Os analistas contactados pela Lusa antecipam que o BCE não deverá decidir esta quinta-feira quaisquer alterações de política monetária, na primeira reunião após o referendo no Reino Unido, que ditou a saída do país da União Europeia.

Na última reunião, que decorreu em Viena a 2 de junho, o Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE) decidiu manter a taxa de juro aplicável às operações principais de refinanciamento e as taxas de juro aplicáveis à facilidade permanente de cedência de liquidez e à facilidade permanente de depósito em 0,00%, 0,25% e -0.40%, respetivamente.

Contactada pela Lusa, sobre qual a perspetiva em relação à reunião desta quinta-feira, a analista financeira do BPI Teresa Gil Pinheiro diz que “não serão introduzidas alterações, tanto no que se refere ao nível das taxas de juro diretoras, como no que respeita ao programa de compra de ativos de longo prazo”.

A economista antecipa ainda que, nas declarações que acompanham a decisão, “o BCE deverá reafirmar a total disponibilidade para agir de forma a suportar a estabilidade económica e financeira da zona euro”.

Também Franck Dixmier, da AllianzGI, considera que “o principal objetivo do BCE vai passar por convencer os participantes do mercado de que pode fazer o que for necessário, caso seja forçado a fazê-lo”.

Sublinhando que este tem sido “claramente um mês tumultuoso”, Dixmier afirma que “o Brexit vai ser um processo plurianual e [que] é atualmente muito difícil estabelecer consequências macroeconómicas de tal opção, além de um impacto indeterminado no crescimento da zona euro”.

Para o analista da AllianzGI, “apesar de o objetivo de 2% para a inflação de médio prazo na zona euro ser muito difícil de atingir neste contexto, é demasiado cedo para despender energias a tentar corrigi-lo”.

No mesmo sentido, o analista Rui Bernardes Serra, do Montepio, diz que não espera alterações na política monetária na reunião desta semana, mas antecipa que haja novas medidas, “previsivelmente em setembro, a menos que o recrudescimento da volatilidade dos mercados financeiros espolete intervenções concertadas por parte dos principais bancos centrais”.

Rui Bernardes Serra acrescenta que “é possível mais um corte de 10 pontos base na taxa de depósitos”, mas defende que isso “não é desejável, atendendo aos efeitos negativos que tem sobre a rendibilidade do sistema bancário, com impactos também negativos na solvabilidade e, consequentemente, na capacidade de concessão de crédito”.

Para o economista do Montepio, “o BCE deveria focar-se nas medidas de ‘quantitative easing'”, considerando que Frankfurt deveria começar por alargar o programa “para além de março de 2017” ou então proceder ao “aumento do ritmo de compras mensais de ativos”.

Rui Bernardes Serra diz ainda que, “atendendo ao recente alargamento dos ‘spreads’ [margem de lucro] de crédito entre o centro e a periferia da zona euro”, o BCE deveria “reduzir o ritmo de compras de obrigações do centro e aumentar os da periferia”. No entanto, o analista de mercados não acredita que isto vá acontecer, tendo em conta a “oposição da Alemanha”.