Mandam as regras que, para se ser selecionado para os melhores empregos que cada setor tem para oferecer, há que atravessar um processo longo de candidatura. Enviar um currículo mal-amanhado com uma fotografia de há cinco anos, onde garantimos ser capazes de manter uma conversa em espanhol e onde nos arrogamos a capacidades de liderança e de trabalho de equipa por uma vez dirigimos um campo de férias, simplesmente não chega.

Não. Para chegar aos empregos mais prestigiados do mercado, é preciso apresentar um currículo invejável, com provas dadas e pouco ou nenhum espaço para dúvidas. É obrigatório deixar referências de pessoas respeitadas do meio, que possam atestar a qualidade do candidato. E é indispensável que tudo isto venha acompanhado de uma carta de motivação.

Pois é assim que pode ser resumido o segundo dia da Convenção do Partido Democrático, em Filadélfia: a entrevista de emprego mais longa de sempre. A candidata é Hillary Clinton, nome conhecido de todos. E a posição ocupar é ainda mais célebre: a presidência dos EUA. E ao longo de quase quatro horas de discursos, os vários oradores quiseram explicar ao eleitorado norte-americano porque é que acreditam que Hillary Clinton é a pessoa mais indicada para ser a 45ª pessoa a liderar os EUA e, já agora, a primeira mulher a fazê-lo.

“Eu sou a Hillary Rodham. E tu, quem és?”

A carta de referência mais esforçada ganhou forma no discurso de Bill Clinton, o 42º Presidente dos EUA e, não menos relevante, marido de Hillary desde 1975. Quem não sabia a data ficou a sabê-lo, num discurso em que o ex-Presidente começou com um tom pessoal, contando como conheceu Hillary Clinton na Yale University. Primeiro, viu-a numa aula, após a qual decidiu ir apresentar-se. Bill Clinton seguiu Hillary Rodham, aproximou-se dela mas depois recuou.

Só dias mais tarde é que, reparando que olhava para ela, Hillary se levantou e foi ter com Bill. De frente para o rapaz do Arkansas, disse-lhe: “Ouve, se vais continuar a olhar para mim, e já que eu também estou a olhar para ti, ao menos podíamos saber os nomes um do outro. Eu sou a Hillary Rodham. E tu, quem és?”

Daí para a frente, Bill Clinton aproveitou a ordem cronológica dos acontecimentos para enunciar, um por um, os feitos de Hillary Clinton — que passou a chamar-se assim a partir de 1975, ficando com o apelido de Bill, com o qual só aceitou casar depois da terceira proposta de casamento.

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Bill Clinton contou como conheceu a mulher e enalteceu-lhe o percurso político (Aaron P. Bernstein/Getty Images)

O acesso à educação por parte de todas as crianças foi uma das primeiras causas que Hillary Clinton agarrou. O ex-Presidente contou a história de quando a sua mulher, enquanto ainda estudava, foi investigar se ainda havia ou não escolas que persistiam uma política de segregação racial. Em Dothan, no Alabama, foi até uma academia conhecida pela predominância de estudantes brancos, apesar de essa não ser a composição demográfica daquele lugar. “Foi para lá a fingir que era uma dona de casa que tinha acabado de se mudar para aquela vila e que precisava de encontrar uma escola para o filho”, contou Bill Clinton. Depois de uma conversa com o diretor, Hillary terá dito: “Oiça, vamos falar do que interessa. Se eu meter o meu filho nesta escola, ele vai estar numa escola segregada? Sim ou não”. “E o tipo disse ‘absolutamente!'”, recordou o antigo titular da Casa Branca. “Ela apanhou-o.”

Bill Clinton descreveu a sua mulher como “a verdadeira change maker“. Isto é, alguém que traz mudanças e faz a diferença. Para sustentar essa afirmação, falou do trabalho que fez enquanto primeira-dama do Arkansas e, mais tarde, enquanto primeira-dama. Deste último período, destacou o Programa de Seguros de Saúde para Crianças, em 1997, que conseguiu que fosse aprovado pelo Congresso, na altura com uma maioria do Partido Republicano.

Por fim, Bill gabou a prestação de Hillary enquanto senadora por Nova Iorque e, mais à frente, como líder da diplomacia norte-americana, no primeiro mandato de Barack Obama. Sobre as funções que serviu entre 2009 e 2013, Bill Clinton destacou o facto de a então secretária de Estado ter trabalhado “muito para aplicar sanções fortes ao programa nuclear do Irão” com o apoio da Rússia e da China — algo que, Bill Clinton fez questão de sublinhar, foi apelidado pelo Wall Street Journal como “um lançamento do meio campo no último segundo do jogo”. Além disso, colocou Hillary Clinton como fundamental na captura de Bin Laden em 2011, referiu-a como pioneira na luta contra os terroristas “no terreno”, explicou como “ela colocou as alterações climatéricas no centra da política externa dos EUA.

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Bill Clinton: “Hillary já tinha feito mais diferenças positivas nas vidas das pessoas antes de chegar aos 30 anos do que muitos políticos fazem numa vida inteira”

No meio disso tudo, acrescentou ainda que enquanto Secretária de Estado deixou claro que “os direitos das mulheres são Direitos Humanos e que os Direitos Humanos são direitos das mulheres”, ao mesmo tempo que fazia “a mesma declaração em nome da comunidade LGBT na América e em todo o mundo”.

Porém, Bill Clinton não podia terminar a carta de recomendação de Hillary Clinton sem falar do seu adversário, Donald Trump, candidato presidencial dos republicanos. É verdade que não lhe disse o nome — uma opção igual à de Michelle Obama, que discursou na segunda-feira — mas toda a gente sabia que era sobre ele que estava a falar quando, por exemplo, disse Hillary Clinton “nunca gozou com pessoas com deficiência, ela tentou puxá-las para cima de acordo com as suas eficiências”, numa referência à vez em que Donald Trump fez pouco de um jornalista do New York Times que é portador de deficiência.

(Ainda antes de Bill Clinton falar, Donald Trump escrevia o seguinte sobre o seu discurso: “Não importa aquilo que Bill Clinton diga ou quão bem o venha a dizer, os falsos dos media vão sempre exclamar e dizer que foi incrível. Altamente sobrevalorizado!”.)

Esta é, para Bill Clinton, a “verdadeira” Hillary. “Como é que isto se enquadra com as coisas que vocês ouviram na Convenção Republicana”, lançou ao público, acusando os republicanos de que “a única opção que lhes resta é criar um cartoon“. “Os cartoons têm duas dimensões, são fáceis de observar. A vida no mundo real é complicada e a mudança verdadeira é difícil e muitas pessoas que até é aborrecida”, disse. Assim, deixou ao critério da plateia e dos eleitores a distinção entre a “sua” Hillary e aquela que foi apresentada durante quatro dias pelos republicanos. “A verdadeira já tinha feito mais diferenças positivas nas vidas das pessoas antes de chegar aos 30 anos do que muitos políticos fazem numa vida inteira”, acrescentou, glosando ainda mais o currículo à sua mulher. Porque, afinal de contas, assim é o mercado de trabalho: de uma maneira ou de outra, está-se sempre em competição.

Bernie Sanders desistiu em nome de Hillary Clinton e os seus fãs estiveram em silêncio

Quanto a oposilçao à sua candidatura, Hillary Clinton pode ter agora uma certeza: ela só partirá de fora. No nível interno, tornou-se oficialmente vencedora da nomeação depois de terem sido ouvidos os votos de todos os estados e territórios. Quando as mais de 50 delegações acabavam de anunciar quantos delegados davam a Hillary Clinton e a Bernie Sanders, o seu maior adversário nas primárias, este interrompeu o processo, dispensando que fosse feita a votação por superdelegados. Sabendo que a nomeação de Hillary Clinton era já um dado adquirido e que aquela votação era apenas uma mera formalidade, Bernie Sanders abdicou das regras do partido em seu prejuízo e pediu que Hillary Clinton fosse eleita por aclamação. Curiosamente, a ex-secretária de Estado fez o mesmo em relação a Barack Obama, permitindo que este fosse nomeado mais depressa na convenção de 2008.

Ao contrário do que se passou no primeiro dia da convenção, em que alguns seguidores e delegados de Bernie Sanders foram particularmente ruidosos e hostis, chegando a apupar até o senador do Vermont depois de este apelar ao voto em Hillary Clinton, a sessão desta terça-feira passou incólume a episódios desse tipo.

E, assim, sobrou tempo, disposição e atenção para que o curriculum vitae de Hillary Clinton fosse examinado com minúcia no Wells Fargo Center, bem para lá do discurso de Bill Clinton.

“Hillary é uma mãe que pode assegurar-se de que o nosso movimento pode suceder”

Uma das caras menos conhecidas a subir ao palco foi a de Joe Sweeney, polícia nova-iorquino que esteve entre os primeiros socorristas no atentado de 11 de setembro de 2001. Entre estes, muitos desenvolveram doenças crónicas, maioritariamente respiratórias, por terem inspirado toxinas no local do atentado. “Quando precisámos de alguém que falasse por nós, que estivesse ao nosso lado e que lutasse por nós Hillary Clinton esteve lá durante todos os passos do caminho”, garantiu Joe Sweeney, referindo aos anos em que ela era senadora por Nova Iorque.

Também falou Sybrina Fulton, mãe de Trayvon Martin, um jovem de 17 anos morto a tiro por um guarda noturno voluntário, apesar de o tribunal ter mais tarde determinado que este não estava nem armado nem ameaçara o seu homicida. “Hillary é uma mãe que pode assegurar-se de que o nosso movimento pode suceder”, referiu Sybrina Fulton, que apelou à adoção de uma legislação de “senso comum” para o controlo das armas.

Former US president Jimmy Carter, member of The Elders group of retired prominent world figures, addresses journalists during a press conference in an hotel in Jerusalem, on May 2, 2015, after a two-day-visit in Israel and the West Bank. AFP PHOTO/ THOMAS COEX (Photo credit should read THOMAS COEX/AFP/Getty Images)

Jimmy Carter: “Felizmente, a nomeada democrática oferece uma diferença considerável em estilo e substância, e também mais competência, do que a pessoa que os republicanos escolheram” (THOMAS COEX/AFP/Getty Images)

Entre caras mais conhecidas, destacou-se Madeleine Albright, também ela ex-secretária de Estado, neste caso durante o segundo mandato de Bill Clinton, entre 1997 e 2001. Apontando as semelhanças que acredita partilhar com Hillary, Madeleine Albright apontou para uma, que tem tudo a ver com experiência: “Ambas sabemos como é sair daquele avião estampado com as palavras ‘Estados Unidos da América”.

E Jimmy Carter, Presidente dos EUA entre 1977 e 1981, assegurou que “Hillary sempre demonstrou uma vontade imparável de agarrar os desafios mais difíceis e de fazer as coisas acontecerem”. Além disso, disse que o “candidato republicano viola todos os valores éticos e morais sobre os quais a nossa nação foi fundada”. Mas, depois, acrescentou que não há razões de preocupação do lado dos democratas: “Felizmente, a nomeada democrática oferece uma diferença considerável em estilo e substância, e também mais competência do que a pessoa que os republicanos escolheram”.

Demasiado bom para ser verdade?

O segundo dia da Convenção do Partido Democrático foi, de forma resumida, aquilo que os republicanos não conseguiram fazer uma única vez enquanto se reuniram entre 18 e 21 de julho em Cleveland, no Ohio. Hillary Clinton teve ex-Presidentes a elogiá-la de forma vívida (esqueçamos por momentos, se tal for possível, que um deles é seu marido) e outros representantes destacados do partido e antigos titulares de cargos de destaque a afinar pelo mesmo diapasão. Até a oposição interna que atrapalhou o primeiro dia parece ter-se resignado. Ou seja, tudo ao contrário da Convenção do Partido Republicano, onde não esteve presente nenhum ex-Presidente e, quanto a antigos nomeados, só Bob Dole, derrotado por Bill Clinton em 1996, decidiu aparecer. E não discursou. Quanto às figuras de proa do partido que discursaram, como Paul Ryan ou Mitch McConnell, nenhuma delas se quis alongar nos elogios a Donald Trump. E Ted Cruz, senador destacado e maior adversário de Trump nas primárias, acabou por ser corrido do palco à força de apupos, depois de ter recusado dar-lhe o seu apoio.

Objetivamente falando, a entrevista de emprego de Hillary Clinton parece ter corrido bem. No entanto, nada é tão linear quanto isso — e muito menos uma entrevista de emprego. Não são raras as vezes em que um candidato aparentemente bem preparado para desempenhar as funções em causa é afastado por ser “demasiado qualificado” ou por ter “experiência a mais”, o que, no outro lado da moeda tem escrito coisas como “pouco flexível” ou “vícios antigos”. Ou, simplesmente, porque levantam suspeitas no potencial empregador, que pode achar que aquele currículo simplesmente é demasiado bom para ser verdade.