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PCTP/MRPP

A luta continua (contra Garcia Pereira)

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Garcia Pereira, ex-secretário-geral do PCPT/MRPP, voltou a ser duramente criticado no Luta Popular. O órgão oficial do partido publica o perfil de um "anti-comunista", "canalha" e réptil seboso".

Garcia Pereira (à esquerda) junto de Arnaldo Matos (ao centro)

Vítor Rios

Autor
  • Miguel Santos Carrapatoso

A guerra no interior do PCTP/MRPP continua. Depois de Garcia Pereira ter caído em desgraça e apresentado a demissão, o Luta Popular Online, órgão de comunicação oficial do partido, vem agora publicar um novo artigo tecendo duras críticas ao seu ex-secretário-geral. É “o perfil do golpista sem caráter”, do “oportunista sem escrúpulos”, do “verme” e do “canalha sem vergonha, que tudo fez para liquidar o partido”.

O artigo, publicado a 11 de julho e assinado por “Frederico”, faz eco, na prática, das principais conclusões da reunião do Comité Distrital de Lisboa do partido, a 10 de julho. E é acompanhado pela transcrição de várias cartas trocadas entre Arnaldo Matos, o histórico fundador do PCTP/MRPP, e Garcia Pereira, que se vai tentando defender e justificar.

Numa dessas cartas Arnaldo Matos é particularmente duro para com Garcia Pereira:

Caro Garcia Pereira,
Estás a ir por um mau caminho, se continuas a fingir não perceber o que te digo.
Olhei para a primeira página do Luta Popular Online de hoje e fico sem saber se as alterações que apresenta são ou não a nova primeira página, subsequente às minhas críticas e concelhos [sic] de anteontem.
Se são, só me resta mandar-te à merda e deixar de aturar as tuas garotices.”

Arnaldo Matos não estava satisfeito com o comportamento de Garcia Pereira, que não dera atenção às suas sugestões sobre mudanças no grafismo do jornal. “As observações que te enviei visavam reunir os nossos melhores gráficos para redefinirem, segundo uma nova linha política e após ampla e livre discussão, a nova maqueta da primeira página, quanto à espacialidade, cor, títulos, letras e lugar de relevo a conceder ao editorial, como peça nobre da linha do Partido. Vejo que nada disso foi feito nem entendido, e que se optou por pequenas alterações isoladas“, queixava-se Arnaldo Matos.

Na volta do correio, Garcia Pereira justificava-se como podia. Assumia estar a viver vários problemas e pedia o apoio de Arnaldo Matos.

Li o teu mail. Sinto-me literalmente perdido e transtornado. A tua rutura para comigo é algo de praticamente inultrapassável. Na verdade, és e sempre serás uma referência, um farol na minha vida. Salvaste-me a vida, a física e a política, em 1978. Apoiaste-me sempre em todas as situações mais difíceis da minha vida. NUNCA o poderei esquecer! Reconheço a justeza das tuas críticas mas estou a sentir o chão fugir-me debaixo dos pés”, pode ler-se na carta enviada por Garcia Pereira, transcrita pelo Luta Popular Online.

A isto, Arnaldo Matos respondia com frieza.

Caro Camarada Garcia Pereira,
Estás permanentemente a misturar problemas e relações pessoais com problemas e relações políticas, e essa mistura não te permitirá nunca fortalecer nenhum dos tipos de relações, nem resolver nenhuma das espécies de problemas.
Em relação aos problemas políticos, que são os prioritários, a questão é simples e há muito está identificada: o atual comité central liquidou, nos últimos vinte e cinco anos, a base teórica marxista, a base ideológica comunista e a base política revolucionária do Partido e cortou a sua ligação às massas. (…)
A situação agora está brava, porque a contra-revolução tomou o freio nos dentes e vocês, com uma cobardia inaudita, abandonaram os operários, os pobres e o povo.
Todas as tentativas que fiz nos últimos sete anos — data da crise económica financeira mundial (2008) – não tiveram grande sucesso, porque os dirigentes do Partido não estavam para ai virados, não estudavam, não lutavam, nem se mostravam preocupados senão com os euros que a Europa alemã lhes pudesse proporcionar. (…)
Enquanto eu me esganhava para recuperar e refundar o Partido, tu e os teus amigos do Comité Central não só não apoiavam as iniciativas tomadas para alterar tudo o que devia ser alterado, mas até ensaiavam uma guerra especial contra o papão, destinada a mostrar que não tinham medo do papão…
Pobres estúpidos!”

Arnaldo Matos acabaria por escrever uma carta ao comité central do partido denunciando “o golpe oportunista pelo qual Garcia Pereira se alcandorou à direção do partido” e anunciando a cessação “total” da sua colaboração com o “atual PCTP/MRPP”.

Na reunião do Comité Central de 4 de setembro de 2015, o partido acabaria por retirar “todas as tarefas políticas de direção” a Garcia Pereira.

“Frederico”, o autor que assina o artigo, vai pincelando a peça com várias acusações a Garcia Pereira. E termina acusando o ex-secretário-geral de ser um “golpista sem caráter“, um “oportunista sem escrúpulos” e um “canalha sem vergonha, que tudo fez para liquidar o partido”.

“Garcia Pereira é um anticomunista primário e além disso um sujeito sem caráter, um pulha e um canalha. Teve sempre o camarada Arnaldo Matos à perna, que nunca o deixou pôr o pé em ramo verde, nem nunca aparou os seus golpes”, pode ler-se ainda. O artigo termina com uma ameaça: “Há mais documentos que confirmam o trajeto anticomunista e social-fascista de Garcia Pereira. Havemos de voltar a eles“.

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