Está fechado em casa desde as 22h30 de sexta-feira, quando um alerta de segurança da empresa para onde trabalha, na Turquia, avisou os colaboradores para não utilizarem as pontes da cidade. Uma atualização desta informação dava conta que havia pessoas a correr nas ruas e que seria um golpe de Estado. A situação “pouco normal” levou o português Diogo Assunção a fechar-se em casa e acompanhar o caso através da televisão e da internet. E mesmo após o apelo do primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, para que logo saiam à rua, Diogo Assunção não vai sair. “Os temas do terrorismo e a possibilidade de haver um ataque aqui ou ali não me afetam de todo, porque é uma circunstância, um momento. Neste caso não, as multidões não são controláveis e não sabemos como a multidão vai reagir. Não vejo necessidade em sair e testemunhar, vou ficar por casa”, disse por telefone ao Observador.

Quando o grupo de segurança da empresa, que tem no Whatsapp, mandou a mensagem de alerta, o engenheiro informático disse ter sido “uma surpresa grande”, confessa. Um colega do grupo acabaria por informar que havia pessoas na rua a correr, militares com tanques e que seria um golpe de Estado. Diogo Assunção ligou a televisão, viu a CNN ser invadida por militares. Manteve o canal ligado porque havia uma câmara fixa que captava o som. Depois tentou acalmar a família. Tinha tantas mensagens que acabou por publicar no Facebook a publicação seguinte: “Está tudo bem comigo. Estou em casa tranquilo a responder a mensagens de amigos no Whatsapp e Facebook”.

Lá fora, no bairro onde vive em Şişli, não se passava nada. Estava tudo “perfeitamente calmo e tranquilo”, ainda mais do que normalmente. As pessoas sentiam medo de sair. Antes de adormecer, pelas 4h00, ainda ouviu muitas ambulâncias — porque existe ali um hospital perto. Ouviu também, “aviões de guerra” a sobrevoar, que terão coincidido com a chegada do presidente Erdogan ao país. Ele estava de férias em Marmaris, no sul da Turquia, quando se deu a investida dos militares. “No grupo do Whatsapp uma colega ainda disse que tinha ouvido duas explosões, mas a minha mulher disse-me que não. Que ouviu nas notícias que seriam “eventualmente as ondas de choque da velocidade causadas pela velocidade dos aviões”, disse.

Diogo Assunção, 45 anos, acabou por adormecer, cansado e mais tranquilo porque no bairro nada se passava. Este sábado de manhã, quando acordou, ouviu o primeiro-ministro em conferência de imprensa a garantir que estava tudo mais calmo e a apelar os turcos para saírem à rua ao final do dia, encherem as praças e mostrarem que não têm medo. O português, apesar do dia de sol, não vai seguir a recomendação do governante. Teme que algo possa acontecer e vai permanecer em casa, onde vai colocando nas redes sociais fotografias da sua vida, a jantar, ao computador a falar com a família.

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Aliás, foi a família que está em Portugal que mais custou a gerir. Pai de quatro filhos, entre os sete e os 23 anos, Diogo Assunção diz que a mulher lhe disse para não esconder nada, para poder gerir toda a informação. Os filhos souberam que algo se passava na Turquia e os colegas começaram a perguntar-lhes como estaria o pai — que sabem trabalhar num projeto na Turquia há já dois anos e meio. “É muito mais difícil para quem esta à distância gerir. Para quem esta longe, o que vê na televisão é mesmo ali à porta. E, na realidade, não é porque não estou no centro das preocupações”, diz.

Pelo contacto que teve com os colegas, sabe que os barcos estão a funcionar, mas que há uma linha de metro encerrada. Diz que há controlo de movimentações por parte das autoridades turcas nas ruas. Os carros que circulam são táxis e pouco mais. O comércio “em geral está fechado, mas os restaurantes estão abertos.”

À parte das questões políticas internas da Turquia, o maior receio de Diogo Assunção “é que um país onde há tantas armas e que é o segundo maior exército europeu na NATO, estoure uma uma guerra civil”. ” A tentativa de golpe de Estado já vai deixar marcas, mas se o golpe fosse conseguido podiam criar-se feridas muito difíceis de sarar do ponto de vista geoestratégico era um problema muito grave”, diz.