Na cidade Gdańsk, tal como em toda a Polónia, o reboliço começa uma hora mais cedo do que em Lisboa. E quando se é futebolista – e se está em pré-época –, mais cedo começa ainda. O telefonema ficou prometido para as oito da manhã em ponto, no pouco tempo que Flávio e Marco Paixão têm entre o despertar, o pequeno-almoço com o plantel do Lechia Gdansk e o primeiro treino do dia. E à primeira, logo antedeu Marco do outro lado, com Flávio por perto. A conversa haveria de ser a dois. Com eles, gémeos, iguais no rosto como no trato, é sempre assim.

Os irmãos Paixão são ambos avançados — e começaram por sê-lo no clube “da terra”, o Sesimbra –, ora mais ao centro ou mais descaídos na lateral, mas são sobretudo dois goleadores. Curiosamente, à primeira pergunta, responderam “à defesa”: “Afinal, mereciam ou não estar na convocatória para o Euro 2016?”. As estatísticas até dizem que mereceriam uma convocatória antes do Euro. Quiçá para o Mundial de 2014. Marco Paixão não teve a sua melhor época em 2015/2016: começou no Sparta de Praga, terminou no Lechia Gdansk, mas uma lesão retirou-lhe muitos jogos — e sem eles não fez qualquer golo. Mas nas duas épocas anteriores na Polónia, mesmo antes da experiência checa, fez 34 ao todo. E todos pelo Slask Wroclaw. O irmão Flávio fez 33 golos nas últimas três temporadas, entre o Slask e, mais recentemente, o Gdansk.

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“Muita gente aqui nos faz essa pergunta, se nós achamos que devíamos estar no Euro ou não”, começa por recordar Marco, a poucos meses de chegar aos 32 anos. E responde depois:

Não vou mentir: é claro que quero representar a Seleção. É o sonho que eu e o meu irmão mantemos desde crianças. Se for só pelos golos, e se continuarmos a marcar aqui, acho que a esperança é a última a morrer e haveremos de ser convocados. Mas também sabemos que Portugal tem muitos e bons jogadores na nossa posição. E no Euro estamos bem servidos.”

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Créditos: Flávio Paixão/Facebook

Já Flávio Paixão encontra uma outra razão para que nenhum dos irmãos tenha sido até hoje convocado para a Seleção, primeiro por Paulo Bento e agora por Fernando Santos: a distância que vai da Polónia aos olhos dos selecionadores.

Atenção: o campeonato aqui na Polónia é muito competitivo. Mas é evidente que não é o mesmo que o inglês, o espanhol ou o alemão. O problema está sobretudo na visibilidade. Tenho a certeza que se fizesse tantos golos quanto faço na Polónia, mas em Inglaterra – até mesmo num clube de menor dimensão –, que seria convocado. Mas a Federação está atenta e também já começa a convocar jogadores de outros campeonatos”

É o que atira Flávio, lembrando o caso de Eduardo, o guarda-redes que está convocado por Fernando Santos e que atua no Dinamo Zagreb da Croácia.

A Polónia não é só Lewandowski

Agora vamos lá falar de Euro 2016. O selecionador polaco Adam Nawałka convocou dois jogadores do Lechia Gdansk, o clube de Flávio e Marco Paixão, para França: o defesa esquerdo Jakub Wawrzyniak e o extremo Slawomir Peszko. “O Jakub ainda nem se estreou no Euro. E o Peszko sempre que entrou, foi mesmo em cima do final”, lembra Flávio Paixão, elogiando depois o segundo: “Cuidado com o Peszko; ele é muito rápido e quando tem hipótese de rematar, remata”.

A velocidade é uma qualidade que não falta a nenhum dos polacos “da frente”. E nenhum, tal como Slawomir Peszko, pede licença para rematar à baliza. “Sim, essas são as principais qualidades da seleção da Polónia. Eu acho que, nesse sentido, o jogador que é mais perigoso é o Kamil Grosicki, do Rennes, o extremo que atua mais sobre o lado esquerdo. Mas o Błaszczykowski, na direita, apesar de por vezes estar algo desaparecido durante o jogo, quando surge, surge bem. E depois há sempre os dois avançados da frente [Arkadiusz Milik e Robert Lewandowski], que podem resolver um jogo em qualquer altura”, explica Marco Paixão.

Marco está a esquerda na fotografia, com os calções "19"; o irmão Flávio, de cabelo mais curto, segura-lhe a camisola do Lechia Gdansk (Créditos: D.R.)

Marco Paixão está a esquerda na fotografia, com os calções “19”; o irmão Flávio, de cabelo mais curto, segura-lhe a camisola do Lechia Gdansk (Créditos: D.R.)

Mas a Polónia não é só “Lewa”, certo? “Não, claro que não. Tal como Portugal também não é só Ronaldo. Mas acho que a presença de qualquer deles é muito importante. Eles resolvem um jogo em segundos. O Lewandowski lesionou-se no pé contra a Suíça, mas se ele não entrar de inicio a Polónia vai continuar a ser perigosa só com o Milik”, lembra Flávio.

Ok, a Polónia é forte a atacar. E a defender? As estatísticas dizem-nos também que os polacos só sofreram um golo em quatro jogos no Euro 2016, diante da Suíça, nos oitavos-de-final. Marco Paixão não se deixa convencer por isso.

Na minha opinião, a defesa até é o ponto mais fraco deles. E é aí que Portugal tem que apostar. Por exemplo, o defesa esquerdo da Polónia é o Pazdan, do Legia [de Varsóvia]. E ele nem defesa esquerdo é; é um central que foi ali adaptado. Portugal tem que pressioná-lo, com o Quaresma, com o Nani, com o Ronaldo, ir para cima dele no um contra um, ser agressivo. Se pressionarmos a defesa deles, vamos conseguir vencer”, explica.

Portugal “está bem e pode vencer o Euro”

E afinal de contas, Portugal é ou não favorito a vencer o Euro? Fernando Santos diz que sim. “Quando eu tenho um treinador que me diz que quer ser campeão, isso motiva-me. Portugal está bem e pode realmente vencer, o problema tem sido a finalização. Contra a Áustria a bola não queria entrar, mas contra a Hungria já entrou. E mesmo contra a Croácia também acabámos por marcar. Os jogadores não estão ansiosos e isso é importante. Temos tido azar”, acredita Flávio Paixão.

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Créditos: Flávio Paixão/Facebook

O irmão, Marco, é mais moderado no favoritismo que atribui a Portugal.

Toda a gente diz que Portugal teve a sorte de ter calhado no melhor lado da eliminatória e, por isso, é favorito. Não acho. Acho que qualquer seleção que chega aos ‘oitavos’, chega por mérito. Olha a Islândia: fizeram troça de nós quando empatámos com eles e agora eliminaram a Inglaterra do Euro. Não há seleções fáceis. E se eliminarmos a Polónia agora, a Bélgica ou o País de Gales também vão ser adversários complicados depois”, explica.

Na Polónia há bandeiras à janela

Flávio e Marco estão a preparar-se para a nova época no Lechia Gdansk. É o quinto clube onde jogam os dois: o Sesimbra foi o primeiro, seguindo-se o FC Porto, Hamilton, Slask Wroclaw e agora o Gdansk. E mesmo quando não jogam lado a lado, como foi o caso das experiências em Espanha ou no Irão, atuam sempre em clubes do mesmo país ou de cidades próximas.

É uma casualidade. São os próprios clubes que nos contratam aos dois, na mesma altura, não porque nós pedimos ou porque somos gémeos, mas porque sabem que individualmente temos qualidade e que nos entendemos muito bem em campo.

Mas voltando ao estágio do Gdansk: a poucas horas do Portugal-Polónia, como estão os polacos – no plantel e no país – a viver este Europeu? “Ainda te lembras do Euro 2004? Com as bandeiras todas às janelas e toda a gente na rua a festejar? Aqui é igual. O sentimento é o mesmo. Os polacos já fizeram história ao qualificar-se para os ‘quartos’; foi a primeira vez que conseguiram. E os adeptos aqui acreditam que podem chegar mais longe ainda”, explica Flávio. E Marco conclui: “Aqui no estágio, como somos de Portugal, há sempre aquelas ‘bocas’, provações de colegas polacos, mas é tudo com respeito. No final vamos ser nós a rir, vais ver.”