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Camilo de Oliveira morreu na noite de sábado aos 91 anos, avançou a família à Agência Lusa. O ator e comediante era conhecido pelos vários programas de comédia na televisão portuguesa em que atuou como protagonista, como Camilo e Filho, Camilo na Prisão, As Aventuras de Camilo ou A Loja de Camilo, para além das muitas peças de Teatro em que participou desde 1950. Tinha 91 anos.

O ator estava internado, já na unidade de cuidados paliativos, devido a dois cancros, que lhe afetavam a próstata e o intestino. O funeral está marcado para quarta-feira.

Camilo de Oliveira nasceu a 23 de julho de 1924 em Buarcos, na Figueira da Foz. Mais propriamente no Teatro Caras Direitas, enquanto os seus pais, que faziam parte de Companhia de Teatro Rentini, representavam naquela sala. “O meu pai fazia de Dom Pedro, a minha mãe fazia de Inês de Castro, já de barriga. Já estava um Castrozinho lá dentro a querer sair”, gracejou numa entrevista a Manuel Luís Goucha, na TVI. Foi naquela altura, em plena representação, que o ator acabou por nascer. “Ai ai ai ai ai ai ai… E pronto. Não havia por onde se deitar, fomos para o camarote de direção lá de cima. E foi aí que eu nasci.”

Fez a sua vida enquanto ator “porque tinha de ser”, uma vez que nasceu e cresceu rodeado de artistas. Aos cinco anos estreou-se nos palcos, mas só aos 15 anos é que surgiu de forma profissional. A partir daí, atuou nalgumas das salas de espetáculo do país, enquanto membro de de companhias de teatro itinerantes. Começou por se destacar no teatro de revista, no qual se estreou com “Lisboa é coisa boa”, no Coliseu dos Recreios, em 1951.

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A partir daí, foram várias as revistas, comédias e peças de teatro onde se destacou. Os nomes são vários e sintomáticos de dois factos: a longevidade da carreira de Camilo de Oliveira e o sentido de humor onde foi criado e do qual acabou por ser uma figura de proa. Eis alguns nomes: Portugal Espanha (1952), Viva o Homem (1954), Abaixo as Saias (1958), Ó Pá, Não Fiques Calado (1963), E Viva o Velho (1965), Frangas na Grelha (1971), Aldeia da Roupa Suja (1978), Há Mas São Verdes (1983), Toma Lá Que É Democrático (1992), Certinho e Direitinho (2000) e, a sua última presença num palco, O Meu Rapaz é Rapariga (2008).

Ao longo dos anos, Camilo de Oliveira foi ganhando protagonismo nos trabalhos em que participava, onde chegou a ser autor, ator principal e diretor de cena. Durante este tempo, admite que criou inimizades com os “anti-profissionais”. “Os profissionais não são difíceis de dirigir, os que são difíceis de dirigir são os amadores que querem ser bons e querem ser grandes atores. Esses é que são difíceis”, disse numa entrevista a Manuel Luís Goucha em 2015. “Quando a gente chamava a atenção disto ou daquilo, que estava mal caracterizado, que estava com as meias com buracos ou com os sapatos mal engraxados, vinham para os cafés dizer mal de nós”, recordou.

Enquanto isso, passou pela televisão, numa primeira fase. Em 1981, desempenhou vários papéis no Sabadabadu, na RTP — entre os quais uma imitação irrepreensível do então Presidente da República, Ramalho Eanes.

No entanto, seria na sua segunda passagem pela televisão que chegaria ao ponto alto da sua carreira, já nos anos 90. Foi em 1995 que se estreou na SIC, e em Camilo & Filho, Lda (1995), seguindo-se nos quinze anos seguintes várias séries onde era protagonista e autor, todas com o seu nome em evidência: As Aventuras de Camilo (1997), Camilo na Prisão (1998), A Loja do Camilo (1999), Camilo, o Pendura (2002, RTP1), Camilo em Sarilhos (2005-06) e, por fim, o último trabalho da sua carreira de mais de 60 anos, Camilo, o Presidente (2009-10).

O ator estava afastado dos palcos há cinco anos. Numa entrevista ao site Agência de Informação Norte publicada a 27 de abril, presumivelmente uma das últimas que deu, Camilo de Oliveira falou da dificuldade que tinha em lidar com o fim da sua carreira. “É de facto uma luta saber que a minha carreira está no fim, sofro bastante com isto, por não estar já com saúde para dar o rendimento que o público até aqui exigia de mim” confessou. “Fiquei convencido de que já não tinha capacidades para o público gostar de mim”, admitiu, para mais à frente referir aquilo que é mais importante para um ator. “Existem cinco coisas que interessam num ator: público, público, público, público e público. Sem ele, um ator nada faz.”

Os últimos anos da vida de Camilo de Oliveira foram marcados pela ausência dos palcos e também pela doença. Teve ao seu lado a mulher, a atriz Paula Marcelo, que conhece quando ela ainda tinha 16 anos. “Ela é tudo”, disse a Manuel Luís Goucha. “Ela é a minha enfermeira, é a minha mulher, é o meu amor, é a minha amante. É tudo. A Paula Marcelo para mim é tudo.”

Por algumas vezes, surgiram rumores, propagados com facilidade nas redes sociais, de que o ator tinha morrido — sendo mais tarde desmentidos, até pelo próprio. Nessas alturas, o humor era a ferramenta para lidar com a morte. “É engraçado, eu acho uma graça… ‘Ó, Camilo, você não morreu?!’… Eu não, eu estou vivinho da Costa, estou vivo e recomendo”, lembrou numa entrevista. Noutra ocasião, já com 90 anos, perguntaram-lhe se tinha medo de morrer. “Nada!”, exclamou. “Eu já me passei uma vez. Nesta última intervenção, passei-me…”, disse, como quem diz que esteve muito perto de morrer. “Mas depois estava muito frio e disse assim ‘Ai… está tanto frio aqui… Até já, eu venho já!'”