O setor financeiro devia estar ao serviço da economia real, mas o que se passa é o inverso, estando a economia real a ajudar o setor financeiro, realçaram esta quarta-feira especialistas durante as suas intervenções no Fórum do BCE.

“O setor financeiro devia servir a economia real mas o que acontece é o contrário. É a economia real que está a servir o setor financeiro”, lançou Andrew Sheng, professor da Universidade de Hong Kong, num debate moderado por Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE).

No último dia de trabalhos do Fórum do BCE, que decorre em Sintra, Claudia Buch, vice-presidente do Bundesbank (banco central alemão), alinhou pelo mesmo diapasão, sublinhando que as discussões do setor financeiro “devem ser enquadradas num contexto mais alargado da economia real”.

A responsável contestou a ideia de que a quebra acentuada dos lucros dos bancos tenha sido provocada pela reforma regulatória implementada nos anos recentes, atribuindo-a à conjuntura económica.

Constâncio concordou com esta visão de Claudia Buch, admitindo que “os bancos estão sob pressão” a nível regulatório e operacional, mas que “o ambiente de baixas taxas de juro não foi ditado só pelas decisões ao nível da política monetária”.

Certo é que o tema da regulação, que muitos consideram excessiva, esteve em destaque ao longo esta quarta-feira de manhã, com vários académicos a lançarem críticas também à política monetária seguida pelos bancos centrais, sobretudo, devido às baixas taxas de juro que esmagam a rentabilidade da banca comercial.

“A minha crítica aos bancos centrais é que não tiveram em conta o impacto das suas medidas nos bancos comerciais”, afirmou Charles Goodhart, professor emérito da London School of Economics (LSE), apontando para a fixação das taxas de juro de referência em mínimos históricos.

Por sua vez, o economista Adair Tuner, que foi presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unido, defendeu que o foco não deve ser apenas como tornar os bancos – e o sistema financeiro no seu conjunto – mais resilientes, mas “na quantidade e tipo de dívida que o sistema financeiro produz”, e o potencial impacto que poderá ter na economia.

Andrew Sheng abordou também as questões ligadas à regulação, realçando que o apertar das regras só foi feito depois de anos de ‘rédea solta’ que permitiram muitos abusos no sistema financeiro, com graves repercussões a nível económico.

“Os banqueiros sentem-se hoje dirigidos pela regulação. Mas quem provocou a crise já se reformou e está a viver muito bem. Ninguém foi preso”, vincou o perito, que assinalou que o maior risco que hoje enfrenta o setor financeiro é a “incerteza” que resulta das alterações geopolíticas e tecnológicas.

Na linha do apelo lançado na terça-feira, em Sintra, por Mario Draghi, líder do BCE, Sheng considerou ser “necessário alinhar objetivos entre bancos centrais, reguladores e a indústria financeira, de forma a dar prioridade às áreas que precisam de reformas mais urgentes”.

Isto, porque na sua opinião “não é possível fazer todas as reformas regulatórias ao mesmo tempo”.

Sobre o impacto dos avanços tecnológicos sobre o setor financeiro, Sheng apontou para empresas como o Google, o Facebook e a Amazon que, no seu entender, “estão a comer o almoço dos retalhistas e dos bancos”.

E insistiu: “A tecnologia está a alterar a realidade”.

Também Adair Turner admitiu que “vão continuar a aparecer novas formas de risco”, mas considerou que o sistema financeiro está agora mais resiliente do que estava antes da crise de 2008.

“Antes do ‘Brexit’, muitos jornalistas internacionais perguntavam-me se teríamos um novo ‘movimento Lehman’s’. E a resposta era que não, se por esse movimento entendiam uma série de eventos em catadupa, que provocam um efeito dominó e uma crise nas entranhas do próprio sistema financeiro”, disse.

No entanto, alertou, “a economia global não está em boa forma”.