Shhhiu, não digam nada a ninguém. Tenho um fraquinho pela Itália.

Olho lá para baixo e, alinhados no relvado, estão tipos de cabelos brancos, rostos gastos pelas rugas, faces envelhecidas pelo tempo que levam nesta vida. Está cheia de trintões, malta com anos a mais disto, jogadores que ainda ouvem o hino agarrados — é diferente de abraçados — e que se abanam uns aos outros quando o acabam de entoar. Isto é pica, é sentimento, é a raça vista em homens que têm tantas horas contadas a jogar à bola. Perdão, futebol. Quem canta, grita, se mexe e abana os outros é Gianluigi Buffon, a lenda que podia ser avô de todos nós.

Não há como torcer o nariz à piada que é ver o tipo de quem se espera postura, controlo, medição de atos, vestir um impermeável, à pressa, e colocar na cabeça um boné azul da Itália. A chuva caía forte, a partida acabara de começar, Antonio Conte queria estar colado ao campo, a gritar, a berrar, a dizer como fazer o quê, a bater palmas. Sobretudo isto, a bater as mãos uma contra a outra, a felicitar, a dizer bravo. Porque os italianos surpreendem os espanhóis pelo aglomerado de coisas boas que fazem e deixam boquiabertos a nós, que vemos cá de cima no Stade de France. É a ousadia, a coragem de querer tentar ser melhor no jogo em que a Espanha ganha sempre. E ter um plano bem feito para o conseguir.

Um dos clichés do futebol é dizer que tática e matreirice é com os italianos. Aqui eles mostram-no, colocam os dois alas do 3-5-2 e Parolo e Giaccherinni colados a De Sciglio e Florenzi. Dizem a Buffon para pôr a bola na relva e para a passar rasteira, curta. A equipa tem de sair a jogar. E cada vez que o tenta consegue, porque os espanhóis parecem baratas tontas ou galinhas sem cabeça a pressionarem perto da área. Porque Iniesta e Fàbregas também não têm cabeça para pensar, por um segundo, como caem no engodo e deixam Busquets sozinho para caírem na ratoeira das alas. No meio de tudo isto há um buraco gigante ao centro, onde De Rossi aparece tão confortável que parece Pirlo e onde Éder e Pellè recebem bolas à vontade.

Os italianos atacam muito e fazem mal aos espanhóis com este plano que têm. Nos primeiros dez minutos chegam à área como quem cospe uma pastilha para o chão, fácil e sem esforço. Florenzi cruza com perigo cada bola que tem à direita e, num livre, encontra a cabeça de Pellè que faz De Gea brilhar na relva (9’). Éder farta-se de rematar perto da área e os cruzamentos tensos eram muitos e faziam os defesas espanhóis tremerem, ao ponto de Sérgio Ramos ter uma rosca no pé direito que não faz um auto-golo por acaso (29’). Cada vez que os italianos têm a bola chegam à área espanhola a darem a impressão de que não se esforçam muito. Parece tudo premeditado, até a forma como Éder, num livre à entrada da área, chuta com toda a força que tem à figura de David de Gea.

Antes de chutar, Bonucci diz-lhe algo, são sussurros, e o central conhece bem o outro que aparece nas barbas do guarda-redes, armado em vidente que antecipa uma bola não agarrada. De Gea não segura a bola e Chiellini está lá para encostar, depois de Giaccherinni chegar lá antes também. Até este pequenote que parece ser mediano em tudo quando está longe da baliza anda de bicicleta e mete-a-bola-para-dentro-e-chuta-ao-ângulo para obrigar o portero espanhol a duas paradas gigantes. Tudo isto acontece até ao intervalo e, sobre os espanhóis, nada escrito.

Aula de 45 minutos

Eles não atinam com nada. Fazem vista torta às bolas que perdem, não reagem, deixaram a intensidade noutros tempos, como há quatro anos, quando atropelaram uma Itália melhor que esta em nomes escritos no papel. Silva parece querer entrar com a bola na baliza e não remata. Iniesta vive apertado num polibã, sempre com italianos a fechá-lo e sem espanhóis a mexerem-se à sua frente, para receberem a bola. Morata não surpreende os três amigos centrais (Barzagli, Bonucci e Chiellini) que o sabem de cor da convivência na Juventus. Busquets é um lobo solitário a defender contra lobos em pele de ovelhas. Ramos e Piqué abordam mal as jogadas e precipitam-se como miúdos.

Os italianos dão uma aula de 45 minutos aos espanhóis e partem para a segunda parte com mais passes feitos que eles. São 210 contra 207 e isto, para uma seleção que há oito anos que vive da forma como usa a bola, diz muito. Diz que a Espanha volta do balneário a querer dar a volta a isto, mas sem mudar nada. Fàbregas e Silva juntam-se a Iniesta, a equipa pressiona mais, a bola é mais dela, os médios chegam-se à frente, as baratas já não são tontas a chegarem perto dos italianos. Mas a sensação de cá de cima é que os italianos evidenciam como é impossível jogar em hora meia como se joga em 45 minutos e abrandam. Retraem-se. Não arriscam tanto. Voltam a ser um pouco italianos.

Italy's goalkeeper Gianluigi Buffon celebrates his team's win after the Euro 2016 round of 16 football match between Italy and Spain at the Stade de France stadium in Saint-Denis, near Paris, on June 27, 2016. Italy won the match 2:0. / AFP / PIERRE-PHILIPPE MARCOU (Photo credit should read PIERRE-PHILIPPE MARCOU/AFP/Getty Images)

O avô Buffon celebra as coisas como uma criança que recebe um brinquedo dos pais (Foto: Pierre-Phlippe Marcou/AFP/Getty Images)

Ainda há energia para Éder, um brasileiro feito italiano, fazer Piqué parecer lento e deixar De Gea pará-lo na área (55’) — além de tornar negro o jogo que o central do Barça faz. Mas a Itália defende mais, fecha-se muito, espera na área como não o tinha feito. Iniesta já tem a bola de frente para a baliza e com gente a mexer-se à sua frente. E a Espanha está mais mexida. O craque careca deixa um passe rasteiro passar por ele à entrada da área para Aduriz, com o pé esquerdo, falhar a baliza por pouco. É o médio que tricota adversários com o pé direito que, de primeira, remata com o esquerdo uma bola que lhe cai no ar perto da área. É ele que encontra Piqué na pequena área, que desvia a bola com a ponta da bota. São os 38 anos de Buffon que param ambas as chances.

Os espanhóis são um conjunto de jogadores que até troca bem a bola e se chega à área, mas emperra. Nada fazem como equipa e Del Bosque não faz nenhum como selecionador. Deixa a equipa a atacar como os italianos estão habituados, sempre com três atacantes na frente, e apenas se levanta do banco aos 90’, impávido. A ver como os italianos são malucos a festejar a bola que Pellè remata em fúria para a baliza, a fechar um contra-ataque que Insigne e Darmián levam até ele.

É a fúria de contentamento italiana. É a desilusão de uma seleção espanhola que se olha ao espelho e vê um reflexo estilhaçado da equipa que venceu dois Europeus e um Mundial pelo meio. Desculpem-me, mas não consigo deixar de ter um fraquinho pelos italianos que chegaram aqui pela calada, sem olharem para eles, e fazem isto — subjugam a Espanha em tudo. Pelos jogadores que rodeiam o treinador após o último apito e saltam com ele. Pela forma como o avô Buffon celebra as coisas como uma criança que recebe um brinquedo dos pais. Pela forma como tipos como Barzagli e Chiellini cumprimentam adversários antes de irem festejar uma vitória contra uma Espanha que, supostamente, tinha um plano para dar a volta a esta Itália.

Porque Fàbregas, na conferência de imprensa, disseshiuuu, não lhes digas nada” para Morata, quando lhe perguntaram como os espanhóis o iam fazer. Agora sou eu, daqui de cima, no Stade de France, a pôr um dedo à frente da boca e a dizer-vos enquanto escrevo — “Shiuuu, não digam nada, mas esta Itália é grande”. E fascina-me, desculpem.