Está aberta a batalha pela sucessão de David Cameron no cargo de primeiro-ministro britânico. Com a demissão anunciada pouco tempo após a vitória do Brexit no referendo desta quinta-feira, o Partido Conservador vai ter de escolher um novo líder, no congresso (por agora) marcado para outubro. Daí sairá o próximo ocupante do número 10 de Downing Street, uma vez que não estão previstas eleições antecipadas.

Durante a campanha, os conservadores dividiram-se. E enquanto Cameron tentava convencer os eleitores de que permanecer na União Europeia era o melhor caminho, outras vozes dentro do seu partido se levantavam a favor do Brexit. Entre elas, a mais sonante é a de Boris Johnson, o antigo mayor de Londres, que assim se posiciona na linha da frente para suceder a Cameron na liderança do partido e do país. Mas, como toda a gente sabe, em política a situação pode mudar rapidamente, e se parece óbvio que terá de ser um eurocético a liderar os tories, o tempo e a própria divisão interna que neste momento existe no seio dos conservadores pode mudar o que agora parece inevitável.

Para baralhar ainda mais os cenários, Theresa May, a ministra da Administração Interna, apontada como possível sucessora de Cameron, passou a campanha com um pé no ‘Ficar’ e outro a contestar a ideia de que o Reino Unido “é um país demasiado pequeno para lidar com a saída da União Europeia; isso é um disparate”. Daí que muitos analistas tenham escrito que Theresa May é a mulher que podia assumir a liderança dos Tories qualquer que fosse o resultado do referendo.

Mas vamos por pontos, até porque há mais nomes na lista e a eleição do novo líder do Partido Conservador não é assim tão simples. A escolha passa por um sistema demorado de nomeações e votações até que se faça a escolha final:

  • Cada dois deputados conservadores nomeiam um candidato, e entregam esse nome ao presidente do “1992 Comittee”, que é basicamente um comité constituído por 18 parlamentares do Partido Conservador;
  • Se apenas um nome for apresentado, essa pessoa é automaticamente escolhida para líder do partido
  • Se houver dois nomes indicados, os membros do partido são chamados a votar, por correspondência, num deles e o mais votado é eleito líder;
  • Se surgirem três ou quatro candidatos à liderança, os parlamentares são chamados a escolher apenas dois;
  • Os dois que restarem vão então a votos — por correspondência. A escolha é feita pelos 125 mil membros do Partido Conservador.

Quem são os nomes que previsivelmente estarão na corrida pelo lugar de primeiro-ministro britânico? Todas as apostas recaem sobre Boris Johnson, mas Theresa May surge logo a seguir, tal como Michael Gove. Há ainda Ruth Davidson, que muitos consideram a rising star dos tories.

Boris Johnson, o amigo/ inimigo de Cameron

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Há um ano, o ex-mayor de Londres foi fundamental na eleição de David Cameron e na vitória dos conservadores nas eleições legislativas. Mas, em fevereiro, Boris Johnson deu o que muitos apelidam de golpe fatal em David Cameron: anunciou que ia fazer campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia. Houve quem o acusasse de pura manobra política, de dividir o partido e de pôr em causa uma maioria estável dos conservadores à frente do governo britânico apenas para satisfazer as suas ambições.

Boris Johnson, 52 anos, foi jornalista, diretor da revista Spectator, ministro-sombra, deputado e mayor de Londres. Quando era correspondente do The Telegraph em Bruxelas, dizia-se dele que era o favorito de Margaret Thatcher, e na altura escrevia artigos violentos contra Bruxelas.

E não é apenas o seu cabelo louro e despenteado que dá nas vistas. Boris é um homem polémico, que assumiu posições controversas, como quando afirmou, ainda enquanto diretor da Spectator, que “o Islão é o problema” ou quando disse, já enquanto mayor de Londres, que os jihadistas eram obcecados por pornografia por terem dificuldade em relacionarem-se com mulheres.

Ao outro homem de cabeleira loira que tem ambições de governar do lado de lá do Atlântico, Boris respondeu à letra: “A única razão para não ir a algumas partes de Nova Iorque é o risco real de encontrar Donald Trump”.

Boris não é — por agora — um nome consensual dentro do partido. Recentemente, o antigo primeiro-ministro John Major afirmou que se Johnson continuasse a dividir os conservadores, uma vez chegado à liderança não iria ter a lealdade do partido.

E se há seis anos Boris punha nestes termos a possibilidade de chegar a Downing Street — “Tenho mais hipóteses de reencarnar como Elvis Presley ou numa azeitona do que ser primeiro-ministro” — agora é o mais bem colocado para passar para o lado de dentro do número 10.

Boris Johnson fez um discurso pós-resultado do referendo com pose de chefe de governo, deixando claro que o Reino Unido continuará a ser europeu, que os britânicos continuarão a circular pela Europa vivenciando diferentes culturas, e que o país se afirmará como a grande economia que sempre foi e continuará a ser. Nem uma palavra sobre o seu futuro no partido.

Theresa May, a “rainha de gelo”

at the Royal United Services Institute (RUSI) on June 11, 2014 in London, England. RUSI are holding discussions on ways to counter organised crime with speeches by US Under Secretary for Terrorism and Financial Intelligence David Cohen and British Home Secretary Theresa May

Voltará o Reino Unido a ter uma mulher primeiro-ministro? A materializar-se essa hipótese, a probabilidade de a mulher se chamar Theresa May é grande, muito grande.

Chamam-lhe “The Ice Queen”, a rainha de gelo. É suficientemente discreta, mas não apagada, suficientemente próxima de Cameron, mas não seguidista, defensora do “Ficar” mas longe da visão apocalíptica de que a saída da UE será a ruína do Reino Unido.

Theresa May, 59 anos, era já apontada como a candidata que poderia vingar, fosse qual fosse o resultado do referendo, exatamente pela forma como se posicionou durante toda a campanha. A ministra da Administração Interna, que detém a polémica pasta da imigração, foi sempre muito cautelosa nas palavras. No discurso em que assumiu a posição a favor do Bremain, Theresa May começou por afirmar que as suas declarações não deveriam ser entendidas “como um ataque, nem sequer uma crítica às pessoas que pensam de forma diferente”.

Com um partido claramente a precisar de se unir novamente, esta pode ser a mulher mais bem colocada para a reconciliação interna.

Além de ministra da Administração Interna desde 2010, Theresa May assumiu também a pasta das Mulheres e Igualdade, que acabou por abandonar em 2012. Foi a primeira mulher a ser nomeada presidente do Partido Conservador, em 2002.

Michael Gove, ao lado de Boris até quando?

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Michael Gove já o disse várias vezes: não ambiciona ser primeiro-ministro. O que, em política, normalmente, significa quase nada. Pode não querer ser já, mas pode querer ser depois; pode não querer hoje, mas amanhã sim. Por isso, o nome de Michael Gove continua a aparecer nas listas de possíveis sucessores de David Cameron.

Aos 48 anos, é ministro da Justiça e Lorde Chanceler do Partido Conservador. Há um ano, ajudou à vitória dos tories nas eleições — a primeira maioria absoluta em 23 anos — e esta sexta feira, ao lado de Boris Johnson, encarregou-se de fazer o elogio (que parecia quase fúnebre) ao recém-demitido David Cameron.

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E se pode parecer provável que Michael Gove mantenha o cargo de Lorde Chanceler se Boris Johnson for primeiro-ministro, também é verdade que numa sondagem interna feita em maio Gove era o preferido dentro do partido para suceder ao atual líder (imagem em cima). Isto também devido à proximidade e à amizade que o une a Cameron. Durante a campanha, Gove deixou claro que a sua amizade com o primeiro-ministro iria sobreviver ao referendo. Talvez por isso o partido se incline para considerar que ele tem a virtude de conseguir unir os dois lados da barricada

Ruth Davidson, a estrela em ascensão

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É um nome para baralhar sem voltar a dar, porque é um nome a ter em consideração lá para 2020. Então porque o colocamos aqui? Bom, para já, porque Ruth Davidson, 37 anos, é a líder do Partido Conservador Escocês. E a Escócia, já se sabe, foi a favor da manutenção do Reino Unido na UE. E os escoceses poderão ser chamados a pronunciar-se sobre se querem continuar a fazer parte do Reino Unido. Ora, Ruth Davidson fez campanha pelo ‘Ficar’ e foi a estrela do último debate televisivo da campanha.

E, logo ali, se começou a falar de os conservadores levarem Ruth para Westminster — Ruth é deputada do parlamento escocês —para que pudesse ser candidata à liderança do partido. Too late for the moment…

Ruth Davidson é gay, progressista e a sua prestação apaixonada no debate sobre o referendo deixou uma legião de fãs. Um momento “Tom Cruise”, escreveu-se nas redes sociais:

https://www.youtube.com/watch?v=gu0_eL_KFQ8

Ruth Davidson, por agora, terá de esperar. Pela próxima eleição do líder do Partido Conservador, ou, quem sabe, pela eleição de um primeiro-ministro da Escócia…