Maldito trânsito francês, que obriga a adiar uma conferência de imprensa porque a seleção demora bem mais do que três horas a ir de Marcoussis, nos arredores de Paris, até Lens. Até faz com que, a meio da viagem, Fernando Santos e João Mário tenham que pular do autocarro para um carro, por acharem que seria mais rápido esgueirarem-se por entre os engarrafamentos. Era bom, era. “Acabámos por chegar cá praticamente ao mesmo tempo que o autocarro”, suspirou o selecionador, que achou por bem os jogadores não treinarem esta sexta-feira no estádio Bollaert-Dellelis para o bem deles — “Achámos que era importantes dormirmos bem e nas camas às quais estamos habituados. Treinar, almoçar e descansar”.

Não será tão importante quanto a análise que Fernando Santos fez de Rakitic, Modric, Perisic, Manduzic e de todos os outros jogadores com nome acabado em “ic” que fazem da Croácia “uma das seleções com o mesmo objetivo que Portugal”. Ou seja, chegar à final do Europeu e ganhá-la. “Procurei analisar muito bem a Croácia e encontrar soluções para eliminar os pontos fortíssimos que ela tem e tentar aproveitar os pontos em que não é tão forte”, explicou o selecionador nacional, não ligando muito a Luka Modric, o pequeno craque e patrão croata, que não jogou no 2-1 à Espanha, mas deverá jogar contra Portugal. “É unanimemente reconhecido que um dos melhores jogos foi o Croácia-Espanha e o Modric não jogou”, analisou, entre as opiniões e explicações que deu sobre “uma excelente equipa que está moralizada”.

Tal como Portugal, acrescentou.

Tanto os croatas como os portugueses gostariam de ter tido mais do que três dias para descansarem e, talvez por isso, Fernando Santos dissesse “nim” se tivesse de “analisar, um a um”, o estado físico dos jogadores da seleção. “72 horas é o normal para a recuperação dos jogadores. Preferíamos ter mais tempo, penso que a Croácia também, mas não podemos arranjar desculpas e procurar um álibi para o que possa acontecer ou não. Compete-me definir bem como os jogadores estão. A frescura mental que eles têm por representarem a seleção compensa muita coisa, mas não dá para compensar tudo”, lamentou.

Fernando Santos está à espera, agora sim, de um adversário que queria (e vá) ter muita bola e obrigar a seleção a lidar com algo com algo que não encontrou na fase de grupos. É como João Mário diz pouco antes de o selecionador ter a palavra — “Vão ter que correr e lutar mais do que nós”, porque não há milagres, nem se o treinador fizer alterações à equipa que defrontou a Hungria. “Vamos alterar tudo à espera que os milagres caiam lá de cima? Não, os milagres fazem-se cá em baixo”, resume. O selecionador também disse que a equipa precisará também de outra coisa, de ter “tomates”, expressão que uma colega jornalista usou, citando o diretor desportivo do Dinamo Zagreb. “Acho que a gente também precisa de ter uns assim, desse tamanho! Foram equipas que se limitaram a anular Portugal, prescindiram de procurar ter bola. A Croácia não vai fazer isso”, concluiu.

O selecionador acha que Portugal vai ter isso e muito mais no jogo de sábado (20h), aqui em Lens, começando na crença que tem na vitória. “Não sou um homem de fezadas, só um homem de fé mesmo. Mas é fé em termos de acreditar que vamos conseguir vencer o jogo”, argumentou, pouco antes de desvalorizar o facto de a equipa chegar aos oitavos-de-final com três empates: “Passámos com três pontos e, se tivéssemos passado com sete, o adversário não seria este e teríamos mais uns dias de descanso. Se quiserem que ganhe o Europeu só com empates, eu assino por baixo. Digo com tom de brincadeira, claro, o que quero é que a equipa jogue bem e pratique um futebol de qualidade. Mas se isso acontecesse, o meu país iria estar em festa, seguramente”.

Sobre isso não há dúvidas.