Recep Tayyip Erdogan

Ativista turco. Sistema presidencial “está praticamente em vigor” na Turquia

O sistema presidencial está "praticamente em vigor" na Turquia e Erdogan, regido por preceitos e discursos nacionalistas e islamitas, tem pouca gente em quem confiar, diz ativista turco à Lusa.

Ana Freitas/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O sistema presidencial está “praticamente em vigor” na Turquia e o Presidente Recep Tayyip Erdogan, regido por preceitos e discursos nacionalistas e islamitas, tem hoje pouca gente em quem confiar, considerou em entrevista à Lusa um ativista turco.

“Neste momento [Erdogan] está a liderar quase todas as reuniões do Conselho de Ministros, o que quer dizer que o sistema presidencial está praticamente em vigor”, considerou Sinan Eden, natural de Izmir, 30 anos, há cinco anos a viver em Portugal e muito perto de concluir o doutoramento em Matemática no Instituto Superior Técnico (IST).

“O problema é que não tem ninguém para confiar e depois aplicar as decisões que pretende, quer no atual sistema enquanto Presidente, quer num suposto e futuro sistema presidencial. Precisa de amigos, e tem poucos amigos”, acrescentou Sinan Eden, também um ativista ambiental, com diversos artigos publicados sobre esta temática, em particular as alterações climáticas, e que se exprime quase corretamente em português.

Na sequência da fracassada e sangrenta tentativa de golpe militar em 15 de julho, o Governo dominado pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita-conservador, também fundado por Erdogan e no poder desde 2002), já ordenou a detenção de mais de 13.000 pessoas, enquanto dezenas de milhares foram afastadas dos seus cargos.

Erdogan — que ocupou o cargo de primeiro-ministro entre 2003 e 2014, quando foi eleito Presidente por voto direto –, atribuiu a tentativa de golpe à oficialmente designada “Organização Terrorista Fethullah Gülen” (FETÖ), numa referência ao influente clérigo islamita que se autoexilou nos EUA em 1999 e que, de aliado do atual chefe de Estado, se tornou a partir de 2013 num dos seus principais inimigos, acusado de pretender criar um “Estado paralelo” no país através da sua influência no meio escolar, militar, judicial ou nos media.

Na perspetiva do ativista turco, as “purgas” que agora decorrem estão também a ser dirigidas contra muitos responsáveis designados por Erdogan, e quando Gülen o ajudou, nos primeiros anos de poder, a “islamizar” a administração pública.

“Durante este processo verificou-se a liquidação de outros setores da população, principalmente os setores republicanos, laicos, e outros democratas, e que já não fazem parte do Estado. Este foi um primeiro processo que se prolongou por 12 anos”, assinalou.

“Mas nos últimos dois, três anos, é no interior do Estado. São pessoas que foram designadas por estes governos do AKP. Isso indica como se encontra o Estado neste momento. Não está a acontecer à margem do Estado, mas no interior do Estado”.

No entanto, Sinan Eden, não hesita em definir o “movimento gulenista”, ou Hizmet, como um “movimento de ‘jihad’, e perspetiva: “Traduz-se como imperialismo, é assim que têm alianças com os Estados Unidos, ou na zona do Médio Oriente. Hizmet em turco significa ‘Serviço’, este serviço que fazem é a ‘jihad’, é a guerra, só que não é com armas, usam outros métodos. O terreno desta ‘jihad’ é o mundo, estão muito bem organizados na Ásia, África e Estados Unidos”.

O ativista arrisca mesmo um pedagógico paralelismo, transposto para o contexto europeu e ocidental, entre o movimento do predicador e ex-imã Gülen e o seu atual arqui-inimigo Erdogan.

“Comparo o movimento Gülen com o Vaticano, e Erdogan com os radicais evangelistas. [Na Europa] esta escolha não existe, aqui ninguém pergunta a quem vamos dar o poder político, se ao Vaticano ou aos evangelistas, é uma pergunta irracional. No nosso caso também”.

Nesta abordagem associa o Hizmet ao Vaticano “no sentido em que utiliza muitas formas diferentes para se aproximar ou chegar ao poder. Por vezes através de formas obscuras, muitas vezes com fortes redes orgânicas que não são visíveis para quem não está dentro da rede”.

“clandestina”, e que durante anos se infiltrou nas instituições. “Por isso estava a tornar-se muito difícil erradicar este movimento do Estado turco, porque nunca se sabe exatamente quem são, e utilizam táticas muito diferentes para se manterem nas suas posições”.

Erdogan cada vez mais só

Sinan Eden deteta características diversas no Presidente turco: “Tem muito menos ideologia por detrás, tem simplesmente uma ambição de poder e não tem muito a noção da diplomacia“, refere, numa alusão à sua abordagem inicial à guerra na Síria, ou ao conflito com Moscovo na sequência do derrube de um avião russo militar em novembro de 2015.

“Fez coisas que ninguém até agora fez, porque são riscos para o planeta. Decide estes riscos porque é mais impulsivo…”, adianta ainda numa referência ao homem-forte da Turquia, detetando na sua ideologia e discursos um misto de nacionalismo e islamismo.

“E quando quer consolidar o poder, é sempre bom ter um inimigo desde sempre, atacar e tentar unir diversas forças em torno de si, para apontar o inimigo e atuar, em vez de ficar a discutir. É uma das táticas”, afirma.

O militante ambientalista não hesita mesmo em atribuir características ditatoriais ao atual regime de Ancara, mas denota a “dificuldade prática” desta deriva e que consiste em “tomar sozinho todas as decisões”, uma atitude pouco “realista”. “No mundo, em geral, todos os movimentos têm uma equipa mas Erdogan cada vez tem menos uma equipa confiável, o que significa que a operacionalização das suas decisões vai ficar cada vez mais difícil”, arrisca.

A dificuldade em prever a evolução da situação interna na Turquia mereceu ainda um reparo do ativista turco.

“Erdogan já fez alianças para atacar terceiros, depois desfez essas alianças para atacar os antigos aliados, e continuar assim. O regime de Erdogan está muito isolado na Turquia e a nível internacional”, reforçou.

“De momento, não estou a ver nenhum aliado do regime de Erdogan e ele também está a perceber. E por isso está agora num processo de normalização com Israel e com a Rússia. Mas isso é regressar ao início”, concluiu.

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