Gay Talese não tem intenção de promover o seu último livro, The Voyeur’s Motel (“O motel do voyeur“, em tradução literal) por falta de credibilidade da sua principal fonte, na qual se baseia a narrativa de não-ficção, noticia o The Washington Post.

No livro, do qual já se conhecia um capítulo desde a sua pré-publicação em abril na revista New Yorker, o aclamado jornalista de 84 anos conta a história de Gerald Foos — proprietário do Manor House Motel, situado em Aurora, Denver, no Colorado (EUA) — que espiava os próprios hóspedes.

A “vigilância” de Foos teria começado no final dos anos 60 e durado até meados dos anos 90 e a obra de Talese baseia-se nos diários onde o dono terá registado o que via através de falsas condutas de ventilação que davam acesso a um sótão, construídas por si. Mas os registos de propriedade do estabelecimento revelam incongruências com os relatos de Gerald Foos, atualmente com 82 anos.

Foos vendeu o motel em 1980 e só voltou a comprá-lo em 1988, mas algumas das coisas que contou a Talese sobre os hóspedes teriam ocorrido neste período de tempo. “Não deveria ter acreditado numa única palavra dele”, respondeu Gay Talese quando o jornal The Washington Post o confrontou com os registos de propriedade.

Não vou promover este livro. Como poderia sequer atrever-me a promovê-lo quando a credibilidade dele foi pelo cano abaixo?“, acrescentou o escritor.

Gay Talese afirmou ao mesmo jornal que considera que a sua única fonte, Gerald Foos, “não é de confiança“. Mas as suspeitas do jornalista sobre o caráter do proprietário do motel, que agora considera “um homem desonesto, completamente desonesto”, não são novas.

O autor tomou conhecimento da história do motel através de uma carta do próprio Foos, que se ofereceu para partilhar com ele os registos que havia feito sobre os seus hóspedes, que incluem descrições pormenorizadas de relações extraconjugais, relações homossexuais e orgias, mas só o faria sob anonimato, uma condição que fez o escritor duvidar das intenções de Foos.

“Como um escritor de não-ficção que insiste em usar nomes reais em artigos e livros, eu sabia que não podia aceitar a sua condição, o anonimato. Estava profundamente perturbado pela maneira como ele tinha violado a confiança dos seus clientes e pela forma como tinha invadido a privacidade deles. Tal homem poderia ser uma fonte confiável?”, lê-se no capítulo publicado na New Yorker.

Apesar das dúvidas, Gay Talese levou o projeto por diante e escreveu o livro com base nos diários de Foos, que, por sua vez, garante “de forma inequívoca” que nunca mentiu e que “tudo o que disse naquele livro é a verdade.”

O jornalista visitou o proprietário do Manor House Motel apenas uma vez, em 1980. A visita de Talese durou três dias e numa dessas noites terá vigiado um casal de hóspedes juntamente com Foos, dias antes de o motel ser vendido. O rigor da investigação e o comportamento ético do jornalista foram muito debatidos quando a New Yorker publicou um excerto da obra.

Para além das questões que levanta acerca da privacidade dos clientes e da descrição do voyeurismo do proprietário do motel, o livro descreve também o envolvimento de Foos num homicídio, uma das razões pelas quais havia pedido anonimato ao escritor. The Voyeur’s Motel só agora está prestes a chegar aos escaparates das livrarias porque Foos autorizou, finalmente, que a sua identidade fosse revelada.

“Fiz o melhor que podia por este livro, mas talvez isso não tenha sido suficiente”, admitiu o escritor. O livro tem lançamento previsto para 12 de julho, nos Estados Unidos, e apesar de o autor renegar a obra a editora Grove/Atlantic Books não tem intenção de o cancelar.

O produtor e realizador Steven Spielberg comprou os direitos da obra e previa que a sua adaptação ao cinema fosse realizada por Sam Mendes, que ganhou um Óscar pela realização do filme “Beleza Americana”.

Morgan Entrekin, presidente-executivo da Grove/Atlantic Books disse que a editora pondera acrescentar em edições futuras “uma nota do autor ou notas de rodapé para explicar alguns erros factuais ou falta de informação.”