Bruno Barros, um dos membros de Bailarico Sofisticado, recorda uma das vezes em que a dupla de DJs encerrou a última noite do Festival Músicas do Mundo (FMM) no palco mesmo em frente ao mar. “Creio que foi em 2007, perto das sete da manhã na Av. da Praia, quando já o sol raiava”, começa. “Estavam cerca de 10 mil pessoas a dançar, até que começaram a chover soutiens vindos do público. Acabámos o set pelas nove da manhã e o resto não posso contar.”

[“Yo Voy Ganao”, dos Systema Solar]

Quase dez anos depois do episódio dos soutiens, o festival que agora celebra a 18.ª edição continua a manter o ritual de encerrar com um concerto que se prolonga pela manhã de domingo na Av. da Praia de Sines. E gratuito. Este ano, os portugueses Jibóia são os últimos a tocar (com Filho da Mãe como convidado especial) às 5h45, para os mais resistentes. Até lá, há que contar com outros 46 concertos de bandas de todas as partes do mundo, que já começaram no fim-de-semana passado em Porto Covo.

Os concertos: 27 de julho (quarta)

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CRIATURA (Portugal)
Castelo | 18h45

TRAD.ATTACK! (Estónia)
Av. Vasco da Gama | 20h00

DAKH DAUGHTERS (Ucrânia)
Castelo | 21h45

MOH! KOUYATÉ (Guiné-Conacri)
Castelo | 23h15

MBONGWANA STAR (R. D. Congo)
Castelo | 00h45

NINE TREASURES (Mongólia Interior – China)
Av. Vasco da Gama | 02h30

OLIVETREEDANCE (Portugal)
Av. Vasco da Gama | 04h00

Para quem não esteve lá (foi o nosso caso), Hélder Gomes, repórter e guionista do Canal Q, assíduo do festival desde 2009, destaca os melhores momentos: “Bamba Wassoulou Groove [do Mali], o Bnegão [do Brasil] a entrar por “The Message” (um clássico do hip-hop do Grandmaster Flash) sem ninguém perceber ou dar grande importância e, a fechar a etapa Porto Covo, a Wesli Band [do Haiti/Canadá].”

Há que pensar que o melhor ainda está para vir, com Konono nº1 meets Batida (R.D. Congo/Portugal/Angola), Bitori (Cabo Verde), Filho da Mãe (Portugal), Islam Chipsy & E.E.K. (Egito), Los Pirañas (Colômbia), Speed Caravan (Argélia, França, Senegal), Systema Solar (Colômbia) ou Mbongwana Star (R.D. Congo), entre muitos outros, a preencher o cartaz do festival até sábado. A maior parte dos concertos divide-se entre o palco do castelo e o palco da praia – estes últimos gratuitos e, provavelmente por isso, os mais concorridos, embora no fim-de-semana os bilhetes do castelo também costumem esgotar.

Os concertos: 28 de julho (quinta)

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HEARTS AND BONES (Portugal)
Centro de Artes de Sines – Auditório | 17h00

RETIMBRAR (Portugal)
Castelo | 18h45

A JIGSAW & THE GREAT MOONSHINERS BAND (Portugal)
Av. Vasco da Gama | 20h00

DANYÈL WARO (Reunião – França)
Castelo | 21h45

NOURA MINT SEYMALI (Mauritânia)
Castelo | 23h15

BIXIGA 70 (Brasil)
Castelo | 00h45

THE COMET IS COMING (Reino Unido)
Av. Vasco da Gama | 02h30

DJ SATELITE (Angola)
Av. Vasco da Gama | 04h00

“Mbongwana Star, David Murray Infinity Quartet & Saul Williams, Konono Nº1 meets Batida e Billy Bragg” são as recomendações de Hélder Gomes para a edição deste ano. Já Bruno Barros, dos Bailarico Sofisticado, diz não querer perder “Systema Solar e Bixiga 70”.

A família Konono e um elemento extra

Pedro Coquenão, a.k.a Batida, sobe ao palco do Castelo na sexta-feira ao lado dos congoleses Konono nº1, naquele que é um dos momentos mais aguardados desta edição. O que esperar? “Um pouco do que vivi na minha garagem com eles há um ano atrás”, conta, referindo-se à gravação do álbum “Konono nº1 meets Batida”, editado em abril. “A família Konono com um elemento extra. Por vezes com mais, porque fui convidando amigos para participarem em temas pontuais. É normal que isso se repita em Sines.” Quanto aos outros concertos da programação, não quer destacar nenhum.

Acho que o melhor é ir de espírito aberto e assistir a tudo o que dê para assistir. Nem sempre os nomes mais sonantes são os melhores shows. Há sempre momentos especiais entre público e artistas, em momentos menos óbvios”, explica.

A primeira vez que foi ao festival foi em 2003 e esta será a sua terceira vez em palco. “Tenho de recordar o momento em que subi ao palco do castelo para atuar depois do Hermeto Pascoal. É um palco muito especial e que valoriza muito quem o pisa. Há a possibilidade de uma ligação muito especial com o público ali. E o Hermeto Pascoal, sem ter um único disco dele, é dos artistas que mais me inspirou pela sua liberdade. A juntar a tudo isto, pude congregar no mesmo palco alguns dos meus artistas preferidos pela primeira vez. A assistir, gostei muito de ver o Tom Zé.”

Os concertos: 29 de julho (sexta)

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FILHO DA MÃE (Portugal)
Centro de Artes de Sines – Auditório | 17h00

BITORI (Cabo Verde)
Castelo | 18h45

LOS PIRAÑAS (Colômbia)
Av. Vasco da Gama | 20h00

DAVID MURRAY INFINITY QUARTET FEAT. SAUL WILLIAMS (EUA)
Castelo | 21h45

IMED ALIBI (Tunísia / França)
Castelo | 23h15

KONONO N.º 1 MEETS BATIDA (R. D. Congo / Portugal / Angola)
Castelo | 00h45

FUMAÇA PRETA (Venezuela / Portugal / R. Unido)
Av. Vasco da Gama | 02h30

ISLAM CHIPSY & E.E.K. (Egito)
Av. Vasco da Gama | 04h00

Desse concerto de 2004, lembra-se de como o brasileiro provocou o público “ao ponto de algumas pessoas abandonarem o show”. Outro dos momentos marcantes do FMM foi num concerto seu: “Exibi as caras de todos os líderes políticos do país, uma a uma, do menos popular aos restantes, e todos, sem exceção, foram assobiados pelo público. Democracia. Ou o fim dela, como a vivemos.”

Conversas bem regadas

Ir ao FMM é ter sempre histórias para contar e descobrir novos artistas – às vezes até jogar futebol com eles. “Nunca me irei esquecer de ter estado a jogar futebol no backstage com a Juana Molina [também atuou em Porto Covo na sexta, 22 de julho] e posterior conversa alcoólica até para lá do percetível”, recorda Bruno Barros. “Foi difícil também comunicar com o Lee “Scratch” Perry, tal era a dificuldade em entrar no seu sistema solar. Consegui um autógrafo num belo disco que guardo com muito carinho.”

[“Kala”, dos Mbongwana Star]

Hélder Gomes também recorda uma “conversa bem regada na tenda de Amp Fiddler, depois do concerto com Tony Allen”. “Com os tradicionais foguetes de fim de festival [no último dia há fogo de artifício] parecia que o Castelo de Sines estava a ser bombardeado.”

Mestrado intercultural ou doutoramento musical

Se a primeira edição, em 1999, teve 7 mil espectadores e apenas sete bandas – Corvos (Portugal), Clã (Portugal), Carlos Núñez Band (Espanha), Opus Ensemble (Portugal), Abed Azrié (Síria / França / Espanha), Quinteto de Carlos Martins (Portugal) e Sonny Fortune (EUA) – este ano são 47 os concertos e se o número de espetadores se aproximar do ano passado poderemos contar com cerca de 90 mil pessoas no total dos dias de festa.

Os concertos: 30 de julho (sábado)

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NORBERTO LOBO (Portugal)
Centro de Artes de Sines – Auditório | 17h00

SEBASTIÃO ANTUNES & QUADRILHA (Portugal)
Castelo | 18h45

BACHAR MAR-KHALIFÉ (Líbano / França)
Av. Vasco da Gama | 20h00

BILLY BRAGG (Reino Unido)
Castelo | 21h45

SPEED CARAVAN (Argélia / França / Senegal)
Castelo | 23h15

PAT THOMAS & KWASHIBU AREA BAND (Gana)
Castelo | 00h45

PAULO FLORES (Angola)
Av. Vasco da Gama | 02h30

SYSTEMA SOLAR (Colômbia)
Av. Vasco da Gama | 04h00

JIBÓIA (Portugal)
Av. Vasco da Gama | 05h45

Um festival “sempre a crescer em número de bandas e em projeção internacional, ainda que com a etapa Porto Covo em modo intermitente”, comenta Hélder Gomes. Apesar disso, “soube bem fugir a uma certa ideia estagnada de world music e tem conseguido manter a ideia de que todos cabem neste festival, sem público-alvo definido por idade, estrato social, cultura ou tamanho de barriga”, completa Pedro Coquenão.

A diversidade musical costuma ser tão grande (este ano, por exemplo, o cartaz tem bandas da Mauritânia, da Mongólia e da Guiné Conacri) que Bruno Barros compara o FMM a um “mestrado intercultural ou um género de doutoramento musical”. “É tudo aquilo que um festival deve ser. São 5 continentes, reunidos numa cidade.” Além disso, continua Hélder Gomes, é “talvez o único em Portugal onde a comunidade freak não arrisca uma desinfestação”.

FMM. Até sábado no centro histórico de Sines. Bilhetes para os concertos noturnos do Castelo (a partir das 21h45) entre os 10 e os 20 euros. Passe de 2 dias a 30 euros. Passe de 4 dias custa 50 euros. + info aqui.