“De Cabeça Erguida”

Oitocentos euros. É o que custa por dia ao contribuinte francês, segundo “A Cabeça Erguida”, da atriz e realizadora Emmanuelle Bercot, a “regeneração” e a “ressocialização” de um jovem delinquente. Malony (Rod Paradot, com ar e olhar de jovem fera) é um deles. Filho de uma mãe solteira e irresponsável, cresceu sem pai e apresenta características de sociopata violento e de auto-destruição. Malony é insuportável e incontrolável, é impossível ter a menor simpatia por ele, mas em “De Cabeça Erguida”, o sistema social e judicial não pensa o mesmo, e tenta reabilitá-lo repetidamente, e ao longo da sua adolescência, mesmo que ele não corresponda. A cada oportunidade que a sua juíza (Catherine Deneuve, muito matrona) e o seu conselheiro (Benoît Magimel, bastante estragado, como pede o papel de quem tem que aturar tais espécimes para ganhar o pão) lhe dão, Malony faz ainda pior e enterra-se cada vez mais. Mais do que paciência, as autoridades mostram uma leniência e uma condescendência para com ele que ultrapassam os limites. Emmanuelle Bercot quer cultivar um realismo irrepreensível, mas falha logo na representação das figuras institucionais, todas pacientes, compreensíveis e exemplares no cumprimento das suas funções, e a conversão do irrecuperável Malony é forçada e fica mal explicada. Será a paternidade o remédio para todos os males da delinquência adolescente? “De Cabeça Erguida” foi o filme de abertura do Festival de Cannes, e gostava de ser um filme dos irmãos Dardenne quando crescer.

“O Estado Livre de Jones

Mais um exemplo de que o cinema, e em especial o de Hollywood, é geralmente pouco aconselhável a quem quer aprender História. Em “O Estado Livre de Jones”, Gary Ross pega na figura de Knight Jones, um desertor do exército da Confederação durante a Guerra Civil Americana, que liderou uma revolta de agricultores e escravos fugidos no seu condado do Mississippi, e permanece uma figura complexa e controvertida, parte bandoleiro oportunista, parte paladino idealista, e filtrando-o, tal como ao contexto histórico em que ele viveu e agiu, pelo olhar politicamente correto contemporâneo, transforma-o numa mistura de guerrilheiro libertário americano, Robin dos Bosques anti-Confederado e antecessor político e messiânico de Martin Luther King. Ou seja, “O Estado Livre de Jones” só pontualmente tem alguma relação com a realidade que se propõe recriar, é cinema “histórico” versão Oprah Winfrey e arrasta-se por duas horas e vinte, mais parecendo ter o dobro da duração. No papel de Knight Jones, Matthew McConaughey faz o possível por se parecer com um “hillbilly” sulista carismático, mas não passa de uma estrela de Hollywood com ar desconchavado e um sotaque de cortar à faca.

“Amor e Amizade”

Apesar de adaptar uma obra de juventude e menos conhecida de Jane Austen, “Lady Susan” (teria 19 ou 20 anos quando a escreveu) e só publicada postumamente, “Amor e Amizade”, de Whit Stillman, pode muito bem ser o melhor filme feito até agora sobre um livro da autora. E no caso, um livro atrevida e maliciosamente “subversivo”, em grande parte por causa da sua heroína, Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale), uma aristocrata, viúva recente e sem pecúlio, manipuladora, determinada, intriguista e fura-vidas, além de altiva, bonita, inteligente e espirituosa, mal vista pelas mulheres e admirada pelos homens. Lady Susan anda a tentar casar rica, enquanto se envolve com o marido de uma das suas amigas, que a acolheu na sua própria casa. E procura ainda um bom marido para a filha Frederica, um pãozinho sem sal, com a qual embirra solenemente. Não contente com isto, em privado, Lady Susan ainda troça dos códigos morais, de compostura e de comportamento social do seu tempo e, pela forma como se comporta, faz gato-sapato deles. “Amor e Amizade” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.