É a primeira vez na história que o Reino Unido deixa o velho continente na mão do eixo franco-alemão, saltando fora. A História é antiga e passa sempre pelo conceito, mais ou menos egoísta, da “defesa dos seus interesses particulares”, como sublinha ao Observador o embaixador Seixas da Costa. Mas a verdade é que podemos recuar alguns séculos para perceber que os ingleses, em todas as tentativas expansionistas e pretensões totalitárias das grandes potências se puseram do lado dos “poderes médios” contra os “poderes hegemónicos”. Agora que o povo britânico votou a favor da saída da União Europeia, é a primeira vez que o Reino Unido assume o papel, não de coadjuvante, mas sim de fraturante. Um dia histórico, no mínimo.

O historiador Rui Tavares, membro do partido Livre, fala no Brexit como o dia em que “a Inglaterra decidiu perder a guerra”. Isto no sentido em que o projeto europeu foi fundamental para “unir as peças do puzzle das nações” que tinha saído da Primeira Grande Guerra: “as nações que eram cabeças de império e as nações que eram partes de império passam a ser tratadas como iguais e a ver a sua soberania respeitada”, afirma ao Observador. “Não é por acaso que pouco depois de perder as colónias o Reino Unido [e Portugal] pede para entrar no projeto europeu”, acrescenta.

Certo é que a História tem sido sempre mais ou menos consistente, com a Grã-Bretanha a jogar do mesmo lado. “Estamos unidos pela História, pela Geografia e por interesses comuns e iremos desenvolver a nossa cooperação nessa base”, lembraram esta sexta-feira os principais líderes europeus – o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker, o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, e o atual presidente do Conselho da UE, Mark Rutte – na posição conjunta que assinaram a propósito da saída do Reino Unido da UE.

Todos sabem que o Reino Unido sempre foi um dos protagonistas da História da Europa. Durante séculos foi mesmo um dos “salvadores” contra os impulsos totalitaristas de algumas potencias europeias. Agora parece ser, não o garante do equilíbrio geopolítico, mas sim o fator de cisão. Certo é que daqui a uns anos o dia 23 de junho de 2016 será estudado como o dia em que a História mudou. Senão vejamos:

As guerras napoleónicas. A história é conhecida: no final do século XVIII, Napoleão chegava ao poder em França, acabando por ser coroado imperador em 1804, no pós-revolução francesa. Durante quase uma década Napoleão conduziu uma das maiores potências europeias de forma autoritária, com ambições expansionistas e com o intuito de impor o bloqueio continental à Europa. Neste capítulo da história, à semelhança do que aconteceria em todos os outros que opunham “a coesão e união dos poderes médios aos poderes hegemónicos”, sublinha Rui Tavares, o Reino Unido esteve mais vezes do lado dos poderes médios, contra os expansionistas, não obstante ter sido um dos grandes impérios.

E o papel do Reino Unido foi aqui essencial, na medida em que foi com o apoio da Grã-Bretanha que Napoleão acabaria por ser derrotado na Batalha de Waterloo, em 1815. Foram os exércitos da chamada Sétima Coligação, que incluía uma força britânica liderada pelo Duque de Wellington, que marcaram o fim dos Cem Dias e acabaram com a última batalha de Napoleão, derrotando o imperador.

Antes, já a chamada guerra da sucessão espanhola (1702-1714) tinha aliado o Reino Unido a Portugal e à Áustria na luta contra Espanha e França para tentar impedir o rei Luís XIV de ficar com o trono. Mais um exemplo, nota o historiador Rui Tavares, de como o Reino Unido se posicionou sistematicamente contra os poderes hegemónicos.

Ao Observador, o embaixador Francisco Seixas da Costa prefere falar em “defesa dos interesses particulares” que moveu a Grã-Bretanha no tabuleiro da história. Certo é que depois das guerras napoleónicas, o Reino Unido tornou-se a principal potência naval do século XIX o que, aliado ao facto de ter colónias espalhadas pelos quatro cantos do mundo, reforçou o seu peso no quadro geopolítico. Um peso que viria a ser diminuído pela ascensão dos EUA e depois a criação de organizações como a NATO ou a ONU.

A Primeira Guerra Mundial. De 1914 a 1918 o mundo dividiu-se entre as forças dos aliados, onde se incluíam as grandes potências como o Reino Unido, a França e o império russo, e as forças da Tríplice Aliança, onde se incluía o império alemão e o austro-húngaro. Foi o primeiro braço de ferro entre as políticas imperialistas das várias potências mundiais, que se iniciou com a invasão austro-húngara da Sérvia, seguida pela invasão alemã da Bélgica, Luxemburgo e França, e por um ataque russo contra a Alemanha. Rapidamente todas as grandes potências estavam em guerra e, através das colónias que tinham além-mar, o conflito rapidamente se alastrou a todo o mundo. Terminaria com a vitória dos Aliados, tendo o império britânico, com todas as suas colónias (nomeadamente na África do Sul, Austrália e Canadá) tido um papel essencial.

A Grande Guerra pode ter acabado com os grandes impérios mas isso deixou marcas e ecos que se fizeram ouvir na construção do projeto europeu. “O Reino Unido, assim como todos os ex-impérios, nunca quis uma política externa que limitasse a sua margem de manobra nas principais zonas de influência”, diz ao Observador António Martins da Cruz, ex-embaixador de Portugal na NATO. O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros reforça que o Reino Unido sempre privilegiou mais as relações externas com os EUA do que com a Europa.

A Segunda Guerra Mundial, contra a Alemanha nazi. O início da guerra é comummente aceite como o dia da invasão alemã da Polónia, que levou as grandes potências como o Reino Unido e a França a declararem guerra à Alemanha nazi. Sob o comando de Winston Churchill, o Reino Unido, assim como os EUA e a Rússia integravam a principal força dos Aliados contra a Alemanha, Itália e Japão, que estavam sob a liderança dos ditadores do velho continente e levaram a cabo o holocausto. A guerra foi o que se sabe, culminando no drama do holocausto, mas terminaria com a vitória dos Aliados.

Seguindo sua tradição imperial, o Reino Unido preferiu ficar de fora da integração europeia depois da Segunda Guerra Mundial. Mas com o desaparecimento do império e a prosperidade comercial que se começou a verificar no velho continente, Londres acabou por pedir a entrada na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1961, quatro anos depois da sua criação. O ex-presidente francês Charles de Gaulle ainda vetou duas vezes esta adesão, mas o Reino Unido acabou por entrar no bloco europeu em 1973.

Ao Observador, o embaixador Seixas da Costa lembra que o Reino Unido “nunca esteve a 100%” no projeto uma vez que não integrou o Tratado de Maastricht. E apesar da aliança com Portugal, e que se traduz “numa das mais velhas alianças do mundo”, foi precisamente a postura “mais integracionista” de Portugal no quadro europeu que contribuiu para ir “afastando” Lisboa e Londres ao longo do tempo.

Guerra Fria. O mundo mudaria novamente com o fim da segunda grande guerra e mas mais uma vez o Reino Unido estava do lado dos “bons”. A Europa saiu da guerra totalmente arrasada e ocupada pelos exércitos das duas grandes potências vencedoras. Os Estados Unidos e a URSS rapidamente entraram num despique de forças que se viria a manifestar em todos os níveis: político, ideológico, doutrinário, económico, militar. O braço de ferro de Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica de 1979 a 1990, foi aqui fundamental.

Assim se movimentou o Reino Unido na história, mas agora salta a primeira peça do puzzle. E, ironicamente, “a partir do momento em que o Reino Unido prescinde de estar na União Europeia, passa a perder peças do seu próprio puzzle”, assinala Rui Tavares, referindo-se à Escócia e à República da Irlanda, que não concordam com o afastamento da UE.

Foi “brincar com o fogo e sair queimado”, avisa António Martins da Cruz quando se refere à decisão de David Cameron de convocar o referendo.

Apesar da mudança de paradigma e do passo inédito, Martins da Cruz acredita que o papel que a Grã-Bretanha sempre desempenhou como ponto de equilíbrio de forças na Europa se vai manter. “O Reino Unido vai continuar a ser um fator de equilíbrio na geopolítica da Europa e vai continuar a articular as grandes questões, principalmente de defesa e política externa, com a Europa”, diz, defendendo que mesmo fora da União Europeia a importância do Reino Unido no quadro europeu não diminui: “vai continuar a ser o principal aliado dos EUA na Europa e o principal vínculo transatlântico”.

“É impensável o equilíbrio europeu sem o Reino Unido, como demonstraram os últimos séculos de história”, acrescenta Martins da Cruz, lembrando que o Reino Unido “continua a ser, a par de França, a única potência nuclear da Europa ocidental, continua a ser membro da ONU, da NATO e enquanto país europeu continua a ter uma palavra a dizer nas decisões da Europa”.