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Primeiro, foi o acidente fatal ocorrido em Maio passado com um Model S, que vitimou um condutor que fazia uso do sistema de condução semiautónoma Autopilot. Depois, um outro que envolveu um Model X, e em que os dados disponíveis apontam para que as mãos do condutor também não estivessem no volante. Agora, a revista norte-americana Consumer Reports pretende que a Tesla desactive a função de direcção automática deste sistema de assistência à condução.

A influente publicação, com mais de 8 milhões de assinantes, pretende ainda que o sistema seja actualizado, passando a exigir que o condutor mantenha sempre as mãos no volante para poder funcionar, e que passe a adoptar outra designação que não Autopilot (piloto automático, numa tradução livre). Segundo informação avançada pela agência Reuters, a Consumer Reports considera que o nome Autopilot pode induzir os utilizadores em erro, por promover “a perigosa assumpção de que o Model S é capaz de conduzir sozinho” e que “ao promover esta funcionalidade como Autopilot, a Tesla transmite aos consumidores uma falsa sensação de segurança”.

Laura MacCleery, vice-presidente da organização, sublinhou, também, que a Consumer Reports “está profundamente preocupada que aos consumidores estejam a ser vendidas muitas promessas relativas a uma tecnologia sem provas dadas. O Autopilot não é, efectivamente, capaz de conduzir o automóvel, contudo, permite aos consumidores terem as mãos fora do volante durante vários minutos de cada vez”. E sugere, igualmente, que a Tesla teste em pleno os seus sistemas de segurança antes de os disponibilizar ao público.

Por tudo isto, a Consumer Reports instou também a NHTSA (a autoridade responsável pela segurança rodoviária nos EUA) a supervisionar os veículos com funções semelhantes às do Autopilot, visto que, à luz da actual legislação, esta entidade não testa ou aprova tais sistemas. Por seu turno, a NHTSA fez saber que pretende obter os registos de quantas vezes o sistema requereu aos condutores para colocarem as suas mãos no volante, e com que frequência tal exigência levou a uma redução automática da potência do veículo.

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Já o fabricante norte-americano de automóveis eléctricos alega que “o sistema Tesla Autopilot funciona tal como os sistemas que os pilotos de aviação utilizam quando as condições climatéricas são apropriadas. O condutor é sempre o responsável pelo veículo e, em última instância, quem o controla”. Acrescentando: “Embora agradecendo todas as críticas construtivas, de qualquer indivíduo ou grupo de pessoas, tomamos as nossas decisões com base em dados obtidos no mundo real, e não em função de especulações dos media”.

Mas o Autopilot não está no centro das atenções apenas nos EUA. Também a RDW, a entidade que aprova a homologação de automóveis na Holanda, requereu à sua congénere estado-unidense detalhes sobre o acidente fatal com um Model S nos EUA, e que averigue se os automóveis equipados com este sistema são seguros.

A RDW assume que este pedido de informações é informal, mas que, por ser importante, o tema está a ser analisado pela instituição que, recorde-se, foi responsável pela certificação do Model S no espaço europeu. Sendo ainda de lembrar que a versão europeia do Model S faz uso de uma versão do Autopilot diferente da utilizada nos EUA, a qual, segundo a RDW, em nada difere de sistemas semelhantes aprovados para outros fabricantes, e que, quando devidamente utilizados como auxiliares de condução, e não como substitutos do condutor, não colocam qualquer problema de segurança acrescido.

Tudo aponta para que, nesta questão, também seja importante algo que já não é novo, ou sequer exclusivo do sector automóvel: culturas distintas, e formas, por vezes, diametralmente opostas de interpretar uma mesma questão por parte dos consumidores e utilizadores. O que também não significa que o sistema possa ser melhorado, quer ao nível dos avisos fornecidos ao condutor, quer das tecnologias que utiliza, nomeadamente combinando a função de radar com a câmara que já lhe serve de suporte.