O Presidente dos EUA, Barack Obama, encerrou o terceiro dia da Convenção do Partido Democrático com um discurso onde elogiou de forma empenhada o currículo e as ideias de Hillary Clinton, tornando ainda mais profunda a ideia de que uma é a continuação do outro, agora que os oito anos de poder do primeiro Presidente afro-americano dos EUA estão a chegar ao fim.

A ideia de que Hillary Clinton é a pessoa com maior preparação que até hoje se apresentou a umas eleições presidenciais norte-americanas tem sido referida com regularidade nos discursos da convenção dos democratas, em Filadélfia. Ainda assim, essa afirmação ganha ainda mais força quando dita por Barack Obama, que antes de ser Presidente dos EUA teve em Hillary Clinton uma rival aguerrida nas eleições primárias dos democratas de 2008.

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Barack Obama: “Nunca houve ninguém mais qualificado do que Hillary Clinton para servir como Presidente dos EUA”

“Nada pode verdadeiramente preparar uma pessoa para as exigências da Casa Branca”, admitiu. “Mas a Hillary já esteve naquela sala. Ela fez parte dessas decisões. Ela sabe o que está em causa nas decisões que o nosso Governo toma, ela sabe o que está em causa para as famílias trabalhadoras, para os reformados, para os pequenos empresários, para os soldados, para os veteranos”, garantiu Barack Obama. Mais à frente, realçou-lhe “a sua ética de trabalho incrível”, realçando que a sua razão de existir é porque “ela está metida nisto por qualquer pessoa que precise de alguém que a defenda”.

“É por isso que eu posso dizer com confiança que nunca houve um homem ou uma mulher, nem eu, nem o Bill [Clinton], nunca houve ninguém mais qualificado do que Hillary Clinton para servir como Presidente dos EUA”, concluiu, recebendo um longo aplauso, para o qual contribui o próprio Bill Clinton. “Espero que não te importes, Bill, estou só a dizer a verdade, pá…”, gracejou o Presidente norte-americano.

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Sobre Hillary Clinton, recordou as eleições primárias de 2008, em que foram rivais. “Deixem-me dizer-vos: foi duro. Foi duro porque a Hillary é dura”, recordou. Mas também lembrou como ela aceitou o seu convite para ser Secretária de Estado no seu primeiro mandato, para surpresa de muitos, ela própria também. “Mas ela acabou por aceitar, porque sabia que o que estava em causa era maior do que qualquer um de nós”, disse, numa mensagem aos apoiantes de Bernie Sanders que até agora se recusam a votar na candidata dos democratas. “Se vocês levam a nossa democracia a sério, então não podem dar ao luxo de ficarem em casa só porque ela não alinha convosco em todas as questões”, atirou-lhes.

“A nossa grandiosidade não depende de Donald Trump”

Além de exaustivamente elogioso de Hillary Clinton, o discurso de Barack Obama foi também altamente crítico do candidato dos republicanos, Donald Trump. Referindo-se ao magnata nova-iorquino muitas vezes com um esgar zombeteiro, o presidente norte-americano acusou de tentar “enganar o povo americano” e de apostar na ideia de que “se amedrontar um bom número de pessoas, talvez consiga vencer estas eleições”. “Essa é uma aposta que Donald Trump vai perder”, declarou. “Nós não somos um povo frágil, não somos um povo assustadiço. O nosso poder não vem de um salvador auto-declarado que vai restaurar a lei e a ordem só por as coisas serem feitas à sua maneira”, disse.

Numa referência ao slogan de campanha (“Vamos Tornar A América Grandiosa De Novo”) de Trump, Obama garantiu que a “a América já é grandiosa”, acrescentando que a “nossa grandiosidade não depende de Donald Trump”. “Na verdade, não dependem de nenhuma pessoa. E isso talvez seja a maior diferença destas eleições: o significado da nossa democracia”, disse.

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O nosso poder não vem de um salvador auto-declarado que vai restaurar a lei e a ordem só por as coisas serem feitas à sua maneira”, disse Barack Obama em alusão a Donald Trump

Sobre a Convenção do Partido Republicano, Barack Obama disse que “aquilo que nós ouvimos em Cleveland na semana passada não foi propriamente republicano e de certeza que também não foi conservador”, garantiu. “O que nós ouvimos foi uma visão profundamente pessimista de um país onde nos viramos uns contra os outros e viramos as costas ao mundo.”

“A América tem mudado ao longo dos anos”, admitiu. “Mas os valores que os meus avós me ensinaram não foram a lado nenhum, eles estão fortes coo sempre e ainda são partilhados por pessoas de todos os partidos raças e religiões”, disse, em resposta à nostalgia implícita no lema de Donald Trump. E de seguida referiu-se ao candidato republicano com uma ameaça equiparável a outras que os EUA enfrentaram no passado ou que enfrentam atualmente. “Quem ameaça os nossos valores, sejam fascistas, comunistas, jiadistas ou demagogos que su rgem de dentro, falha sempre no final”, garantiu. “Isso é a América, esses laços de afeto, essa crença comum. Nós não temos medo do futuro, não moldamos o futuro.”

Embora o discurso de Barack Obama tenha sido marcado sobretudo por uma nota de otimismo perante o futuro, o Presidente norte-americano também dedicou uma parte considerável da sua intervenção para enumerar os feitos dos seus dois mandatos. “Depois da nossa pior recessão nos últimos 80 anos, conseguimos sair com luta e vimos o défice a descer”, disse, referindo ainda o aumento da produção de energias renováveis e a morte de Osama Bin Laden. No campo da diplomacia, destacou o acordo nuclear com o Irão, a reabertura de relações com Cuba e o tratado que se seguiu à cimeira do clima de 2015 em Paris, que contou com a participação dos 196 países das Nações Unidas.

E às acusações de que a mudança prometida na sua campanha para as presidenciais de 2008 tardou a ser concretizada, Obama lembrou: “Eu sempre tenho dito que a mudança nem sempre é fácil e rápida”. “Mas eu prometo: quando tempos a nossa vontade, quando convencemos pessoas suficientes a mudarem de ideias, quando conseguimos os votos necessários, o progresso aconteceu”, garantiu. “Se duvidam disso, então perguntem aos 20 milhões de pessoas que agora têm um seguro de saúde”, disse, referindo-se à reforma da saúde que ficou conhecida como Obamacare e que é um das maiores heranças dos seus oito anos na Casa Branca.

Manifestações contra Hillary continuam, prolongando desunião no partido

O discurso de Barack Obama foi recebido pela plateia de delegados do Partido Democrata com entusiasmo, ouvindo-se ocasionalmente pedidos por “mais quatro anos”, deixando a ideia de que este é um Presidente que deixará saudades, pelo menos no seu próprio partido, onde ainda restam dúvidas sobre a capacidade de formar uma união verdadeiramente coesa após as eleições primárias, disputadas até à última por Hillary Clinton e Bernie Sanders,

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Enquanto a convenção decorria, partidários de Sanders continuavam a manifestar-se no exterior da convenção, criando momentos de tensões que levaram a pelo menos sete detenções esta quarta-feira. Como tem sido prática daqueles grupos que se reúnem fora do Wells Fargo Center, foram entoadas palavras de ordem contra Hillary Clinton e lançadas acusações de as eleições primárias terem sido desequilibradas para benefício da ex-secretária de Estado.

Mas não foi só fora da convenção que houve sinais de discórdia. Também dentro do recinto houve algumas interrupções — e nem Obama passou incólume. Enquanto discursava, alguém gritou “não ao TTIP!”, referindo-se ao acordo comercial internacional impulsionado pelo Presidente dos EUA e do qual Hillary foi impelida a afastar-se durante as eleições primárias, aproximando-se assim do eleitorado de Sanders.

Outra interrupção foi registada quando Leon Pannetta, ex-diretor da CIA e Secretária de Defesa, discursava. Enquanto este sublinhava a falta de experiência de Donald Trump na política internacional (“Donald Trump diz que vai ganhou a sua experiência em política internacional ao ver televisão e ao gerir o concurso da Miss Mundo”), um grupo de delegados gritava “não à guerra!”, acabando por ser abafados por gritos de uma maioria que respondeu com gritos de “USA! USA! USA!”.

A história do sogro republicano que agora vota nos democratas

Ao mesmo tempo que o Partido Democrata parece ter um longo e incerto caminho para conseguir sarar as feridas à sua esquerda, tornou-se claro que está disposto a estender a mão à sua direita. A escolha de Tim Kaine, democrata moderado que é governador da Virginia desde 2013, para vice-Presidente de Hillary Clinton já tinha sido uma escolha clara nesse sentido — e o seu discurso não fugiu a esse plano.

Numa tentativa de apelar ao voto dos republicanos que possam estar desiludidos com a nomeação de Donald Trump, Tim Kaine falou do seu sogro, Linwood Holton, governador da Virginia entre 1970 e 1974 pelo Partido Republicano. “Linwood Holton ainda é um republicano, mas ele anda a votar em muitos democratas, hoje em dia…”, disse, arrancando uma gargalhada ao próprio sogro, de 92 anos, que esteve presente na sala. “E esta é a razão: ele está a votar nos democratas porque qualquer partido que nomeie Donald Trump como seu candidato para Presidente afastou-se demasiado do seu partido de Lincoln”, explicou. E depois fez um apelo aos republicanos desencantados com o próprio partido: “Se alguns de vocês estão à procura do partido de Lincoln, nós temos uma casa para vocês aqui no Partido Democrata”.

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Tim Kaine, o vice de Hillary Clinton, apelou ao voto dos republicanos desiludidos com o próprio partido

Esse esforço também foi reforçado pelo milionário Michael Bloomberg, que terá chegado a equacionar concorrer como independente. “Trump diz que quer gerir a nação como geriu os seus negócios? Que Deus nos ajude”, disse, recebendo uma forte ovação da plateia. E deixou alguns elogios à candidata dos democratas, descrevendo-a como “sã” e “competente”. “Hillary Clinton entende que isto não é um reality-show. Isto é a realidade”, disse. “Ela entende as funções de um Presidente. Consiste em encontrar soluções e não em apontar dedos.”

“Sí se puede”

Ainda assim, há um outro segmento do eleitorado, amplo e em crescimento, que o Partido Democrata tenta puxar ainda mais para o seu lado: as minorias étnicas e religiosas.

Quarta-feira foi o dia de subirem ao palco oradores muçulmanos, judaicos, também asiáticos, afro-americanos, americanos nativos e, claro, latinos. São estes últimos que representam a minoria em maior crescimento nos EUA e também aquela onde os democratas ainda têm votos a conquistar. A ajudar nesse sentido estará também Tim Kaine, que usou da sua fluência em espanhol em várias ocasiões do seu discurso. Sobre o ano em que fez voluntariado nas Honduras quando ainda era estudante universitário, disse em espanhol: “Aprendi os valores do povo: fé, família e trabalho. Os mesmos valores de todos latinos aqui no nosso país. Somos todos americanos”.

De cada vez que Tim Kaine optava por fazer breves passagens do seu discurso em espanhol, a plateia aplaudia de forma quase automática. Mais do que uma vez, gritou-se “Sí se puede”, a versão em castelhano do lema de Obama em 2008, “Yes We Can”.

As 49 badaladas de Orlando

Se é certo que muitos na plateia assistiram ao discurso do ainda Presidente com emoção, não deixa de ser verdade que houve ainda outro momento no terceiro dia da Convenção do Partido Democrata que teve uma carga emocional consideravelmente maior, levando vários delegados às lágrimas.

Foi assim que a convenção ouviu Christine Leinon, mãe de uma das 49 vítimas do tiroteio na discoteca Pulse, em Orlando. “São necessários cerca de cinco minutos para um sino de igreja tocar 49 vezes”, disse, a abrir o seu discurso. “Eu sei isto porque no mês passado o meu filho Christopher, o seu namorado Juan, e outros 47, foram assassinados numa discoteca em Orlando.”

Christine Leinon contou a história do dia em que deu à luz Christopher (“um grande apoiante de Hillary”), na altura em que ela era uma state trooper. “Quando entrei em trabalho de parto, o hospital meteu a minha arma num cofre”, contou. “Eu não contestei isso. Eu sei que as políticas de senso comum em relação às armas salvam vidas”, atirou.

“Fico feliz por essas políticas de senso comum terem estado presentes no dia em que o Cristopher nasceu. Mas onde é que estava esse senso comum no dia em que ele morreu?”, perguntou.

Num artigo de opinião publicado no The New York Times a 7 de janeiro deste ano, Obama deixou a seguinte promessa: “Não vou fazer campanha, apoiar ou votar em nenhum candidato, mesmo que seja do meu partido, que não apoie uma reforma de senso comum no tema das armas”.

Nesta quarta-feira, deixou claro que está disposto a apoiar Hillary Clinton — por esta e muitas mais razões.