Foi o titular da baliza do Sporting no melhor Sporting da década de 1990, o de Valkx, Balakov ou Figo. Nunca venceu um campeonato porque, diz, Sousa Cintra estava “mal aconselhado” na direção e Pinto da Costa, no FC Porto, “controlava tudo” no futebol em Portugal.

Tomislav Ivkovic nunca foi de ter papas na língua. É ainda hoje o mesmo desalinhado que defendeu um penálti a Maradona no Itália 90 e lhe defenderia outro num Nápoles-Sporting, no San Paolo; o Sporting foi eliminado da Taça UEFA, mas Ivkovic, que apostou 100 dólares com o argentino em como defenderia o seu penálti, não voltou a Lisboa de mãos a abanar. Foi por isso, pelas papas na língua que nunca teve, que em 1993 Ivkovic rescindiu com o Sporting, tendo ainda dois anos de contrato por cumprir. “Fizeram-me a cama”, recorda hoje. Mas é também por isso que, mesmo sendo luso-croata, mesmo tendo vivido entre nós quase duas décadas — casado que foi como uma portuguesa depois de arrumar as luvas –, atira de chofre: “A Croácia é melhor seleção do Euro e Portugal está a jogar pouco”.

Quanto a individualidades, a Croácia tem muitas, do longuíssimo Subasic na baliza, ao meio-campo com dois dos melhores do mundo nos terrenos que pisam – Modric e Rakitic –, isto sem descurar o ataque croata, onde a velocidade de Pjaca e Perisic nas alas tem chegado à área, ao “mortífero” Kalinic na hora do remate. Mas, para Ivkovic, as individualidades não vão valer de nada nos oitavos-de-final, e a Croácia “valerá sobretudo enquanto equipa.” E deixa um aviso, a croatas e portugueses: “O Ronaldo é um dos melhores do mundo, mas também não resolve nada sozinho. No basquetebol é que um jogador resolve um jogo sozinho, não no futebol”.

Ei-lo, Ivkovic, na primeira pessoa, antevendo o Croácia-Portugal deste sábado e recordando histórias da sua (longa) passagem por Portugal. Espera voltar um dia, mas como treinador. “Não tenho empresário. Se tivesse, os convites já tinham surgido.”

Chegaste a Portugal em 1988. E viveste cá até 2004. O teu coração neste Euro 2016 é mais croata, mais português ou está dividido?
Não, não está nada dividido. Eu sou croata. E serei sempre croata. Mas claro que gosto de Portugal – até fui casado com uma portuguesa -, respeito o país, respeito a vossa seleção, mas vou ter que torcer pela do meu país. Ninguém leva a mal.

Ainda te recordas do convite que recebeste para vir para Portugal e para o Sporting? Estavas no Genk, da Bélgica.
Sim, eu estava na Bélgica. Mas na verdade não estava; estava de férias, na costa da Croácia. O convite do Sporting surgiu muito tarde. Estava um pouco nervoso, porque não aparecia nenhum clube, não sabia se ia jogar no Genk ou noutro lado, e estava nervoso, sim. Mas felizmente apareceu o Sporting. A história é engraçada: eu recebo uma chamada de França, de um tal de Lucílio Oliveira, que era empresário na altura. Queriam que viajasse até Paris. Meti-me no avião, aterrei em Paris, sentei-me com o Sousa Cintra, almoçámos e assinei pelo Sporting logo ali, ao almoço.

Ivkovic chegou ao Sporting em 1989 e só saiu em 1993, quando lhe "fizeram a cama" na direção (Créditos: D.R.)

Ivkovic chegou ao Sporting em 1989 e só saiu em 1993, quando lhe “fizeram a cama” na direção (Créditos: D.R.)

O Sporting tinha uma belíssima equipa enquanto lá estiveste: Luizinho, Valckx, Figo, Balakov, Cadete, Juskowiak. Mas vocês nunca venceram o campeonato em Portugal. O que é que aconteceu?
É muito simples de responder: nós tínhamos bons jogadores, mas a organização à nossa volta não era boa. O presidente Sousa Cintra não tinha experiência em futebol. E quem trabalhava com ele também não. Não era como o presidente Pinto da Costa no Porto. Esse tinha a “logística” toda. Estás a perceber? É mesmo assim: o Porto controlava tudo nesses anos e era difícil, apesar da euforia dos adeptos, da cabeça fria dos jogadores, vencer alguma coisa.

Porque é que saíste do Sporting para o Estoril em 1993? Tu eras titularíssimo nas épocas anteriores.
Isso tem muito que se lhe diga. Eu rescindi com o Sporting porque havia pessoas na direção que pressionaram o Sousa Cintra para que eu saísse. Na altura, eu tinha mais dois anos de contratado, mas como sempre fui um líder no balneário, sempre meti o dedo na ferida quando era altura de falar, algumas pessoas entendiam isso como críticas e não gostaram de ouvir certas verdades. Como se costuma dizer em Portugal: fizeram-me a cama.

A verdade é que, saindo do Sporting, nunca mais saíste de Portugal: Estoril, Vitória de Setúbal, Belenenses e Estrela da Amadora. Só houve ali um ano pelo meio em que vais para o Salamanca, em Espanha. Gostavas de Portugal – e foi uma decisão tua continuar – ou na altura não tiveste convites de fora?
Não, não. Foi uma escolha minha. Eu mal cheguei a Portugal, apaixonei-me pelo país. E como te disse, até me casei com uma portuguesa na altura. O único ano em que saí de Portugal foi porque o João Alves me convidou a ir para o Salamanca. Na altura eles tinham cinco ou seis portugueses. E subimos de divisão. Entretanto, voltei a Portugal, terminei a carreira no Estrela e recebi um convite para ser treinador adjunto da seleção croata.

E ainda hoje és treinador, mas principal. Na época passada treinaste o Lokomotiva, que terminou em 4.º lugar na liga croata. E convites para treinar em Portugal? Nunca te chegaram?
É curioso, mas nunca tive. A razão é simples: há muitos treinadores portugueses e são todos muito, muito bons. Mesmo sendo eu luso-português, é difícil ter um convite. Como não tenho um empresário para me “vender” aos clubes, sabes como é: longe da vista, longe do coração.

Tomislav Ivkovic treinou durante quatro temporadas, até 2014/2015, uma das revelações da liga croata: o NK Lokomotiva (Créditos: Darko Jelinek/Getty Images)

Tomislav Ivkovic treinou durante quatro temporadas, até 2014/2015, uma das revelações da liga croata: o NK Lokomotiva (Créditos: Darko Jelinek/Getty Images)

Bem, vamos lá falar do Euro 2016. O que tens achado da tua Croácia até aqui? Contra a Espanha fizeram provavelmente o melhor jogo do Euro.
Que queres que te diga?… Para mim, a Croácia foi a melhor equipa até aqui. E não digo isto por ser croata; toda a gente vê. E não me surpreendeu. O que me surpreendeu foi ver Portugal como vi. Ainda estão à procura da melhor forma. E oxalá não a encontre contra a Croácia! [Risos]

Mas achas que a Croácia é uma das favoritas a vencer o Euro, é? Ou pelo menos a chegar à final? A verdade é que está no lado do sorteio onde não vai encontrar os “tubarões”: Inglaterra, Espanha, França, Itália.
Para entenderes melhor, o ambiente na seleção e à volta da seleção, aqui na Croácia, é semelhante ao que se viveu no França 98, quando a Croácia terminou o Mundial no 3.º lugar. Eles estão em alta. É uma seleção com muita qualidade, onde há jogadores muito fortes individualmente, mas que se entreajudam, como uma equipa; aqui não há ninguém que resolva o jogo sozinho.

E Portugal? As coisas não nos estão a correr lá muito bem: três empates. Achas que o problema está só na finalização? Ou a pressão do Fernando Santos ao dizer que quer ser campeão é demasiada para os jogadores?
Sabes que eu conheço muito bem o Fernando. Ele é um homem calmo, ponderado. Ele só disse aquilo por causa dos portugueses, para dar motivação à equipa, mas sobretudo ao povo português. Ele é muito esperto. Claro que ele não pensa assim. Ele sabe que até tem uma boa equipa, mas não é favorito a chegar à final e vencer. Problemas? Se o problema estivesse só na finalização, ficava resolvido contra a Áustria e acabava-se o assunto. Não é só esse o problema. Portugal está a jogar pouco. Só não vê quem não quer. E estão à espera que o Ronaldo resolva tudo. Ele é um jogador muito bom, mas isto é futebol, não é basquetebol; no basquete é que as individualidades resolvem os jogos.

E quem é que ganha o Euro, afinal?
Ui, é difícil responder-te a isso. Pelo que vi até aqui, a Croácia. Mas isso foi na fase de grupos e a fase de grupos já acabou. Agora começa outro Euro, a eliminar, e muda tudo. Foi bonito ver a Croácia jogar bem, não foi bonito ver Portugal a jogar mal, mas agora começa tudo do zero e qualquer deles, passe quem passar, é favorito a vencer.

Tu estiveste no Euro 84 e no Mundial de 1990, em Itália. No Euro foste suplente do Simovic – e a Jugoslávia ficou-se pela fase de grupos. Mas em 1990, ainda com a Jugoslávia, era titular e só foram eliminados pela Argentina nos quartos-de-final. E até defendeste um penálti do Maradona, mas não chegou…
Acredites ou não, ainda hoje estamos tristes com essa eliminação. Perder nos penáltis dói muito. Ainda por cima, nós tínhamos uma equipa com Prosinecki, Jarni, Suker. As pessoas falam-me sempre do penálti do Maradona. Honestamente, preferia não ter defendido o dele e ter defendido os outros todos. Era sinal de que tínhamos chegado às meias-finais.

Essa seleção era melhor do que a de hoje? Ou pensando só na Croácia e não na Jugoslávia: é melhor a seleção de hoje do que a de 1998, no Mundial de França?
Essa pergunta é difícil. E é difícil fazer essa comparação por uma razão muito simples: é que a Jugoslávia tinha 20 milhões de habitantes e a Croácia só tem cinco milhões. Era mais fácil encontrar jogadores de qualidade na altura. Mas esta seleção de hoje, tal como a de 1998, apesar de ter talentos individuais, como o Modric, o Rakitic ou o Perisic, é sobretudo uma equipa. Vale como equipa. E aí não é muito diferente da minha seleção em 1990.

Croatia team members pose for a group photograph from bottom left: Croatia's defender Darijo Srna, midfielder Milan Badelj, defender Ivan Strinic, midfielder Marcelo Brozovic, midfielder Luka Modric. Top row from left: Croatia's defender Domagoj Vida, forward Mario Mandzukic, defender Vedran Corluka, midfielder Ivan Rakitic, goalkeeper Danijel Subasic, midfielder Ivan Perisic prior to the start of the Euro 2016 group D football match between Turkey and Croatia at Parc des Princes in Paris on June 12, 2016. / AFP / KENZO TRIBOUILLARD (Photo credit should read KENZO TRIBOUILLARD/AFP/Getty Images)

Esqueçam as individualidades (sobretudo as que vestem as camisolas sete e dez); a Croácia vale pelo todo e não pelas partes. E que partes… (Créditos: KENZO TRIBOUILLARD/AFP/Getty Images)

Se a Croácia não vencer hoje, a tua “costela” portuguesa chega-se à frente e vais torcer por Portugal?
Vou ter sempre duas seleções: a portuguesa e a croata. Se Portugal vencer hoje, vou torcer por Portugal, claro. E oxalá que vença. É que teve a sorte de calhar no lado do sorteio onde estão as seleções mais fracas. Atenção: fracas, entre aspas. Não há seleções fracas no Euro. Se houvesse, Portugal não tinha sido terceiro naquele grupo, não é?