O cinema de Steven Spielberg tem muitas crianças solitárias, sozinhas ou deixadas à sua sorte pelas mais variadas circunstâncias, do Jim de “Império do Sol” à variada miudagem de “Hook”, passando por David, o menino cibernético de “AI – Inteligência Artificial”. Até mesmo o extraterrestre de “E.T. – O Extraterrestre” pode ser visto como uma “criança” alienígena perdida na Terra. Em “O Amigo Gigante”, há mais uma dessas crianças em falta de adultos, a pequena órfã Sophie (a espevitadíssima Ruby Barnhill), que vive num orfanato de Londres. E como “O Amigo Gigante” adapta ao cinema um livro de Roald Dahl (“The BFG”, que o escritor dedicou à filha Olivia, que morreu de uma encefalite aos sete anos), a amizade que Sophie vai fazer é literalmente fantástica.

[Veja o “trailer” de “O Amigo Gigante”]

Sophie tem o (bom) hábito de ficar acordada até tarde a ler. Uma noite, vê uma estranha e enorme sombra nas ruas. É um gigante (Mark Rylance, transfigurado pela feitiçaria digital) que pega nela e a leva para o seu país, a Terra dos Gigantes. Sophie pensa que ele lhe vai fazer o que todos os gigantes fazem às crianças: devorá-la. Mas não só este gigante é bondoso, amável e vegetariano, como também é um solitário como ela. E se as outras crianças do orfanato atazanam Sophie, o gigante é atormentado pelos outros da sua espécie, por não ser mau, carnívoro e brutal, e porque, ao pé deles, parece pequeno e enfezado. Sophie descobre ainda que o seu novo amigo tem um trabalho: recolher sonhos num local mágico do seu país, e dá-los a sonhar aos humanos. É claro que a menina não quer voltar para o orfanato, mas ao ficar com o amigo, corre perigo de vida. É que se os outros gigantes a descobrem, devoram-na num fósforo.

[Veja os bastidores da rodagem de “O Amigo Gigante]

“O Amigo Gigante” foi o último argumento escrito pela falecida Melissa Mathison, ex-mulher de Harrison Ford, que morreu de cancro no final de 2015 e assinou, famosamente, para Spielberg, “E.T. – O Extraterrestre” (o filme é-lhe dedicado). Felizmente, quer ela, quer o realizador, que tem uma acentuada e exasperante propensão para a lamechice, não omitiram ou atenuaram nenhum dos elementos que tornaram os livros de Dahl tão queridos das crianças, com as quais ele tanto e tão bem sempre se identificou. Além da inventividade narrativa, da imaginação estralejante e da capacidade de encantamento, há ainda o reconhecimento dos medos da infância, da hostilidade ou indiferença dos adultos, e de um mundo que pode ser duro, violento e mau; o humor corrosivo e cúmplice, ou detalhes que os mais crescidos condenam mas os mais pequenos adoram, como piadas envolvendo secreções, gases ou coisas nojentas de todo o tipo, caso dos intragáveis vegetais que são a dieta do gigante e que servem de pegajoso esconderijo a Sophie numa situação de perigo.

[Veja a entrevista com Steven Spielberg]

Passado entre uma Londres dos anos 80 subtilmente fantasiosa e a Terra dos Gigantes, que se alcança saltando de uma montanha para as nuvens, “O Amigo Gigante” é uma fantasia feérica com fagulhas de terror, mas também muito bem-humorada e estriada de uma excentricidade unicamente “british”, onde nada mais nada menos do que a Rainha de Inglaterra (Penelope Wilton, de “Downton Abbey”) contribui decisivamente para salvar o dia. (Spielberg também se inspirou de forma clara nas ilustrações originais de Quentin Blake para compor as personagens e o visual da fita). Mas a história, e com ela o filme, cairia por terra, se a figura do gigante, e a identificação e interacção emocional entre ele e Sophie, não fossem convincentes, tocantes, cativantes, se eles não nos fizessem acreditar no que são, dizem e fazem, na forma como se reconhecem um no outro e nos laços que criam.

[Veja a entrevista com Ruby Barnhill e Mark Rylance]

Para que isso aconteça são fundamentais o facto de Steven Spielberg não ter sufocado e “apagado” Mark Rylance sob uma camada de efeitos digitais e de “motion capture” ; e a interpretação de Rylance, toda ela em coloridos e expressivos cambiantes faciais e vocais (a algaraviada que o gigante fala ficou também intacta), recordando-nos do princípio ao fim da fita que no centro de todo aquele aparato digital efeitista, há um ator a dar carne, coração e humanidade a uma criatura fantástica. “O Amigo Gigante”, primeiro filme de Spielberg para a Disney, é um brilhante e felicíssimo exemplo de como se põe a mais avançada tecnologia dos efeitos computacionais (quase já indistinguível da magia, como diria Arthur C. Clarke) a trabalhar para erguer um filme em tudo tão reconfortantemente clássico e afirmativamente fiel a uma rica tradição literária e cinematográfica.