Este ano já ouvimos a música de Filipe Raposo no cinema, quando “Gelo”, de Gonçalo e Luís Galvão Teles, esteve em sala. Mas em breve haverá mais do músico e compositor, e outra vez com um destes realizadores. Raposo terminou há poucos dias as sessões de gravação para a banda sonora de “Refrigerantes e Canções de Amor”, longa-metragem assinada por Luís Galvão Teles e com argumento de Nuno Markl.

Para saber mais sobre o filme vai ser preciso esperar uns meses. Mas nesta conversa o tema foi outro. Quisemos saber como funciona o processo de composição de uma banda sonora. Se há regras ou se é tudo relativamente indisciplinado. Se o compositor segue um método ou se acredita num “logo se vê” de inspiração relativamente mágica. No caso de Filipe Raposo, pianista dado às coisas do jazz e da música contemporânea, o processo é gerado seguindo cinco passos fundamentais, apresentados pelo próprio:

filipe raposo,

O filme

“O primeiro passo no processo de escrita é a imersão total na história. Começo pela leitura do guião e pelo visionamento do filme. Perceber a narrativa, o ritmo, a montagem, a fotografia, personagens, o clímax… É como escutar música. O feedback do realizador é imprescindível. Compreender as expectativas que foram criadas para cada momento e a sua condução na narrativa.”

A música (adormecida) de cada cena

“É frequente tirar completamente o som da montagem, dos ambiente e dos diálogos. Quase como num ato de magia, a música começa a surgir através do piano, o instrumento que uso para compor. Gosto de fechar os estores e projetar o filme na parede da sala onde está o piano. A partir daí começo a despertar a música adormecida em cada imagem. A ausência do som do filme faz-me reparar em detalhes que anteriormente não tinha visto, criando mais espaço para a imagem e fazendo uma leitura ainda mais focada para as ideias que vão nascendo.”

Instrumentação e composição

“A escolha da instrumentação acontece quando uma dada cena ou momento é compreendido – sei imediatamente que instrumentos usar na partitura. É frequente discutir estas ideias com o realizador de forma a ir compondo de acordo com a sua visão. Os ambientes sonoros funcionam numa espécie de relação simbiótica entre som e imagem – uma vez encontrados será quase impossível de os dissociar. Lembro-me do encontro perfeito entre imagem e som, na célebre cena do chuveiro composta por Benard Herrman em “Psycho” ou na abertura de “Vertigo” (do mesmo autor) e o acorde fetiche (Mi bemol menor com 7ª maior), que nos conduzem numa espécie de vértice sem retorno.”

filipe raposo,

Técnicas

“Compor uma banda sonora é sobretudo compor emoção. A chave desta emoção está na compreensão da realização e do argumento. Contudo são necessários requisitos técnicos para que passe através da música. Ser capaz de compor diferentes estilos musicais, usando diferentes técnicas, é importante para conseguir uma banda sonora eficaz. O tempo é o inimigo número um numa produção cinematográfica e, frequentemente, é necessário escrever algumas ideias musicais provisórias que até podem ser contrastantes. A ideia de que algum leit motiv não serve para determinada cena não é necessariamente desanimadora, antes pelo contrário. Na banda sonora que estou a preparar foi necessário criar uma banda sonora que vai da indie pop ao jazz tradicional.”

Casting para gravação

“A fase final deste processo acontece quando os músicos encontram a partitura do filme no estúdio de gravação. O estúdio transforma-se na minha casa, é frequente passar lá umas 12 horas nos dias de gravação e mistura. A escolha do espaço e do engenheiro de gravação são peças fulcrais para levar o barco a bom porto. Assim como existe o casting para atores, é de extrema importância pensar no casting para os músicos que melhor desempenharão a sessão de acordo com as necessidades técnicas e estilísticas do filme e da sua composição musical.”