Mais de 250 mil crianças sírias em idade escolar, de um total de 500 mil registadas como refugiadas no Líbano, não estão matriculadas no sistema educativo do país, denuncia a organização não-governamental Human Rights Watch num relatório divulgado esta terça-feira.

No relatório de 87 páginas, intitulado “Crescer sem educação: barreiras à educação de crianças refugiadas sírias no Líbano”, a ONG denunciou que algumas escolas não estão a cumprir as normas relativas à inscrição de crianças refugiadas, concluindo que é necessário mais apoio às famílias sírias e ao sistema de educação pública libanês, já bastante sobrecarregado.

O documento expôs também que o governo libanês estabeleceu requisitos rigorosos em termos de residência, que restringem a liberdade de movimentos dos refugiados, agravando a pobreza e limitando a capacidade de os requerentes de asilo proporcionarem educação e futuro para a família.

Com cerca de 70% de famílias sírias a viverem abaixo da linha de pobreza em 2015, muitos não conseguem suportar os custos relacionados com transporte e material escolar.

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Rana, de 31 anos e que antes de se refugiar no Líbano residia em Damasco, disse à Human Rights Watch que deixou o trabalho que tinha numa pastelaria, por medo de ser detida depois da expiração do termo de residência, acabando por tirar o filho da escola.

“Os meus filhos deviam aprender a escrever os seus nomes. Acabou para nós, mas devia acabar para as nossas crianças também?”, questionou Rana.

Segundo o relatório, as crianças mais velhas, com idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos, têm ainda menos possibilidade de acesso ao ensino gratuito no Líbano, sendo que menos de 3% se matricularam nas escolas secundárias no ano letivo de 2015-2016.

“Comecei a trabalhar na construção quando cheguei. O trabalho é muito duro. Comecei com 13 anos e já perdi aqui cinco anos da minha vida”, contou Amin de 18 anos.

De acordo com a Human Rights Watch, o acesso à educação é crucial para ajudar crianças refugiadas a lidar com traumas relacionados com a guerra e deslocamento do país de origem, assim como a desenvolver competências que lhes permita ter um papel ativo no Líbano ou na reconstrução da Síria.

“A educação das crianças está a retroceder. Eles não têm um futuro. Nós deixamos o nosso país e as nossas casas e eles agora nem têm uma educação ou um futuro”, disse Jawaher, refugiado sírio a viver no norte do Líbano.

O Líbano tem uma população de cerca de 4,5 milhões de cidadãos, sendo que uma em cada quatro pessoas detém o estatuto de refugiado.

Desde o início do conflito na Síria em 2011, cerca de 1,1 milhões de sírios registaram-se no Líbano através do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Os números do governo libanês diferem, apresentando um total de 1,5 milhões de refugiados da Síria no país.