O ano de 2015 bateu o recorde de pessoas mortas – 185 – enquanto defendiam um terreno, uma floresta ou um rio contra a destruição provocada pela indústria. Os resultados são apresentados num relatório pela organização ambientalista Global Witness mostram que, nos 16 países estudados, o número de mortes subiu 59% em relação a 2014.

O relatório “On Dangerous Ground” (Em Terrenos Perigosos) começa com a memória de Berta Cáceres, assassinada à meia-noite de 2 de março deste ano, em casa. Berta Cáceres, distinguida com o Goldman Environmental Prize em 2015, era uma ambientalista que lutava pelos direitos dos povos indígenas às suas terras e era alvo de muitas ameaças e tentativas de rapto. Morreu nas Honduras, o país mais perigoso per capita para se ser um defensor do ambiente ou das terras, segundo a Global Witness.

A América do Sul é conhecida por ser uma das regiões do globo mais inseguras para jornalistas, mas ainda assim o número de mortos entre ambientalistas e defensores das terras superou o número de jornalistas assassinados em 2015 – mais do dobro. Segundo o relatório, os três países que registaram o maior número de mortes em 2015 foram: Brasil (50), Filipinas (33) e Colômbia (26). Aos quais se juntam Nicarágua e Perú (12 mortos cada), mas também Guatemala, Honduras e México.

Número de ambientalistas e defensores das terras mortos entre 2010 e 2015. Brasil tem o recorde e a América do Sul é a região com pior registo - On Dangerous Ground, Global Witness (2016)

Número de ambientalistas e defensores das terras mortos entre 2010 e 2015. Brasil tem o recorde e a América do Sul é a região com pior registo – On Dangerous Ground, Global Witness (2016)

Entre os mortos, 40% são indígenas que defendem as suas terras ou que foram mortos em retaliação. O pai e avô do ativista filipino Michelle Campos foram executados em praça pública por se manifestarem contra as minas que lhes destruíam as terras. Neste ataque, três mil pessoas do povo Lumad perderam as suas casas.

Muitas das mortes registadas acontecem em aldeias remotas ou em zonas profundas da floresta tropical, o que faz com que os autores do relatório suspeitem que o mais provável é que o número real de vítimas seja muito superior. Mas se o número de mortos é alto, o número de pessoas vítimas de violência, ameaças e discriminação é muito superior. A discriminação atinge tais proporções que em muitos países, sobretudo em África, os ambientalistas são criminalizados, enquanto os perpetradores dos crimes contra quem defende o ambiente passam impunes. Há mesmo casos em que os ataques e as mortes são desencadeadas por militares ou polícias, além de grupos paramilitares e empresas privadas de segurança.

Das 185 vítimas de 2015, em 16 países, 67 eram indígenas - On Dangerous Ground, Global Witness (2016)

Das 185 vítimas de 2015, em 16 países, 67 eram indígenas – On Dangerous Ground, Global Witness (2016)

De um lado, os ambientalistas e as pessoas que querem defender as suas terras e o património natural. Do outro, as empresas que querem explorar a madeira ou o óleo de palma, mas a indústria que mais mortes causa é a mineira – 42 mortes em 2015. Outras das principais causas de morte, em 2015, são: agropecuária (20), exploração de madeiras (15) – muitas vezes de forma ilegal -, barragens e hidroelétricas (15) e caça furtiva (13).

O peruano Víctor Zambrano cresceu na região de Madre de Dios, numa casa no meio do bosque denso, mas mal reconheceu a terra natal depois de ter passado vários anos ao serviço da Marinha, conta a BBC. As grandes árvores tinham desaparecido, o número de espécies de animais continuavam a diminuir e o rio era destruído pelos garimpeiros. Ainda lhe ofereceram ouro para que se afastasse das lutas ambientalistas, mas o recém-premiado pela National Geographic não desistiu, por isso ao suborno seguiram-se as ameaças de morte.

“Andam à tua procura para te matar”, avisou-o o amigo Alfredo Vracko, em novembro de 2015. Mas quem acabou por morrer foi o amigo, na própria casa, invadida pelos assassinos. Zambranio e Vracko lutavam pela defesa da Reserva Natural Tambopata e pela expulsão dos mineiros ilegais. Juntos tinham convocado as autoridades e mobilizado camponeses e povos indígenas para esta luta, mas Zambrano sente-se mais inseguro agora do que quando representava as forças militares.

A luta pela preservação da natureza e pela conservação das espécies animais não é nova e tem feito centenas – senão milhares – de mortes. Um dos casos antigos bem conhecido é Dian Fossey, que estudou e protegeu os gorilas na República Democrática do Congo durante 18 anos e que acabou por ser assassinada, no próprio acampamento, em Karisoke (Ruanda), a 26 de dezembro de 1985. Em 1988, a vida e obra de Dian Fossey foi interpretada por Sigourney Weaver no filme “Gorilas na Bruma”.