Nem o Governo tem a força de Sansão para enfrentar as instituições europeias, nem a direita foi uma Dalila traidora que entregou o poderoso Sansão aos filisteus porque não cumpriu o défice de 2015. Na Europa hoje só há poderes moderados – não há Sansões – com a exceção da Alemanha, da França que é a França, e dos que se vão embora, os britânicos. Como Portugal é Portugal – e António Costa não tem super-poderes para enfrentar Bruxelas –, o debate de hoje foi a cantiga do tempo que volta para trás. “O tempo não volta para trás”, disse o primeiro-ministro a Passos Coelho. “Desista de se manter em 2015 porque o mundo está em 2016”. Assistimos a uma bela sessão de passa culpas.

O primeiro-ministro nem teve como evitar o anúncio da Comissão exatamente à hora de começar o debate sobre o Estado da Nação. Uma “humilhação”, como disse Catarina Martins. Um “ataque” ao país, acusou a líder do Bloco. O anúncio da abertura do processo sancionatório, acabou por o ajudar António Costa compor a narrativa. A culpa era de Dalila que traiu Sansão, o anterior Governo que deixou o défice derrapar por causa da austeridade.

No entanto, de peito feito – e Grouxo Marx dizia que não viu Sansão e Dalila porque não ia ver um filme onde o herói tinha mais peito que a heroína –, António Costa voltou a garantir que não ia haver plano B nem medidas excecionais, invocando poderes que talvez não tenha. É uma garantia que só o tempo vai provar, e que o otimismo não resolve. Perante a censura das instituições europeias, com ou sem sanções, o primeiro-ministro pode ser obrigado a ajustar as contas de 2016 por causa do défice estrutural ou refletir isso nas de 2017, mesmo que continue a negá-lo. Os próximos dois meses são decisivos. E isso terá consequências na estabilidade da “geringonça”.

O debate foi duro. Neste filme parlamentar, Sansão e Dalila nunca estiveram apaixonados. Quem tem responsabilidades? “É absolutamente lamentável, e é pena que o PSD não tenha resistido à tentação da mesquinhez, procurando atacar a execução de 2016 para encobrir o fracasso de 2015”, acusou o primeiro-ministro. Referiu a intervenção infeliz de Maria Luís Albuquerque, que disse que se ela fosse ministra das Finanças não haveria sanções: “Foi tristíssimo assistir, por mera mesquinhez, ao romper desse consenso nacional [contra as sanções]”. Seria ela a Dalila traidora. Carlos César, líder da bancada do PS, foi mais longe e acusou o PSD em termos que valeram uma enorme pateada: “O PSD chegou ao ponto zero do orgulho de ser português”.

Mais pateadas da direita foram depois dirigidas a Catarina Martins: “Posso estar enganada, espero estar enganada, mas a ideia que fica é que, neste campeonato, a direita está a torcer pela Alemanha desde o primeiro dia”. Valeram de pouco os avisos da mesa da AR para os deputados não destruírem a mobília, por isso, continuaram a patear. Uma pateada bíblica.

O debate foi uma sessão de irritações. Até Pedro Passos Coelho perdeu a fleuma: “Não admito que diga que é anti-patriótico dizer que o Governo não está a cumprir as metas”. Também não tinha sido ele a cortar os cabelos a Sansão com a execução orçamental de 2015. A justificação foi uma novidade que carece de confirmação. O tempo voltou para trás. Aliás, o que pede a canção evocada por Costa é “Ó tempo volta para trás” – e foi o que Passos fez. Meteu-se na máquina do tempo, fez umas contas e às tantas estava-se a debater o Estado da Nação de 2015. O líder do PSD tentou provar que sem as medidas que respeitam à banca – Banif e CGD – o défice de 2015 foi de 2,8%. Verdade ou mentira? Certo ou errado? E porque razão só disse isto agora? É o que se vai discutir todo o verão.

Como a Comissão Europeia fez questão de dizer que as sanções seriam só sobre o passado, acabou por servir o discurso do PS e deixar o PSD descalço a justificar-se. Passos pode perder aqui o capital político de rigor que era o eixo da sua comunicação. E António Costa garante que Portugal vai sair do procedimento em 2016, mesmo sem austeridade. No fim da história, Sansão ficou cego e só os próximos números da economia e das contas nacionais dirão se o primeiro-ministro sofre de alguma cegueira otimista. Mas o herói bíblico ainda teve forças para um ato derradeiro: o orçamento de 2017, os resultados das reversões, e a tensão com que a Europa esticar a corda ditarão se o atual Governo repetirá o debate do Estado da Nação daqui a um ano.