A Comissão Europeia decidiu estender por mais 18 meses a autorização do uso do glifosato nos 28 países membros. O anúncio foi feito, esta terça-feira, pelo comissário para a Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis, durante uma conferência de imprensa, na sequência do Conselho de Agricultura e Pesca da União Europeia, no Luxemburgo. “A comissão vai seguir a nossa obrigação legal. Sabemos muito bem que temos um prazo até 30 de junho. Vamos adotar uma extensão do glifosato por 18 meses”, disse Andriukaitis, citado pela agência Reuters. Fontes anónimas da comissão, citadas pela agência, dizem que a medida deverá ser oficializada esta quarta-feira.

De acordo com a revista Science Mag, a extensão foi concedida para que a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA) possa fazer uma análise completa dos perigos do herbicida. Numa reunião em maio, Estados-membros da União Europeia pediram a opinião sobre os efeitos cancerígenas do glifosato, antes de tomarem uma decisão. Na altura, Portugal e Alemanha decidiram abster-se e França e Luxemburgo disseram que votariam contra a matéria.

O uso de glifosato tem sido alvo de debates desde que a Agência Internacional para a Investigação do Cancro, órgão pertencente à Organização Mundial da Saúde (OMS), concluiu, em março de 2015, que há “provas limitadas” de que o herbicida é um “provável causador de cancro”, em oposição à opinião de algumas agências regulatórias, que afirmaram que a sua utilização seria segura “quando aplicado corretamente”. Ambientalistas, agricultores e empresas produtoras do herbicida também participaram do debate, com argumentos favoráveis e contrários.

Em Portugal, a agência ambientalista Zero, liderada por Francisco Ferreira (antigo membro da congénere Quercus), demonstrou “a sua preocupação face a esta extensão do prazo”, num comunicado enviado à imprensa. A agência propõe que o governo adote “de imediato” um pacote de medidas que permitam que a maior parte da atividade agrícola nacional faça uma adaptação progressiva para a produção de alimentos “mais amigos da saúde e do ambiente” e que se ponha em ação um plano de ação para a “produção e promoção de produtos biológicos”.

Segundo dados citados pela agência, a agricultura em modo de produção biológico representa apenas 6% da superfície agrícola do país, enquanto o uso de produtos fitofarmacêuticos foi 2,7 kg por hectare e o balanço de nutrientes por hectare representou, em 2014, um excesso de aproximadamente 43 kg de azoto e de 6 kg de fósforo, “o que demonstra que a nossa agricultura ainda é, em geral, pouco eficiente e um agente poluidor dos aquíferos e dos cursos de água”, lê-se no texto.

Já Lopo de Carvalho, consultor da empresa FleishmanHillard e responsável por representar indústrias produtoras de glifosato, acredita que o herbicida é “essencial para uma agricultura europeia competitiva e amiga do ambiente, pois utilizada dentro das normas de segurança, permite prescindir de inúmeras outras substâncias químicas com mais efeitos prejudiciais para o ambiente”.

Em declaração dada ao Observador, o consultor defende que o glifosato “permite uma série de praticas agrícolas altamente amigas do ambiente, como a não movimentação do solo, preservando e aumentado em muito a biodiversidade deste, mesmo mais do que em campos de agricultura biológica”.

Texto atualizado a 01/07, às 19h38, com a declaração de Lopo de Carvalho sobre as vantagens do glifosato.