Crítica de Livros

Viagem ao centro da Terra Fresca

Sobre o novo romance de João Leal, Carlos Maria Bobone escreve que "à grandeza dos temas nem sempre corresponde um aproveitamento à medida".

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “Terra Fresca”
Autor: “João Leal”
Editora: Quetzal
Páginas: 256

Terra Fresca

Há apenas duas formas (se descontarmos todas aquelas de que não queremos falar) de publicar um estudo sobre uma família. Aquela que procura o particular, que sopesa as diferenças entre gerações, examina cartas e depoimentos, repara nos costumes e nas singularidades de cada elo, e aquela que se preocupa com o destino familiar, com a percepção de cada membro como capítulo essencial para o desfecho inevitável de um dos muitos livros já impressos pela biblioteca genética universal. O primeiro método, mais rigoroso ou mais bruto – conforme o optimismo de cada um – costuma agradar mais aos historiadores. Se, como Darwin acreditava, não há características exclusivamente familiares que passem por mais de três gerações, é natural que o acervo das Paston Letters ou dos Dabney verse mais sobre as características de cada membro e daquilo que o rodeia. O mito familiar, a inscrição trágica na carne partilhada ou a ventura financeira que, em matéria de liquidez, não partilha apenas a monetária mas também o sangue, pertencem com mais naturalidade ao romance. A malograda descendência dos Buddenbrook, a cada geração mais inepta para a ordem prática, é exemplo disso: a forma como Tony não se adapta a um casamento com um boçal, o cuidado cada vez maior de Thomas com aspectos de ordem estética, tudo isso são passos decididos do destino em direcção ao abismo em que Hanno só pode cair.

A história de João Leal, embora mais sinuosa no trajecto, também tem como plano de fundo o destino trágico de uma família (e de toda a ramagem que complica a árvore genealógica e afectiva), decidido numa geração ainda verde.

Desta Terra Fresca medrou uma árvore de família bem rápida, que passa por três gerações bem cevadas de peripécias a um ritmo que faria as delícias de qualquer agricultor. Em todas as gerações há problemas suficientes para ocupar a humanidade inteira, embora o autor tenha feito com eles o que ainda ninguém conseguiu fazer ao Rossio e à rua da Betesga: condensou-os, de tal modo que saltitamos de problema vital em problema vital à velocidade da luz. O recobro da tuberculose, a que Thomas Mann dedicou um grosso canhenho, João Leal não concede mais do que uns magros capítulos; à clonagem, a que todos os escritores de ficção científica já entregaram os últimos dias do futuro da Humanidade, o nosso autor não dá mais do que os últimos membros da família Alonso; e mesmo à mão de Ezequiel, a quem Deus confiou os destinos do seu povo inteiro, João Leal não confia mais do que as vidas de uma família pouco fértil e suas relações.

joão leal quetzal

O autor, João Leal

É este, talvez, o maior senão do livro: que à grandeza dos temas não corresponda um aproveitamento à medida deles. Os primeiros capítulos, os capítulos da chaga invisível que corrói o quotidiano de um casal de núpcias recentes, a atmosfera espectral, de desgraça iminente que é pressentida a cada palavra, pouco são explorados. De que vale acoplar em famílias conservadoras um trio na mesma casa, juntar um amor lésbico e um conúbio errado, se depois os conflitos não são explorados? Claro que, para a redoma de Sintra funcionar, tinha de haver certa solidão no núcleo dos Alonso; mas há um certo desperdício de informação na forma exagerada como factos estranhos entram em cena. A frustração não vem apenas da regra elementar de ficção que obriga a que um traço marcante e incomum tenha relevância na história; a frustração vem da própria qualidade do enredo criado, que tem pouco aproveitamento. A despeito da falta de domínio de alguns sociolectos que, noutros casos, tornariam imediatamente plástico o quotidiano de uma boa família do Estado Novo, há na vivência apaixonada de Francisco, Amélia e Elvira uma aura bem conseguida de nobreza corrompida, de consanguinidade excessiva (neste caso não no mesmo Homem, mas no mesmo relacionamento amoroso). A própria maldição, que podia almejar ao encanto da espiritualidade popular erudita, quase esotérica, saída dos pergaminhos da patrística ou das histórias corrompidas do Oriente, redunda numa espécie de ficção-científica para frequentadores de bibliotecas em vez de lojas do Star Trek; em vez do esplendor diabólico do Doutor Fausto, da ira que castigou o Judeu Errante, do cenário aterrador de Ezequiel entre as ossadas mortas de um povo, resulta uma história de clonagem com contornos mais místicos do que científicos (o que, diga-se, é bastante mais sensato).

João Leal quis usar num livro material suficiente para a literatura de um país inteiro; acaba, com isso, por descentrar constantemente a História, mesmo que tenha na mão o seu fio condutor. Anda, qual Teseu, para trás e para diante, a enfrentar mais problemas do que um jogador de Jumanji, de tal maneira que no fim, no problema maior, já pouco impressiona o leitor.

Uma história de maldições

A história, contada em linhas que não fazem justiça ao rendilhado que a compõe, começa quando Francisco, numa escavação, descobre uma caixa a que só posteriormente se dará importância. Como mantém ao mesmo tempo um romance com a criada e com a mulher (ou melhor, romance mantém apenas com a criada, com a mulher cumpre apenas as obrigações mínimas do contrato nupcial) nascem-lhe, com horas de diferença, duas filhas de duas mães diferentes. Acontece que ambas nascem com uma mão engelhada, embora à mais velha passe o aleijão com o nascimento da irmã. A esta, porém, só a safa a intervenção da beata Alexandrina, mulher que, de tantas desgraças que já a pegam à cama, não se importa de suportar também a da pequena Teresa.

As miúdas crescem, unidas sob a educação de Amélia, por morte de Francisco e também da criada, em circunstâncias que pouco importam para o caso. Nunca mais se volta a ouvir falar do problema, até que, com a morte de Alexandrina, a deficiência volta a atacar Teresa – a mais nova das duas – com tal força que a rapariga é apenas capaz de copiar livros sem parar, alienada de tudo o resto. É nessa altura que se descobre a responsabilidade da caixa no processo: dentro desta está a mão de Ezequiel, que amaldiçoa todos o último ser concebido sobre ela. Esta maldição, no entanto, tem uma nota de rodapé: se empunhar a caixa em certa posição, o maldito não é apenas capaz de manter a lucidez, como de criar, através da escrita, novas pessoas.

Teresa não se atreve a fazê-lo até ao dia em que abre a caixa (neste caso mais adequada seria a de Ezequiel do que a de Pandora) e cria, além de dois ou três companheiros de serão, dois filhos para a sua irmã infértil. Ora, estes filhos virão a suicidar-se em circunstâncias macabras, tão horrendas que vedam com certeza as portas do Céu mas pelo menos abrem aquelas que nos levam à última parte do romance: aquela em que David e Sofia, amigos dos suicidas, partem — numa busca orientada postumamente – atrás do mistério da morte. Encontram não apenas a história da criação ex-nihilo dos seus comparsas, mas também uma comunidade de clones, a braços com uma guerra fratricida, que envolve mortes e ressurreições sucessivas, destinos reescritos e intromissões no alvedrio sagrado dos Humanos, tudo por obra da malfada mão de Ezequiel. Acontece que, quando aqui chegamos, já passámos por conflitos sociais motivados pelo amor, viajámos pela Finlândia e pelos Estados Unidos, assistimos a amores lésbicos e a dedicações fraternas, chorámos mortes violentas e mortes misteriosas, de tal forma que já não temos fôlego para rememorar com clareza os solilóquios de Santo Agostinho sobre a liberdade ou as hipóteses engenhosas de Leibniz para conjugar livre arbítrio e predestinação. O grand finale e a difícil decisão de David, em vez de encontrarem o leitor pronto para a glória triunfante, encontram-no já num lar de idosos, a recuperar de uma vida tão cheia, de olhos ofuscados pelo brilho de tantas tragédias.

Pouco mais há para dizer sobre o livro: do estilo, como o autor pouco quis fazer com ele, também pouco falaremos. É directo, mais apostado em fazer valer a história do que a língua. Tem um leve traço da marca de geração excessivamente autoanalítica, que já tem identificadas as origens sociológicas de tudo o que pensa e o mostra em frases epigramáticas, que não deixam lugar a grandes mistérios. Marca de geração é, também, a forma referencial de caracterizar ambientes ou mesmo personagens, que tem um efeito tribal poderoso, mas que afasta aqueles que não se inserem nos grupos em questão. Isto é, na geração de João Leal é muito mais vulgar caracterizar um ambiente usando o disco que se ouve do que descrevendo o que cerca as personagens; mais depressa um autor diz que uma mulher tem cara de Britney Spears do que explicita o seu ar de bonequita maltratada. Esta forma, no caso de Terra Fresca, é mais notória nos capítulos sobre David, com a presença das bandas de metal e de alguns comportamentos de uma classe suburbana adolescente nos anos oitenta e noventa. A referência imediata, além de económica, pode engalanar o texto com uma certa distinção intelectual, um pormenor de reconhecimento iniciático que, quem sabe fazer parte dos poucos conhecedores, gosta de ver no autor. Quem não conhece, no entanto, perde toda a expressividade do texto. O fenómeno do metal, discutido amiúde na segunda metade do livro, pouco me diz, pelo que alguns dos ambientes têm dificuldade em ser atractivos. Mas com tanto por onde pegar, também não há problema em descansar um pouco. É o maior problema da Terra Fresca: é difícil sentarmo-nos e, por uma longa tarde descansada, apreciar um bom livro.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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