Tony Schwartz não é jornalista. Há muito que não o é. Hoje é proprietário da Energy Project, uma consultora que promete aumentar a produtividade de empresas como o Facebook, trabalhando o estado “físico, emocional, mental e espiritual” dos seus empregados. Mas Schwartz era jornalista em 1985, na revista New York, quando foi convidado para escrever a primeira das biografias de Trump, “The Art of the Deal”.

Antes, Tony Schwartz até escreveu um artigo pouco abonatório sobre Donald Trump, precisamente na New York. Intitulou-o “A Different Kind of Donald Trump Story”, e descreve o magnata, não como um empresário de sucesso, mas como alguém “desajeitado” com os negócios e que tentava, sem escrúpulos, desalojar os inquilinos de um imóvel que adquiriu em Nova Iorque, perto do Central Park, por forma a fazer dele um empreendimento de luxo. Estranhamente ou não, Trump gostou do artigo. E tanto gostou que mandou emoldurar a capa no seu escritório, enviando depois uma carta a Schwartz. Lia-se nela: “Everybody seems to have read it”. E leram mesmo.

Schwartz haveria de receber pouco depois um convite para escrever a biografia oficial de Trump. Mas não foi Trump quem o endereçou. Não diretamente. O convite veio de Samuel Irving Newhouse Jr., um magnata dos media que detinha a Advance Publications, empresa que, por sua vez, detinha a editora Random House (que publicou o livro) e a Condé Nast, empresa proprietária a revista New York — onde Schwartz era jornalista.

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O livro só daria à estampa em 1987, mas os encontros entre Trump e Schwartz começariam antes, em 1985. Schwartz acompanhá-lo-ia para todo o lado: foram 18 (longos e cansativos) meses de conversas e entrevistas, entre o escritório de Donald Trump na Trump Tower, viagens de helicóptero de um lado para o outro, reuniões um pouco por todo o mundo, o apartamento de Trump em Manhattan e a sua mansão na Florida.

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Embora ambos assinassem o livro, Schwartz era o ghostwritter de Trump, pois foi dele a escrita deste. Linha por linha. Em contrapartida, o jornalista receberia metade dos 500 mil dólares iniciais que a editora pagou aos autores, assim como metade das suas royalties futuras. O livro foi um sucesso. Esteve durante 48 semanas entre os bestsellers do New York Times — 13 delas em primeiro lugar. Durante esse período, o livro vendeu mais de um milhão de cópias.

Trump é “assustador”, “não tem ideologia nenhuma” e é um “sociopata”

Tony Schwartz vendeu a alma ao diabo — qual Fausto de Goethe. Mas aumentou (e muito) a conta bancária com a “venda”. Schwartz afastou-se do jornalismo e da revista New York, viu Trump ascender nos negócios, mais ainda depois de ter escrito (ou não) com Schwartz o livro “The Art of the Deal”. Nunca falou. Nunca se indignou com Trump. Não publicamente. Agora, numa entrevista à revista New Yorker, resolveu “contar tudo” — é esse, aliás, o título. Mas porquê agora? Precisamente porque Trump pode chegar à Casa Branca.

Tudo começou durante o discurso de candidatura de Trump, na Trump Tower pois claro, em plena Fifth Avenue de Nova Iorque. “A América precisa de um líder que tenha escrito um livro como o ‘The Art of the Deal’”, disse o magnata. E Schwartz não demorou a responder-lhe. “Muito obrigado a Donald Trumpo por ter sugerido que me deveria candidatar à presidência, afinal, fui eu quem escreveu o livro”, gracejou o empresário e antigo jornalista no Twitter.

Trump deixa Tony Schwartz “aterrorizado”, confessa esta à New Yorker, não por causa da sua ideologia — até porque “não tem nenhuma” –, mas por causa da sua personalidade. Schwartz diz que este é “patologicamente impulsivo e egocêntrico”. E diz mais, arrasando o magnata: “Eu pus bâton num porco”.

“Hoje sinto remorsos por ter contribuído para apresentar Trump de uma forma que lhe trouxe atenção e o fez mais apelativo do que ele realmente é”, prosseguiu Schwartz. “Eu acredito genuinamente que se Trump vencer as eleições e lhe derem os códigos nucleares, existe uma possibilidade dele [Trump] levar ao fim da civilização”, alertou.

E hoje, escreveria o livro? Sim, mas com um título diferente. Muito diferente. “O Sociopata”, sugere Tony Schwartz.