Já ninguém pode gabar-se de ser funcionário da Fundação Calouste Gulbenkian desde a inauguração em 1956. Após 60 anos, quem lá esteve e viu os primeiros passos da instituição já não se encontra atualmente nos quadros. Porém, há quem colecione anos de currículo. Rosa Figueiredo é uma dessas pessoas: é a funcionária mais antiga da Fundação com 44 anos de serviço. Tem 71 de idade e toda esta matemática também dá bom resultado em histórias, colecionadas desde 1968.

Apesar do tamanho do edifício, no Museu Calouste Gulbenkian não há dúvidas de quem é Rosa Figueiredo. Não há enganos com nomes, trocas ou dúvidas. O corrupio de turistas para as visitas guiadas à exposição da coleção do fundador, numa segunda-feira de manhã, também não atrapalha ninguém nem coloca pressão nos serviços de receção. “Há sempre muita gente, especialmente turistas estrangeiros”, diz a funcionária quando recebe o Observador.

O reconhecimento da Fundação foi um processo de crescimento que acompanhou também o percurso de vários profissionais. Principalmente os que tiveram a possibilidade de trabalhar com o primeiro presidente da Fundação, José de Azeredo Perdigão. “É muito comovente ver uma instituição abrir-se ao mundo. Ao longo de décadas, vi-a passar de uma situação modesta para a internacionalização”, afirma Rosa Figueiredo.

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Antes do 25 de Abril, interrompeu o trabalho para fazer uma pós-graduação em Inglaterra

A jovem de 23 anos, acabada de sair da faculdade com uma licenciatura em Línguas Germânicas, teve a oportunidade de trabalhar na Gulbenkian. O percurso profissional não começou no Museu — ainda não existia em 1968 — mas sim noutros polos da Fundação, como o Palácio Marquês de Pombal, em Oeiras e, mais tarde, na catalogação da biblioteca do pianista Viana da Mota. Nos primeiros anos, apercebeu-se que o futuro podia passar pelas obras de arte. “Gostava muito de estar rodeada de arte e pensei que podia trabalhar e adquirir mais conhecimentos na área”, recorda.

Foi progredindo na carreira de vaga em vaga. Chegou ao arquivo fotográfico da Gulbenkian, mas a mudança de planos do marido, devido a um doutoramento no Reino Unido, fê-la repensar: talvez fosse o momento para apostar na tão desejada formação de conservadoria de arte:

Houve um congresso de restauro na Gulbenkian e eu sabia que vinha alguém de Inglaterra. Apresentei-me ao diretor do curso e contei-lhe a minha história. Ele disse-me ‘Venha trabalhar comigo’. Passados uns meses, estava no Museums Association em Londres”

Foi um dos momentos decisivos na carreira da funcionária. Se tal não tivesse ocorrido, provavelmente teria mais anos de casa, mas ninguém sabe dizer se hoje seria uma das pessoas determinantes no Museu Gulbenkian. Entre 1973 e 1976, estudou e trabalhou no Reino Unido. Em Portugal, tudo estava num reboliço político e social devido à Revolução. Rosa Figueiredo apenas tentava conjugar tudo na sua vida: estudante, trabalhadora e mãe de duas filhas.

Teve os braços abertos para voltar para a Fundação Calouste Gulbenkian, mas isso não significou facilidades a todo o momento. Na altura, as licenças sem vencimento ainda não existiam e a ida para Inglaterra implicava demitir-se. “O Dr. Azeredo Perdigão disse-me que seria reintegrada, mas as vagas eram escassas e implicavam novamente contratos de trabalho”, recorda. Tudo se resolveu com bom senso e algum jogo de cintura. A direção considerou que seria injusto Rosa Figueiredo não voltar a “casa” — um dos lugares disponíveis tinha de lhe pertencer. Passados três anos, tornou-se efetiva (outra vez) e já como conservadora do Museu Calouste Gulbenkian.

Mais de 40 anos a trabalhar no mesmo sítio implica conhecer vários colegas, amigos e também interagir com diferentes direções. Se uns a marcaram pelas relações afetivas, outros eram vistos como referências. Era o caso de José de Azeredo Perdigão:

Era muito novinha e ele era um homem de muito peso, de muita importância e influência. Tinha uma grande admiração e havia quase um culto ao Dr. Perdigão. Era tímida e, naturalmente, não tinha a confiança que tenho com o Dr. Artur Santos Silva [presidente atual da Fundação].”

A funcionária afirma que dos “momentos maus quase nem se lembra”. Sabe que está numa altura de mudanças e que isso a coloca de pé atrás em algumas decisões. “Agora vivem-se tempos diferentes. A Fundação já teve mais de mil funcionários. Hoje, somos cerca de 400 pessoas”, diz. Durante um ano, foi diretora interina do Museu Gulbenkian quando ocorreu a mudança de direção — nessa altura, além de acumular as funções de conservadora, tinha a responsabilidade de dirigir todo o serviço.

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Rosa acredita que os ideais do fundador Calouste Gulbenkian são o legado mais importante

A escultura europeia, a medalhística e a arte clássica foram algumas das áreas que teve a seu cargo: procurou esmiuçar e investigar cada uma delas.“Gostava que se cumprisse a vontade de Calouste Sarkis Gulbenkian, que queria que a sua coleção estivesse toda junta”, acrescenta Rosa Figueiredo. Atualmente, a coleção do fundador está no Museu Calouste Gulbenkian, enquanto a coleção moderna — criada após a morte de Calouste Gulbenkian — está no Centro de Arte Moderna. Segundo a funcionária, há a tentativa de que “criar diálogos entre as duas coleções, mas não se pode correr o risco de perder a identidade”.

E o que se segue para esta funcionária de 71 anos? Para já, Rosa Figueiredo aponta janeiro de 2017 para iniciar o seu “processo de pré-reforma”. Embora reconheça que o trabalho não terminará até à exposição sobre a qual trabalha por estes dias, que será inaugurada em 2017. O futuro pode passar pela escrita criativa, mas a ligação à Gulbenkian continuará: “Oxalá a saúde me ajude. Fiz curadoria de exposições muito interessantes e isso é entusiasmante. Não podia pedir mais”.