Enterrado numa cadeira na esplanada da Cinemateca, fala como se murmurasse. Segura na testa uns óculos de sol Ray Ban, pede mais uma cerveja e puxa de mais um cigarro. “Sou um velho anarquista”, declara.

O realizador húngaro, de 61 anos, passou por Lisboa no âmbito do ciclo de programação “Encontro com Béla Tarr”, que decorreu na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema entre 27 de junho e 2 de julho.

Veio apresentar cinco dos seus filmes: O Homem de Londres, 2007; Sátántangó, 1993; Perdição, 1987; Gente Pré-Fabricada, 1982; e Macbeth, 1982. Além de comentar quatro filmes de realizadores que o influenciaram: Os Oprimidos, de Miklos Jancsó; O Emigrante, de Fassbinder; Viagem a Tóquio, de Ozu; e Perigo na Noite, de Hitchcock.

É considerado um dos mais importantes realizadores do cinema europeu moderno. Começou a filmar no fim da década de 70, mas os portugueses só o notaram a partir de 1994, com Sátántangó, uma das suas obras-primas – exibida precisamente pela Cinemateca.

Desde que anunciou o fim da carreira, em 2012, dirige uma escola na Academia de Cinema de Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina. Passa a maior parte do tempo a viajar. “Pertenço à minha mala, que é grande, nem sei bem onde vivo, mas decidi que quero parar, estou farto desta vida nómada, sou velho demais para isto”, desabafa.

Quinta-feira, ao fim da tarde, falou com o Observador. O mítico mau feitio, se existe, deixou-o em casa.

Costuma dizer que o cinema da sua adolescência estava longe da vida e das pessoas, o que lhe desagradava. Começou a filmar para tentar mudar o mundo?
Quando somos novos queremos sempre mudar alguma coisa no mundo. Se não quisermos mudar o mundo, somos uns conformistas de merda. É função dos jovens mudar o mundo, se não conseguem estão lixados. Era essa a minha posição. Comecei a filmar porque queria agitar as pessoas, agredi-las, forçá-las a pensar em quem são, no mundo que as rodeia, na função que têm.

No fundo, queria fazer o mesmo consigo.
Claro.

Que resultados conseguiu?
É uma boa pergunta. Por um lado, consegui alguma coisa. Por outro, não consegui mudar o mundo, claro. Mudei a linguagem do cinema ou deixei marcas fortes nesta merda… Se considerarmos o cinema como parte do mundo, então mudei uma pequena parte do mundo.

E o resto da sociedade?
Isso não consegui. Assumo que falhei.

Quando é que percebeu que falhou?
Foi um processo, não posso dizer que tenha havido um momento. Quando somos novos, dizemos que todos os problemas estão na sociedade, por isso é que não nos sentimos bem e somos infelizes. Depois percebi que os problemas não são apenas da sociedade, são talvez mais ontológicos. Passo a passo, à medida que aprofundei a minha visão das coisas, percebi que a análise não é assim tão fácil.

Quer dizer que no princípio tinha uma visão marxista do mundo e aos poucos foi mudando?
Nunca fui bem um marxista. Cresci num país alegadamente comunista. Não era um país comunista, era um sistema feudalista de merda, embora eles apregoassem que eram comunistas. Eram mas é um monte de merda. Eu era de esquerda, mas não segui a linha oficial do marxismo. Todos líamos Marx no liceu, mas eu era anarquista. O marxismo é uma caixa e nunca encontrei a minha caixa. Os filmes que fiz, o estilo, a forma, era quase tudo mais ou menos anarquista. E acho que agora sou um velho anarquista.

Porquê velho anarquista?
Porque estou velho! Mas a sensibilidade social mantém-se.

Uma parte da sua biografia pouca conhecida é a do período de exílio em Berlim.
Tive de sair da Hungria, foram tempos difíceis, foi mesmo a fase final do comunismo e eles expulsaram-me.

[trailer de Damnation, 1987]

Porquê Berlim?
É muito simples: estava a fazer Damnation [“Kárhozat”, de 1987] à margem do sistema, era um filme ilegal, que fugia à censura, e eles não me perdoaram. Disseram-me que nunca mais iria ter um tostão para filmar fosse o que fosse na Hungria. Era novo, falei com Ágnes [Ágnes Hranitzky, companheira de Béla Tarr] e decidimos ir para Berlim. Consegui uma bolsa da DAAD [organização alemã de intercâmbio de estudantes] e fomos. Arranjei um passaporte esquisito, só permitia viagem de ida.

Quanto tempo passou na Alemanha?
Um ano e meio, entretanto o Muro de Berlim caiu e o mesmo tipo que me tinha dito que eu nunca mais conseguiria dinheiro para fazer filmes encontrou-me em Berlim e pediu-me para voltar para a Hungria, que o país tinha mudado e eu já era bem-vindo.

Quer dizer quem era essa pessoa?
Não. Estava ligado ao governo.

Nas entrevistas que dá costuma ficar incomodado quando os jornalistas e críticos começam a tentar analisar os seus filmes. Porquê?
Recuso pontos de vista metafísicos, porque são o oposto do que é um filme. Um filme é uma coisa muito simples, é para ser ouvido, para se entender o que acontece entre as personagens, o movimento, mais nada. Acredite em mim. Os filmes de outros realizadores que escolhi para mostrar aqui na Cinemateca são exatamente o mesmo. Todos os realizadores têm interesse apenas nas relações humanas.

Mas isso não destrói o mito de que o cinema está ligado ao inconsciente?
Destrói, é isso mesmo que quero. Quero que as pessoas oiçam apenas o que estão a ver. Não tragam interpretações, significados, nada dessas merdas que não têm razão de ser. É preciso sentir o ritmo, a atmosfera.

A sua mensagem é: sintam, não pensem.
A mensagem é: confiem nos vossos olhos, oiçam com o coração, esqueçam o cérebro.

Porque é que filma quase sempre a preto e branco?
Fiz filmes a cores quando senti que era necessário… Como dizer… Quando senti que a cor tinha uma função dramatúrgica, como em Macbeth. Fiz duas curtas também a cores. Mas tenho de sentir que tem uma função, se não, prefiro o preto e branco, que também é colorido, no sentido em que tem uma escala de cinzentos.

Em que momento da preparação do filme decide se usa ou não o preto e branco?
Não é uma decisão, é uma sensação. Porque é que não acredita em mim? Quer-me obrigar a olhar o cinema como um processo intelectual, como se fosse preciso preencher espaços em branco. Não. Fazer cinema és tu, como és, como vês o mundo, como o transformas dentro de ti e como articulas o que sentes. É muito simples. De outra forma, estás a fazer uma criação da treta, forçada e falsa. Quando se impõe uma visão estrita aos atores e à equipa, não funciona. É preciso sentir.

É isso que ensina aos seus estudantes?
Não lhes ensino nada, a minha escola tem um slogan: “Formação não, libertação sim”. Apenas ajudo os alunos a libertarem-se, para serem eles mesmos. Veja que os grandes realizadores fizeram apenas o que sentiram. Lamento. Fazer cinema é como cozinhar. Temos uma receita, vamos ao mercado comprar os ingredientes, carne, peixe, vegetais, ervas, e depois, mesmo com a receita, temos de criar a partir desses ingredientes, criar com o que temos.

Sugere que se oiça uma voz interior.
Não fui eu que disse, mas é isso. Não faz sentido ensinar receitas, é errado.

Que idades têm os seus alunos?
O mais novo tem uns 20, o mais velho tem uns 36.

Qual é método de ensino?
Muito simples: criei um sistema de relações pessoais. Fazemos parte do sistema universitário, como uma faculdade, preenchemos os critérios de Bolonha e essa merda toda. Temos bacharelato, licenciatura e felizmente já não temos doutoramentos. São 35 pessoas. Tenho de os conhecer a todos pessoalmente. Temos estudantes de Singapura, da Coreia, do Brasil, do México, dos EUA, da Colômbia, de Inglaterra, da Islândia, das Ilhas Faroé.

E de Portugal?
Já tive três. O Salvador é um deles, encontrei-o agora em Lisboa. E há um outro, o Diogo. Temos aulas teóricas, com o Jonathan Rosenbaum, por exemplo, que durante duas semanas mostrou cinema independente americano. Jean-Michel Frodon foi mostrar cinema francês. Depois temos workshops com realizadores, como por exemplo o Pedro Costa, que já lá esteve duas vezes. E há um terceiro nível, que é quando os alunos começam a trabalhar nos seus próprios projetos, é aí que entro como mentor. Eles aparecem, explicam-me o que querem fazer, tenho de lhes dar luz verde, digamos assim. Preciso de entender tudo profundamente, entender a mente deles, é a pior parte para mim, entender e desenvolver o que eles sentem. Toda a minha empatia e sensibilidade têm de estar ali. Não quero que eles mudem, não quero influenciar.

[trailer de O Cavalo de Turim, 2011]

Depois de O Cavalo de Turim, em 2011, anunciou que nunca mais iria filmar. Qual foi a opinião da sua companheira? Ela assinava os filmes como co-realizadora…
A decisão foi minha, ela entendeu bem e concordou. Éramos quatro, com László Krasznahorkai e Mihály Vig. Concordámos todos com esta decisão. A longa viagem terminou, chegámos ao destino.

Sente que através dos seus alunos vai continuar a realizar filmes?
Não. Tenho muito cuidado com isso. Ajudo-os, mas nunca vou com eles para a rodagem, sei que a minha presença iria influenciar. Não me permito ir, proíbo-me.