Permitam-me fazer a sacanice de arrancar logo um artigo sobre uma série de televisão com um pequeno spoiler (juro que não é daqueles que dói): no segundo episódio da segunda temporada de “Mr. Robot”, que estreou nos Estados Unidos juntamente com o primeiro, o protagonista Elliot sorri. Um daqueles sorrisos rasgados de orelha a orelha, quase cartoonescos, que descambam inevitavelmente numa gargalhada.

O momento é marcante e impossível de não estranhar por causa de um pequeno detalhe: é inédito na série. Elliot – um hacker sem apetências sociais que se vê líder de uma milícia de anarquistas informáticos — nunca ri, flutuando na sua existência entre a angústia da tortura e a dormência da inexpressividade. No site e aplicação TV Show Time o feito foi notado por fãs. Bom, na verdade foi notado com ainda mais fulgor por fãs do sexo feminino. “Parece tão maluco mas tão fofinho”, lê-se mais que uma vez no feed…

As moças suspiram, os moços não percebem que raio tem de especial um tipo com um ar tão esquisito. Tem muito de especial: é que o actor Rami Malek é uma das mais recentes entradas para o panteão de homens Feios-Bonitos. Os homens coçam a cabeça confusos, as mulheres trocam tops de preferências.

Mas afinal, o que é um Feio-Bonito?

É aquele que, não correspondendo a padrões óbvios de beleza, tem o charme e o apelo da diferença. Não parece esculpido em mármore qual Adónis grego de proporções padronizadamente perfeitas, mas tem um je ne sais quois que se destaca numa multidão de actores bonitinhos.

O protagonista de uma série de arestas tão aguçadas como “Mr. Robot” nunca poderia ser um giraço clássico. Os enormes olhos de peixe de Malek, suportados por umas inchadas pregas papudas, ajudam a que acreditemos no caos, no cansaço e até na espuma raivosa que pauta aquela vida. Não há próteses nem equipa de maquilhagem que consigam a mesma eficácia. Um Bonito caracterizado de Feio pode até convencer a Academia dos Óscares. Mas não convence o cada vez mais exigente público das grandes séries de televisão, que quer verdade e imersão no seu binging de conteúdos de eleição, ao invés de uma pseudo boa representação na qual nunca conseguimos calar a vozinha que nos diz “olha ali o Brad Pitt caracterizado de velho”. A suspensão voluntária da descrença (basicamente, o botão que desligamos para acreditar momentaneamente em conteúdos de ficção) cada vez menos se coaduna com perucas e rugas de silicone e precisa de actores com textura a olho nu. Mesmo que estes desafiem os padrões de beleza.

Ditos padrões de beleza não são universais – mas os padrões de charme e de sexyness são ainda menos. Daí serem elásticos o suficiente para embaraçarem um autêntico pelotão de Feios-Bonitos. À laia de teste, perguntei no meu Facebook que homens eram feios mas ao mesmo tempo lindíssimos. Temi não me estar a explicar bem no conceito, mas uma hora depois já tinha largas dezenas de comentários. Benicio Del Toro e Javier Bardem foram os mais citados. Mas também houve espaço para a frieza de John Malkovich, para o nariz gigante de Adrien Brody, para o ar tresloucado de Jack Nicholson, para as orelhas e o bigode mal semeado de Adam Driver (de “Girls” e do novo “Star Wars”), para a face marcada de William Dafoe, para o look vagamente alienígena de Benedict Cumberbatch, para os olhos minúsculos de Christopher Walken (que marcou largos pontos com os seus passos de dança no videoclip de “Weapon Of Choice”, de Fatboy Slim)…. A lista continuava a aumentar, para descrença de alguns membros do sexo masculino. “Até valem vesgos, vocês são doentes”, comentou um amigo meu. Os Feios-Bonitos são, como uma rádio que existiu em tempos, para uma imensa minoria.

Rami Malek de “Mr Robot” é lindo para muitas mulheres, mesmo protagonizando uma série onde aparece sempre na sua versão mais estragada. Mas os homens não estão a dormir: uma breve pesquisa no Google por “Rami Malek haircut” revela mais de 65 mil resultados, tutoriais de Youtube incluídos. Numa recente ida ao talk show de Jimmy Fallon, o actor revelou que da última vez que foi ao cabeleireiro este desabafou: “todos os dias me pedem um corte à Rami Malek. Mas pronto, hoje ao menos foi o próprio”.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa