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Iraque

Relatório britânico confirma que a invasão do Iraque já estava decidida antes da Cimeira das Lajes

No fim da reunião nos Açores, os aliados fizeram um ultimato a Saddam e à ONU para que se evitasse a guerra. Mas os planos do Reino Unido e Estados Unidos já estavam traçados há muito.

O histórico encontro marcou o primeiro passo para a invasão do Iraque, que ocorreria apenas quatro dias depois

Luke FRAZZA/AFP/Getty Images

Autor
  • João Pedro Pincha

O relatório sobre a participação britânica na Guerra do Iraque de 2003 vem confirmar a ideia de que a Cimeira das Lajes, nos Açores, foi o primeiro passo para a invasão daquele país do Médio Oriente e não o último esforço de evitar um conflito armado, como os líderes do Reino Unido, Estados Unidos, Espanha e Portugal afirmaram na altura. Várias semanas antes da cimeira, na qual participou o então primeiro-ministro Durão Barroso, e enquanto decorriam negociações para que a intervenção armada tivesse o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, George W. Bush e Tony Blair já tinham acordado na necessidade de invadir militarmente o Iraque.

No relatório, elaborado por John Chilcot e divulgado publicamente na quarta-feira, revela-se que o encontro nas Lajes teve como objetivo manter as aparências de que os Estados Unidos e o Reino Unido ainda queriam evitar a guerra com o regime de Saddam Hussein. Foi isso, aliás, que os líderes comunicaram ao mundo depois da reunião. Mas sabe-se agora que Bush e Blair decidiram na cimeira que, caso o Conselho de Segurança da ONU não mudasse de ideias no prazo de 24 horas, a invasão aconteceria na mesma. A Cimeira das Lajes foi a 16 de março de 2003. A guerra no Iraque começou quatro dias depois.

A 14 de março, dois dias antes da reunião entre Bush, Blair, Aznar e Durão nos Açores, o primeiro-ministro inglês já tinha decidido constituir um gabinete de guerra, composto por responsáveis militares e civis, que ia começar a trabalhar a 19 de março, véspera da invasão. Nesse mesmo dia, uma sexta-feira, Tony Blair falou com o presidente francês por telefone e Jacques Chirac ficou convencido de que o Reino Unido não faria nada sem o apoio explícito do Conselho de Segurança da ONU, onde estava a ser muito difícil obter os votos necessários para as pretensões americanas e britânicas.

De facto, em Nova Iorque, na sede das Nações Unidas, países como França, China, Rússia, Síria, Angola, Paquistão, Guiné, Camarões, México e Chile eram dos mais difíceis de convencer pelos argumentos do Reino Unido e queriam esperar por provas concretas da existência de armas de destruição maciça no Iraque, o principal argumento usado por Bush e Blair para uma intervenção armada no país de Saddam. “Muita da resistência”, disse o então embaixador do país junto da ONU à comissão que deu origem ao relatório de Chilcot, “andava à volta da questão: qual é a pressa, se os inspetores só agora estão a voltar ao trabalho?” Mas o governo britânico já não queria negociar, admitiu o próprio Jeremy Greenstock, que trabalhou como embaixador nas Nações Unidas até julho de 2003.

Na sexta-feira [14 de março, dois dias antes da Cimeira das Lajes], reinava um estranho silêncio. Não estava a acontecer nada. Nós não estávamos a negociar. Sabíamos que os aliados se iam reunir durante o fim de semana e não estava a decorrer nenhuma negociação em Nova Iorque”

Assim, “nós precisávamos de construir a ideia de que [a cimeira] os Açores seriam um genuíno esforço diplomático, o que não seria nada fácil”, admitiu Alastair Campbell, porta-voz de Tony Blair.

Na sua autobiografia, o ex-primeiro-ministro inglês escreve que o encontro com Bush nas Lajes destinava-se “parcialmente a falar com Espanha e Portugal, que eram nossos apoiantes e cujos primeiros-ministros estavam sob enorme pressão devido a uma opinião pública e parlamentar muito hostil.”

Era óbvio que era inevitável tomar uma ação caso Saddam não abandonasse o poder voluntariamente. O George [Bush] concordou em fazer-lhe um ultimato para que se demitisse. Mas não esperávamos que o fizesse, no entanto”, escreveu também TonyBlair.

Outro dos aspetos que o relatório de Chilcot releva é que Durão Barroso foi uma personagem menor no enredo que conduziu à Guerra do Iraque. Embora o ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia tenha sido desde o início um apoiante da intervenção armada, o seu nome consta apenas duas vezes nas milhares de páginas do relatório.

Tanto Durão Barroso como Tony Blair se dizem, hoje, arrependidos de ter apoiado a decisão de invadir o Iraque. As armas de destruição maciça que o regime de Saddam Hussein supostamente tinha nunca foram encontradas.

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