Crítica de Livros

Com este livro Júlio Verne ainda dá a volta ao mundo

O clássico do escritor francês com as aventuras de Phileas Fogg em viagem foi agora reeditado. Miguel Freitas da Costa regressa a "um dos livros mais perfeitamente arquitectados" de Verne.

Autor
  • Miguel Freitas da Costa

Título: “A Volta ao Mundo em 80 Dias”
Autor: Júlio Verne
Editora: Guerra e Paz

volta ao mundo em 80 dias

No comboio ascendente de S. Francisco a Nova Iorque, em princípios dos anos 70 do século XIX, Phileas Fogg, na sua impassibilidade característica, corre os Estados Unidos, sem os ver, passa por Sacramento, capital da Califórnia, Omaha (Nebraska), por Ogden ou Cisco ou Junction, ou tantos outros povoados, montes e vales, território sioux, “ocean to ocean”, do Pacífico ao Atlântico, “a vinte milhas por hora”, na antepenúltima, e uma das mais acidentadas, das etapas da sua Volta ao mundo em 80 dias, cujo itinerário Júlio Verne acompanha doutamente, contando os dias, as horas, medindo as distâncias, descrevendo mares, continentes, meteorologias, hábitos e peculiaridades, dizendo os preços, sempre com a conversão das libras em francos, explicando o funcionamento e, como se diria hoje, o racional dos fusos horários (a nova edição da Guerra & Paz contém o mapa da edição original) – sempre entusiasta:

Nova Iorque e São Francisco estão presentemente reunidas por uma faixa de metal ininterrupta que não mede menos de três mil setecentas e oitenta e seis milhas”

Verne nunca se cansa de “ensinar deleitando”. Depois de uma descrição da mecânica e da configuração das carruagens, o narrador não esconde a sua admiração: “A toda a extensão do comboio os veículos comunicavam por meio de corredores e os passageiros podiam circular de uma extremidade à outra do comboio, que punha à sua disposição carruagens-salões, carruagens-terraços, carruagens-restaurantes e carruagens-cafés. Só faltavam carruagens-teatro.” Mas – conclui com visão de futuro num tempo em que ainda vinham muito longe a música, a televisão ou o cinema a bordo – “tê-las-ão um dia”.

A volta ao mundo em 80 dias – que numa das versões portuguesas se chama singularmente A volta do mundo em 80 dias – foi dos maiores êxitos do escritor francês Jules Verne – desde sempre, para nós, Júlio Verne, por familiaridade ou por uma qualquer regra misteriosa que faz traduzir ou não os nomes próprios traduzíveis dos autores estrangeiros. (Será por causa da fonética original mais ou menos incerta para o público em geral? Em compensação, na recente tradução portuguesa de uma supérflua invenção espanhola, umas bem-intencionadas e infantilóides “Aventuras do jovem Jules Verne”, vem o prénom francês.)

O seu nome e os seus títulos há três gerações que fazem parte das “bibliotecas dos rapazes” do mundo inteiro (é dos autores mais traduzidos e mais constantemente publicados de sempre). Tenho alguns exemplares da edição portuguesa das suas obras logo nos anos 80 do século XIX (o editor de Verne em Portugal era então o lendário David Corazzi e entre os seus tradutores esteve, por exemplo, Pinheiro Chagas). Num desses livros um dos meus avôs escreveu o nome com uma caligrafia ainda escolar. A fortuna de Le Tour du Monde en 80 jours é uma história de quase cento e cinquenta anos (faltam só sete anos para esse aniversário, a primeira edição é 1873). É, desde a sua inicial publicação em folhetins até hoje, um dos seus livros mais conhecidos e apreciados e um dos mais perfeitamente arquitectados. É aquele cuja adaptação ao cinema de 1956 continua a ser, num repertório extenso nem sempre muito feliz, a mais famosa adaptação cinematográfica de uma obra sua.

À data da publicação da Volta ao mundo, a carreira de Verne como romancista vogava de vento-em-popa, para usar uma imagem apropriada a um descendente de armadores e navegador de certo modo modesto mas constante (nas suas viagens de barco visitou Portugal duas vezes). A edição em 1862 do seu primeiro romance publicado, Cinco semanas em balão, fora, mais de dez anos antes, uma aposta do editor Pierre-Jules Hetzel. Foi Hetzel, pioneiro da ideia de fornecer literatura à infância e à juventude, que “descobriu” Verne e durante os quarenta anos seguintes foi o fiel e severo “curador” das suas voyages extraordinaires ao longo de várias dezenas de títulos. Daí em diante, em maior ou menor escala, o êxito nunca desamparou editor e autor. Mas Verne dedicava-se às letras desde muito antes.

Antes da viagem

Escreveu sempre. Escreveu versos, como era próprio de um moço escritor daquela época. Dedicou-se também ao teatro, onde durante vários anos viu representadas comédias e operetas com razoável sucesso e a colaboração de gente de nota no teatro e na música. Numa breve estudo anónimo muito completo que acompanha uma das edições de bolso do Tour du Monde (Livre de Poche, 2000), faz-se notar, aliás, a propósito do seu clássico Da Terra à Lua, que além da aparente exatidão dos cálculos balísticos sobre o percurso da “nave” espacial disparada rumo à Lua, e para aqueles que a astronomia não apaixona, há no romance a verve de um Júlio Verne que lá “põe muita da ligeireza amável de autor de revistas de boulevard …” Essa “ligeireza amável” – em que nem sempre se tem reparado – é muito própria de Verne e também está presente neste livro.

Talvez não seja preciso explicar que “A volta ao mundo em 80 dias” parte da excêntrica aposta de um gentleman inglês, afortunado e um tanto misterioso, que à sua mesa de whist (um antepassado do bridge, com regras muito parecidas), no Reform Club, arrisca uma soma considerável em como consegue dar a volta ao mundo naquele prazo. É uma típica “aposta estúpida” que depois empolga toda a gente. As peripécias e dificuldades da façanha são apimentadas pela perseguição movida ao protagonista por um polícia que suspeita o homem de ter roubado uma forte soma no Banco de Inglaterra; e adoçadas pelo love interest personificado por uma beldade “parse” resgatada da pira funerária conjugal à passagem pela Índia. O comic relief está a cargo principalmente do criado de Phileas Fogg, um mocetão francês de nome Passepartout: os trocadilhos não assustavam o boulevardier Verne. A história acaba bem – como é de supor que toda a gente adivinha, ou já sabe.

Um dos pais da ficção científica, um “visionário” – mesmo quem não conhece quase nada de Júlio Verne, sabe isso. Quase no fim do século XX foi descoberto, num cofre displicentemente deixado por abrir, o manuscrito de um dos seus primeiros romances, que fora recusado pelo editor e há muito constava das listas de numerosos inéditos que teria deixado o incansável autor. Intitulava-se “Paris no século XX”. É uma antevisão que veio a ser desmentida pela realidade em muitos aspectos – um deles, como no famoso Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, a ideia do fim da literatura (só se for por uma gigantesca indigestão). Mas no mundo de 1960 imaginado por Verne, mais profeticamente do que na distopia do escritor americano, não é preciso queimar a grande literatura; os livros lá estão nas bibliotecas, mas o ensino é um gigantesco monopólio do Estado, ninguém quer saber do latim e do grego e tudo o que se deve aprender é “puramente científico, comercial e industrial”; toda a gente sabe ler e escrever mas ninguém realmente lê.

Isso não impede Júlio Verne de se deslumbrar com a noção de que virá um dia no seu entrevisto futuro em que o mundo inteiro está ligado pela “telegrafia elétrica” e a “telegrafia fotográfica” inventada por um professor de Florença permite “enviar à distância o fac simile de qualquer escrito, autógrafo ou desenho e assinar letras de câmbio ou contratos a cinco mil léguas de distância”. Mas a ideia romântica da oposição entre “poetas” e “artistas” e uma evolução tecnológica ao serviço de desalmados banqueiros, contabilistas e tecnocratas mostra como desde o princípio o amor de Verne à ciência não foi destituído de ironia e nunca correspondeu a uma incondicional fé no ‘progresso’ como a que lhe é geralmente atribuída e foi coisa bem própria do “estúpido século XIX”.

Esta é uma nova edição do clássico de Júlio Verne, especialmente esmerada embora com uma capa anódina que só muito minimamente evoca o “imaginário” do autor. Inclui pela primeira vez entre nós, garante o editor, as 58 ilustrações originais da obra. (Duas dezenas delas figuraram na edição de bolso da Europa América e uma ou duas, com excelente qualidade de reprodução, nos exemplares da coleção de capa cartonada vermelha das “viagens maravilhosas”, editada há muitos anos por Livraria Francisco Alves – Rio de Janeiro, S. Paulo, Belo Horizonte – e Livraria Bertrand – Rua Garrett, 73-75, Lisboa). Helder Guégués traduziu escrupulosamente de raiz, e anotou, pelo menos uma vez sem necessidade, esta nova “Volta” (mas já se sabe que cada cabeça sua sentença, e não é menos verdade em matéria de tradução; nem todas as suas escolhas são melhores do que as de outras versões mais despretensiosas; e, já agora, um aparte: preferia que tivesse respeitado nos títulos dos capítulos as variações originais entre uns “em que” acontece isto e aquilo, e outros em que se diz “no qual” ou “que”, em vez da uniforme e monótona fórmula do “em que”).

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