a existência de quatro pátios exteriores, um deles com uma piscina que faz ligação entre duas divisões da casa. Este pequeno recanto no Largo do Outeirinho da Amendoeira parece um sítio despido de excessos, de metros quadrados desnecessários, quase como se o espaço fosse reduzido para dar lugar à criatividade arquitetónica.

A ver o mar

A antecipação do roteiro do Open House Lisboa não termina aqui. Está na hora de ir até Algés, mais propriamente à Torre de Controlo Marítimo do Porto de Lisboa. A obra foi projetada pelo arquiteto Gonçalo Byrne, em 2001, e normalmente não é um espaço visitado pelos “comuns mortais”, como afirma Rúben Castro, elemento da organização. O espaço tem sete pisos e há medida que se avança mais um, a segurança torna-se mais apertada. “É como se aumentasse a importância de cada piso”, explica.

São lanços e lanços de escada, da sala de reuniões para a sala de controlo, a mais importante e a que controla as entradas e saídas das embarcações do Porto de Lisboa. O Open House Lisboa leva o público até aos bastidores de um espaço dedicado à segurança nacional, portanto uma das indicações na programação é que não é possível tirar fotografias.

A inclinação do edifício pode lembrar a alguns a Torre de Pisa, mas os pormenores e as parecenças arquitetónicas são mais familiares do que funcionais: a pedra e a cal em Itália dá lugar ao betão na Torre de Controlo Marítimo — um “material mais industrializado que indica a funcionalidade do espaço”, refere Rúben Castro.

A 5ª edição conta 73 espaços no roteiro, distribuídos por visitas livres, acompanhadas pelos voluntários e comentadas por profissionais da arquitetura como Nuno Portas e Bartolomeu Costa Cabral. Alguns locais necessitam de pré-reserva e podem ser feitos no site do Open House Lisboa, a entrada nos restantes é feita por ordem de chegada.

Artigo alterado às 16h50 com a correção do nome do arquiteto Pedro Matos Gameiro