A linha de crédito criada pelo Governo de Passos Coelho para apoiar a tesouraria das empresas nacionais que trabalham com Angola deverá ser abandonada pelo executivo por praticamente não ter sido utilizada no último ano. A informação foi transmitida esta sexta-feira, em Luanda, pelo secretário de Estado da Internacionalização de Portugal, Jorge Costa Oliveira, durante uma visita a empresas portuguesas instaladas em Angola.

Esta linha, inicialmente com 500 milhões de euros e que depois passaram a 100 milhões de euros, foi estabelecida pelo Governo português com os bancos, em abril de 2015, para reforço da tesouraria destas empresas portuguesas, face às dificuldades conjunturais em Angola com a crise do petróleo, mas demorou alguns meses para ficar operacional.

“Essa linha, dada a complicação e requisitos que exigia, acabou por praticamente não ser utilizada. Os dados que tenho mostram que foram utilizados menos de sete milhões de euros”, admitiu aos jornalistas Jorge Costa Oliveira, o primeiro membro do atual Governo português a visitar Angola. “Há agora mais alguns casos pendentes [de acesso à linha de crédito], mas eu penso que é um daqueles casos em que não vale a pena insistir”, disse ainda o governante.

Já em julho de 2015 o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola (CCIPA), Paulo Varela, admitia que “questões burocráticas” estavam a “dificultar” a “plena implementação” da linha de crédito criada pelo Governo português para apoiar as empresas nacionais que trabalham com Angola. De acordo com aquele responsável, mais de 320 empresas portuguesas que exportam ou trabalham no mercado angolano já tinham demonstrado interesse nesta linha até ao final de junho de 2015, totalizando um montante de crédito então pedido entre 150 a 180 milhões de euros. Recordou que a criação desta linha foi sugerida pela própria Câmara, mas que é “extremamente complexa” e que está a ser “difícil de operacionalizar”, ao envolver 18 entidades bancárias e as autoridades dos dois países.

Contudo, como agora explica Jorge Costa Oliveira, as dificuldades de implementação prendem-se, por exemplo, pelas análises de risco feitas pelos bancos às empresas, preferindo valorizar a capacidade creditícia em desfavor dos requisitos e objetivos da própria linha. “Temos é que pensar noutros mecanismos que sejam possíveis, mas não é uma coisa fácil”, admitiu, o governante português, que hoje terminou uma visita de quatro dias a Luanda, durante a qual reuniu com o ministro das Finanças de Angola, Armando Manuel, e com o governador do Banco Nacional de Angola, Valter Filipe.

Mais de 9.400 empresas portuguesas exportavam para Angola em 2015, cerca de 5.000 das quais tendo neste país africano o seu único destino de vendas.

Depois de ter perdido o primeiro lugar das origens das importações angolanas para a China em 2015, Portugal passou a ocupar o terceiro posto dessa tabela no primeiro trimestre deste ano, atrás do mercado chinês e do novo líder, os Estados Unidos da América.