O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou esta quarta-feira inevitável haver uma revisão das previsões económicas que foram feitas “noutra Europa”, antes do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia.

À saída de uma iniciativa no Palácio da Ajuda, em Lisboa, questionado sobre uma eventual revisão das metas macroeconómicas do Governo em outubro, o chefe de Estado recordou que já tinha falado num ajustamento de previsões, mesmo antes do referendo britânico.

“O que há de novidade é a votação no Reino Unido”, disse. “Isto abre uma nova situação económica. E, portanto, as previsões que foram feitas noutra Europa, noutro mundo, noutra situação, naturalmente, irão sendo revistas. É inevitável que sejam revistas”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu que “esta incógnita” sobre as consequências do referendo no Reino Unido se vem somar à conjuntura de crise nalguns países para os quais Portugal exporta, motivo pelo qual já tinha colocado o cenário de uma revisão de previsões económicas.

Contudo, desdramatizou novamente esse cenário, referindo que “países muito mais florescentes em termos económicos” estão a rever as suas previsões: “Não há drama. É assim. A vida económica é assim. Quando há, ainda por cima, uma votação como a do referendo britânico, é assim”.

O chefe de Estado esteve no Palácio da Ajuda durante cerca de duas horas, a participar numa iniciativa da SIC Notícias, do Expresso e da Nos, designada “Círculo de Inovação”.

Nessa ocasião, já tinha desdramatizado a revisão de metas, considerando que é preciso “não ter o complexo de assumir que os objetivos são móveis”.

“Pois se o mundo muda, se a Europa muda e se Portugal muda, como é que é possível dizermos que aquilo que tínhamos previsto há seis meses, que obviamente não corresponde à realidade, não pode e deve ser assumido como tendo mudado? Qualquer gestor sabe isso. Não pode continuar agarrado a previsões de há seis meses quando a realidade mudou, e vai mudar”, argumentou.

Num discurso de cerca de 20 minutos, Marcelo Rebelo de Sousa insistiu que é preciso “flexibilidade mental para perceber que a realidade mudou e que há que redefinir objetivos”.

“Vai nisso alguma ofensa ao amor-próprio, à autoestima? Pelo contrário. Vai nisso muita lucidez e muita sensatez”, defendeu.

Por outro lado, comparou a política atual com a das décadas anteriores, considerando que “o ritmo da mudança” é agora muito maior, o que torna mais difícil “resistir à tentação de ir a correr atrás da mudança perdendo o distanciamento para ponderar e para decidir”.

“E infelizmente, em muitos aspetos da vida portuguesa, no quadro crítico que vivemos, nós temos um volume de preocupações conjunturais excessivo que nos tira tempo para questões estruturais, e para convergirmos nas questões estruturais”, lamentou.

Segundo o Presidente da República, Portugal passa o tempo a discutir “a lei que vai ser votada no dia seguinte ou que vai ser promulgada daí a uma semana, a decisão da Comissão Europeia que vai ser tomada na próxima semana, a reação perante um determinado problema que se coloca no quadro do sistema financeiro”.

Neste contexto, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que é preciso “ganhar distância, olhar para o médio e para o longo prazo”, em vez de “estar cada dia a discutir o que se vai passar no dia seguinte, na semana seguinte ou no mês seguinte”.