O futebol também criou os seus chavões. E nem todos são necessariamente verdade. Eis um: a Itália é defensiva até mais não, mas vence resvés Campo de Ourique. E eis outro: a Alemanha, aconteça o que acontecer, e enquanto foram 11 contra 11 sobre o relvado, vence sempre no final — Gary Lineker dixit.

E quando este sábado se defrontarem as duas, Itália e Alemanha, como vai ser? Só uma poderá seguir em frente nos quartos-de-final. A Alemanha, antes do Euro começar, era a favorita a trazer o “caneco” (mais até do que a Espanha, vencedora das últimas duas edições). Afinal, é a campeã em título do Mundial e mantém (com um ou outro upgrade, mais um downgrade chamado Lahm) a base que venceu no Brasil. Mas isso era antes do Euro começar. A Alemanha continua a ser candidata, claro. Passou em primeiro lugar no Grupo C (com os mesmos sete pontos da Polónia, mas melhor goal average) e cilindrou (3-0) a Eslováquia de Hamsik nos “oitavos”.

A Itália, por sua vez, antes do Euro começar, era tudo menos favorita a chegar à final de Paris e vencer. Desde logo, porque Pirlo não foi convocado (está a gozar a “reforma dourada” na MLS), porque Verratti e Marchisio (que poderiam ser “Pirlos”) se lesionaram e porque Balotelli não está para “futebóis” nos últimos tempos. Ah, mas espera lá: essa é a Itália de hoje e de sempre. Uma Itália de quem se diz não valer um tostão furado, mas que depois chega à final e vence os favoritos. Ou melhor, às vezes vence, às vezes não.

13 Jul 1994: Antonio Conte of Italy in action during the World Cup semi-final against Bulgaria at the Giants Stadium in New York. Italy won the match 2-1. Mandatory Credit: Mike Hewitt/Allsport

Como futebolista, Antonio Conte perdeu duas finais pela Itália: a do Mundial de 1994 contra o Brasil e do Euro 2000 diante da França (Créditos: Mike Hewitt/Allsport/Getty Images)

Olhemos primeiro para a Itália em Europeus. Em 1968 (com Zoff, Facchetti, Rivera e Mazzola) venceu; no Euro 2000 seria derrotada no prolongamento com um golo (103′) do “italiano” Trezeguet; mas em 2014 nem a prolongamento foi: perdeu 4-0 com a Espanha. Quanto a Mundiais, a Itália venceu em 1934 e 1938 com o Vittorio Pozzo (o “inventor” do catenaccio) no banco. Antes, só se havia realizado um Mundial, o de 1930, que foi vencido pelo Uruguai. A Itália voltaria às finais em 1970, sendo derrotada na final do estádio Azteca pelo Brasil de Pelé. Mas em 1982 venceu mesmo: Paolo Rossi, Tardelli e Altobelli molharam a sopa, Paul Breitner reduziu, e os italianos venceram (3-1) a Alemanha no final. A final de 1994 pode resumir-se ao penálti que Roberto Baggio atirou para “fora” do Rose Bowl, na Califórnia. É pelo menos disso (e do penteado de Baggio) que mais nos recordamos hoje. Mas ainda falta uma final. Aquela em que a Itália venceu a França nos penáltis. Lembra-se? Foi no Olympiastadion de Berlim, a 9 de julho de 2006. Não se lembra? É a da cabeçada de Zidane em Materazzi.

A Itália de Conte: não se é defensivo só porque se utilizam três centrais

No Euro 2016, Antonio Conte montou o “onze” à sua imagem. Quer isto dizer que a tática de italiana (na só as posições que os jogadores ocupam no relvado, mas também as movimentações que fazem) é idêntica à da Juventus que Conte treinou entre 2011 e 2014, e onde venceu três Scudeto e duas supertaças de Itália. Não tem os mesmos “ovos” de Turim (faltam Vidal, Pogba ou Tévez, mas também os italianos Pirlo ou Marchisio — e desses e das suas ausências já falámos), mas tem feito umas omeletes de deixar água na boca em França.

Desde logo, Conte venceu. Ou venceu quase sempre. A Itália começou por derrotar a Bélgica (que é segunda no ranking da FIFA, dez lugares acima dos italianos) a abrir o Euro, venceu depois a Suécia de “Ibra” e só perdeu com a Irlanda a fechar o Grupo E, talvez por estar com a cabeça nos “oitavos” e não naquele jogo. Talvez. A verdade é que, se é essa a razão da derrota contra os irlandeses, nenhum tifosi levará a mal o deslize de Conte. É que chegada aos “oitavos” e à eliminatória com a Espanha, a Itália venceu 2-0 e “vingou” a goleada sofrida na final do Euro 2012, em Kiev. Mas a Itália fez mais do que isso. A tática de Conte engoliu o “tiki-taka” espanhol, não permitiu que a Espanha tivesse a bola, Iniesta mal se viu no Stade de France, e não estivesse David de Gea numa noite “sim”, o 2-0 poderia ter sido um três, quatro, cinco ou seis. A “secos”, pois Buffon só fez uma defesa “à Buffon” perto do fim.

Mas que tática é esta? À partida, dir-se-ia que não é diferente da de Cesare Prandelli, o treinador que foi goleado pela Espanha na tal final de 2012 e que nem conseguiu passar do terceiro lugar (atrás da Costa Rica e do Uruguai) no Grupo D do Mundial 2014. Tal como Prandelli, também Antonio Conte utiliza três centrais. Certo? Errado. Prandelli utilizava três centrais (Barzagli, Bonucci e Chiellini, os três da “Juve” então treinada por Conte), sim, mas Chiellini era mais defesa esquerdo do que central, e no meio-campo Prandelli utilizava um losango com De Rossi, Pirlo, Marhisio e Montolivo — no ataque estavam, sós, Cassano e Balotelli. A tática de Prandelli era defensiva. Até porque os laterais Abate e Chiellini mal subiam no flanco, os médios eram mordiscadores de calcanhares, e depois era bola na frente e fé no Mario [Balotelli]. Conte não é assim. E Conte assume os seus três centrais.

Mas isso não faz da tática dele uma tática defensiva. Antes pelo contrário. Os três, Barzagli, Bonucci e Chiellini, estendem-se a toda a largura da defesa, de uma lateral à outra. Os três esticam a defesa da Itália (são “mestres” a pôr os adversários em fora-de-jogo, avançando no relvado como se uma coreografia fosse) até meio do seu meio-campo defensivo. Com isto, os laterais, De Sciglio à direita e Florenzi (também ele destro) à esquerda, são praticamente extremos, subindo pelo flanco como tal e cruzando (bem) para a área vezes sem conta. O meio-campo está por conta do giallorossi De Rossi, o seis, e de Parolo, um box-to-box da Lazio, que tanto recua até ao lado do primeiro e é trinco, como faz circular a bola em terrenos que são de dez – e tem um remate de média e longa distância que é uma autêntica “bujarda”. O ataque, esse, é a três, com Giaccherini e o ítalo-brasileiro Éder mais laterais, e Graziano Pellè, possante, altíssimo, na área a “cutucar” centrais.

PARIS, FRANCE - JUNE 27: Italy players line up for the team photos prior to the UEFA EURO 2016 round of 16 match between Italy and Spain at Stade de France on June 27, 2016 in Paris, France. (Photo by Matthias Hangst/Getty Images)

Um, dois, três, quatro, cinco… Sim, bem contados são só 11. Mas contra a Espanha, a atacar ou a defender, os italianos pareciam mais, pareciam mil. E isso explica-se pela “maleabilidade” tática que Conte impõe (Créditos: Matthias Hangst/Getty Images)

Mas a tática (3-4-3) de Conte não é tão linear assim. E é por isso que a todo-poderosa Espanha se deu mal com ela. É que o tal 3-4-3, com dois laterais que são praticamente médios-interiores, rapidamente (e durante o jogo, dependendo do adversário ou da Itália estar a defender, estar em ataque organizado ou em contra-ataque) se transforma num 4-4-2 ou até num 3-5-1, sabendo sempre os jogadores aquilo que têm que fazer em cada situação. E isso só é possível com muito trabalho na hora de treinar. Muuuuuito trabalho.

Voltando à tática e à transformação desta. Contra a Espanha, muitas vezes, e por forma a anular os seus pontos fortes, o meio-campo (com Busquets, Iniesta, Fàbregas e Silva) e a posse de bola, Conte deu ordem para que o 3-4-3 de transformasse no tal 3-5-1. Nunca abdicou dos três centrais — que se entendem às mil maravilhas –, mas fez recuar Parolo para o lado de De Rossi e assim matou dois coelhos de uma cajadada só: Fàbregas e Silva. Depois, Éder, que atua sobretudo pela direita ou nas costas de Pellè, recuou para a posição dez. Assim, não só Éder impedia (marcando-o homem a homem) que Busquets construísse jogo desde trás, como estava sempre pronto a sair em contra-ataque pelo centro do meio-campo, deixando o espanhol a léguas de distância com a sua velocidade e movimentações “chatas”. Pellè, esse, continuaria próximo da área, ainda e sempre posicional, inteligente a dar-se ao fora-de-jogo e a fugir dele no último instante, forte nos duelos aéreos, o que impedia que Piqué e Sérgio Ramos o metessem “no bolso”. Quem falta? Giaccherini, o “bandido” (sem ofensa) da Itália. É baixinho, veloz como um raio, e uma carga de trabalhos para marcar defensivamente. Que o digam Juanfran e Alba, os laterais espanhóis, que ora o apanhavam à esquerda, ora à direita, e “apanhavam” sempre de frente, pois Giaccherini tem por hábito avançar para o ataque vindo de trás, com a bola coladinha ao pé destro, nunca se oferecendo à marcação enquanto espera um passe.

Mas Giaccherini não é só importante no ataque. É sobretudo importante a anular os ataques contrários. Um exemplo: Juanfran e Alba, voltando a eles, são laterais ofensivos nos seus clubes e na Roja, mas contra a Itália mal subiram ao ataque ou cruzaram para a área. Porquê? Porque Giaccherini, a deambular de flanco para flanco, é o primeiro apoio para De Sciglio e Florenzi na hora de defender. Se um deles é ultrapassado, Giaccherini faz a dobra. Ou vice-versa. Depois, e sendo também De Sciglio e Florenzi ofensivos, Giaccherini é ofensivo com eles, criando sempre uma linha de passe mais ao centro, ou mesmo na ala, possibilitando assim o chamado toma lá, dá cá. Ou seja, um passa, o outro recebe o passe, tudo ao primeiro toque e rápido, criando-se, assim, espaço para que quem o recebe, cruze. Ou remate. Ou o que for. Mas é com os “Giaccherinis” que se baralham as marcações contrárias. Sobretudo “marcações” como as espanholas, onde os laterais (não tendo um médio-ala à sua frente) estão quase sempre sós na hora de defender.

Mais Kovac do que Herrera

Não, Conte não é um treinador defensivo. Dizer-se da Itália de Conte que é a continuação do catenaccio de Vittorio Pozzo (o treinador que venceu duas vezes o Mundial na década de 1930) ou de Helenio Herrera (que derrotou, com o Inter, o Benfica de Eusébio na Taça dos Campeões Europeus de 1965) é mentira. O tal “chavão” de que falámos no início e que é só isso: um chavão.

O catenaccio, logo à partida, não utiliza três centrais; utiliza quatro – sendo que nenhum deles é um lateral “puro” ou ofensivo tão pouco –, recuando um deles para trás dos restantes: é o libero. No Inter de Herrera o libero (que “secou” Eusébio em 65) era Picchi; na Itália de Pozzo era Pietro Rava, de quem o próprio treinador disse ser “il più potente del mondo” nessa posição. E isso dispensa traduções. À frente da defesa, estavam sempre (ou quase sempre) três médios, posicionais, de marcação mais individual do que à zona. Como explicar melhor, olhando ao presente? Assim: está a ver o Daniele De Rossi? Saem três para a mesa do centro, se faz favor. À frente deles, alguém haveria de resolver o jogo. No Inter de 1965 “resolviam” Luis Suárez, Sandro Mazzola e o brasileiro Jair.

Conta-nos a História (a do futebol, claro) que o catenaccio “morreu” em Roterdão, a 31 Maio 1972. Talvez as notícias sobre a sua morte tenham sido, e citando Mark Twain, “manifestamente exageradas”; Arrigo Sacchi e Giovanni Trapattoni, Fabio Capello ou Marcello Lippi, todos italianos, todos papa-taças, nunca foram propriamente “ofensivos”. Mas a verdade é que nessa noite, a de Roterdão, o Ajax venceu (2-0) o Inter. E o treinador dos holandeses, Stefan Kovács, “inventou” aquela que seria a antítese do futebol defensivo dos italianos: chamou-se-lhe “futebol total”. Johan Cruijff, que em Roterdão fez os dois golos do jogo, seria em campo (com Kovac no Ajax ou Rinus Michels na “Laranja Mecânica”) e como treinador (na Dream Team do Barça) o maior expoente desse futebol. E transmiti-lo-ia a um seu pupilo. Um tal de Pep. Pep Guardiola.

Voltando a Conte. Nele não há ponta de catenaccio por onde pegar. Aliás, até está mais próximo do “futebol total”. Se isso chega para vencer o Euro? Depois do Itália-Alemanha voltamos a falar, pode ser?