“Miles Ahead”

Don Cheadle (que também realiza, co-escreve o argumento e co-produz), é muito bom a interpretar Miles Davis neste filme passado durante os anos de silêncio criativo do músico, entre 1975 e 1979. Cheadle apanha-lhe aquela voz saída dos confins da garganta, o comportamento imprevisível e as mudanças súbitas de feitio causadas pela depressão, pelos copos e pela cocaína, bem como o modo de andar afetado por uma lesão numa anca. Fosse “Miles Ahead” tão bom quanto a interpretação de Cheadle, e teríamos aqui um filme a marcar com uma pedra branca. Mas não. O ator e realizador não queria fazer uma biografia convencional de Miles Davis, com todos os lugares-comuns e situações-feitas do género, variante “génio atormentado da música”, e até lhe deu uma estrutura impressionista e caprichosa, figurando como que o equivalente cinematográfico da improvisação e das formas livres jazzísticas. Só que a intriga central, inventada, que atira Miles e um inescrupuloso jornalista britânico (Ewan McGregor) Nova Iorque fora, em busca de uma gravação roubada de casa do músico, não tem nada a ver com nada, transforma a fita num desconcertante “buddy movie” interrompido aqui e ali por episódios biográficos reais, e sabota quaisquer pretensões sérias que Don Cheadle tivesse (e é inegável que as tinha).

“Maravilhoso Boccaccio”

Os irmãos Paolo e Vittorio Taviani vão a caminho dos 90 anos, mas continuam a fazer filmes como se a idade não fosse nada com eles. Em “Maravilhoso Boccaccio”, seguem as pisadas de outros ilustres compatriotas e colegas cineastas que adaptaram ao cinema histórias do “Decameron” de Boccaccio (Pasolini, Fellini, De Sica, etc.) selecionando cinco delas. Ao contrário do que estes fizeram, os Taviani não puseram a ênfase nas narrativas mais eróticas, preferindo uma escolha muito variada nos temas e nos tons, que vão do cómico ao trágico. De tal forma, que o único episódio mais picante, passado num convento de monjas, acaba por parecer deslocado. Tendo em conta a abundância de personagens, os irmãos têm aqui ocasião para dar mais uma vez largas ao seu gosto pelas interpretações de conjunto, procurando obter um efeito dramático global baseado no coletivo (ver o seu filme anterior, “César Deve Morrer”, onde Shakespeare é representado numa prisão de alta segurança de Itália pelos detidos). A realização é de uma simplicidade e de uma limpidez que tem o senão de fazer com que a identidade visual de “Maravilhoso Boccaccio” esteja mais próxima da televisão do que do cinema. Mas é um pormenor de somenos importância.

“A Canção de Lisboa”

Depois das novas versões, ou versões “modernizadas”, de “O Pátio das Cantigas” e “O Leão da Estrela”, ambas realizadas por Leonel Vieira, eis agora “A Canção de Lisboa”, de Pedro Varela, o autor do argumento da primeira daquelas. É vira o disco e toca o mesmo, meia bola e força, uma reencarnação pífia, mal ajambrada e sem piada nenhuma (as escassas gargalhadas que origina são perfeitamente involuntárias) do clássico realizado por Cottinelli Telmo em 1933, onde Lisboa era uma das principais protagonistas, ombreando com Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva — ao contrário deste novo filme, onde a capital é um pano de fundo neutro e utilitário, nem sequer chegando a ser um cenário turístico. A única coisa que César Mourão tem em comum com Vasco Santana é o peso, a personagem que foi de Beatriz Costa no original pertence agora a uma estridente atriz brasileira, a de Miguel Guilherme anda para ali desgarrada, as tias ricas das Beiras agora são do Porto e são lésbicas e afinal falsas tias, as canções são tão chachas como envergonhadas, e se os dois primeiros filmes eram estultos e manhosos, esta “Canção de Lisboa” para o século XXI é anestesiante e deprimente.

“Francofonia”

Do consagrado realizador russo Alexander Sokurov, que em “A Arca Russa” (2002) nos contou a história do Museu Hermitage, de São Petersburgo, num plano-sequência de 99 minutos, chega agora, em “Francofonia”, o elogio do Museu do Louvre – e, por extensão, de todos os museus – como grande e sólida fortaleza que protege os tesouros da arte e da cultura, quer ocidentais, quer vindos de todas as outras latitudes, contra as tempestades do mundo. Neste filme de género fluido, onde Sokurov deambula pelo espaço e pelo tempo, contemplando realismo e fantasia, documentário e ficção, recorda-se também como dois homens, o francês Jacques Jaujard, o então diretor do museu, que não fugiu para Vichy nem se juntou às forças de De Gaulle, permanecendo no seu posto, e o conde e oficial alemão Franz Wolff-Metternich, que chefiava a Kunstschutz, a missão germânica encarregue de, durante as duas guerras, recensear, conservar e pôr a bom abrigo as obras de arte da Alemanha e as dos países ocupados, fizeram uma aliança para manter intacto e coeso o acervo de tesouros e obras-primas do Louvre durante a ocupação alemã. “Francofonia” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.

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