O realizador Abbas Kiarostami morreu nesta segunda-feira, aos 76 anos. Tinha-lhe sido diagnosticado um cancro gastrointestinal em março de 2016, para o qual andava a receber tratamento em França, onde vivia. Foi operado várias vezes e a última dessas cirurgias foi realizada no mês passado.

Kiarostami nasceu em Teerão em 1940 e lá permaneceu, mesmo depois da revolução iraniana de 1979. Chegou a comparar-se com “uma árvore que está enraizada no chão”. Kiarostami acreditava que, se se “transferir a árvore de um sítio para outro, a árvore deixa de dar fruto. Se eu tivesse saído do meu país, seria como a árvore”. Aprendeu a lidar com os censores e teve que refazer muita da sua obra para que não fosse vetada pelas forças do regime.

Embora hoje seja admirado como um dos grandes nomes do cinema – na semana ‘passada, foi um dos 683 realizadores convidados a fazer parte da Academy of Motion Pictures and Sciences – esta não foi a sua primeira escolha. Estudou Belas Artes na Universidade de Teerão e trabalhou como designer gráfico. Filmou dezenas de anúncios para a televisão iraniana.

Foi só em 1969, quando assumiu a direção do departamento de cinema do Kanun (Centro para o desenvolvimento intelectual de crianças e jovens adultos), que começou a fazer filmes. Em entrevista ao Guardian, em 2005, admitiu que “ao início era só um trabalho, mas foi o que me tornou num artista”.

O seu primeiro filme é de 1970. Em 1997, ganhou a Palma de Ouro, em Cannes, com o filme “O Sabor da Cereja”. Em 1999, ganhou o Leão de Ouro, no Festival de Veneza pelo filme “O Vento Levar-nos-á”. Realizou 44 filmes. Os seus últimos trabalhos foram o filme “Like Someone in Love”, de 2012 e a curta-metragem “Venice 70: Future Reloaded”, em 2013.

Escreveu 45 películas, produziu 11 e editou 27. Colaborou com outros realizadores iranianos que também lutam contra a censura que assola o cinema no país. Escreveu o filme em que Jafar Panahi se estreou na realização, “The White Baloon”. O filme ganhou o prémio Câmera de Ouro em Cannes. Panahi tinha trabalhado com Kiarostami enquanto assistente de realização em “Trough the Olive Trees”.

As fortes restrições ao cinema no Irão, que justificaram a condenação de Panahi a seis anos de prisão, além da proibição de voltar a fazer filmes no país, levou Kiarostami até Paris, onde estava radicado desde 2010 e onde acabou por falecer.