O imã Fethullah Gülen, que tem sido apontado pelo presidente turco como o mentor da tentativa de golpe de Estado militar que tirou a vida a 290 pessoas, disse este domingo que caso haja ordem de extradição dos Estados Unidos para a Turquia, está disposto a sair de Pensilvânia – onde vive exilado – mas que foi Tayyip Erdogan quem orquestrou o golpe.

“Eu não estou realmente preocupado com o pedido de extradição”, disse o ex-aliado de Erdogan aos jornalistas, este domingo, citado pela Reuters.

O inimigo número um do líder turco já tinha dado entender que o golpe militar tinha sido encenado pelo governo turco. Numa rara entrevista dada a poucos meios de comunicação internacionais — The Guardian incluído –, o clérigo Fethullah Gülen deu a entender que o golpe militar falhado na Turquia pode ter sido encenado pelo próprio governo. O líder religioso que vive em reclusão na Pensilvânia, nos EUA, desde 1999 chegou a ser acusado pelo Presidente turco de estar envolvido no golpe, mas na entrevista declara-se inocente.

“Eu não acredito que o mundo acredita nas acusações feitas pelo Presidente Erdogan. Há a possibilidade de isto ser um golpe encenado para se fazerem mais acusações [contra apoiantes seus]”, disse o clérigo, depois de abrir as portas da sua casa a uma mão cheia de jornalistas. Gülen recusou ainda qualquer intervenção militar e explicou que, de cada vez que houve um golpe no país, ele foi pressionado, julgado e até detido.

As declarações surgiram depois de o presidente turco ter exigido a extradição do líder religioso dos EUA, insinuando que os norte-americanos estariam envolvidos, mas o secretário de Estado norte-americano John Kerry já deixou claro que estas acusações eram “totalmente falsas” e “danosas” para as relações bilaterais entre os dois países.

Citado pelo New York Times, o líder religioso disse ignorar se os responsáveis envolvidos no golpe de Estado são ou não seus simpatizantes. “Está claro que não os conheço, pelo que não posso expressar-me sobre qualquer implicação. [O golpe falhado] pode ter sido organizado pela oposição ou por nacionalistas. Vivo longe da Turquia há 30 anos e não estou lá”.

Questionado ainda sobre se voltaria à Turquia caso o golpe tivesse sido bem sucedido, o clérigo respondeu: “Sim, tenho muitas saudades da minha terra natal. Mas há outro fator importante, que é a liberdade. Estou aqui, longe dos problemas políticos na Turquia, e vivo com a minha liberdade“.

Apesar de estar longe do seu país há vários anos, Gülen lidera um movimento chamado Hizmet (“serviço”, em turco) que integra escolas, empresas e ainda organizações não-governamentais na Turquia. O líder religioso, em tempos aliado de Erdogan, afastou-se do Presidente turco depois de um escândalo de corrupção em 2013.