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Como se fosse uma banalidade quotidiana ou uma graça juvenil, Adel Kermiche, de 19 anos, pegou no smartphone e escreveu uma mensagem na aplicação Telegram. Eram 8h30 da passada terça-feira: “Partilhar o que se segue”, publicou. E o que se seguiu foi o horror, na igreja de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Alta Normandia. Mas Adel Kermiche não chegou a fazer qualquer partilha, apesar de se ter voltado a ligar o Telegram às 9h46. Acabou por ser abatido pela polícia. Ele e o seu cúmplice Abdel Malik Nabil Petitjean. Entretanto, o jovem radicalizado já tinha degolado o padre Jaques Hamel, de 86 anos, e cometido um atentado terrorista que chocou o mundo.

A revista semanal francesa L’Express obteve registos áudio de Adel Kermiche, onde ele anunciava que queria concretizar uma ação terrorista numa igreja. O conteúdo das gravações, que aquela publicação divulgou na edição desta semana, e cuja veracidade garante ter confirmado, eram partilhadas com cerca de 200 pessoas no Telegram. Como esta:

Arranjas uma faca, vais a uma igreja e fazes uma carnificina. Cortas duas ou três cabeças e está bem. Acabou-se.”

Ao longo de semanas, Adel Kermiche foi gravando mensagens como se tratasse de um diário íntimo. A escuta dos ficheiros não deixa qualquer dúvida sobre a radicalização deste jovem, conta a revista francesa. Os registos áudio comprovam a premeditação do ataque à igreja normanda no dia 26 de julho. Numa das gravações, Adel diz que, como as fronteiras estão fechadas — já tinha sido impedido de viajar para a Síria para se juntar ao autoproclamado Estado Islâmico — o seu projeto como mártir passava por uma ação em solo europeu, em França.

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Nos ficheiros divulgados por L’Express, percebe-se que o jovem foi influenciado por um guia espiritual: “Na prisão com o meu sheik, ele deu-me as ideias”. O objetivo era matar o máximo de pessoas, sobretudo depois dos atentados no Bataclan, em Paris, ou na praia de Sousse, na Tunísia. Adel Kermiche esteve um ano preso em Fleury-Mérogis, de maio de 2015 até março de 2016, depois de ter tentado juntar-se ao Estado islâmico pela segunda vez. A seguir saiu, com pulseira eletrónica.

Na véspera do ataque, difundiu outras mensagens onde prometia, em linguagem de adolescente, que estavam para acontecer “grandes cenas” e pedia a todos os “irmãos e irmãs” do Telegram que partilhassem massivamente a sua página.

“Hei-de avisar-vos com antecedência, três ou quatro minutos antes e quando a cena acontecer, devem partilhar de imediato”, disse Kermiche, explicando que se trataria de “uma imagem ou um vídeo”. Era esta a mensagem que ele se preparava para enviar depois de assassinar o padre Jaques Hamel. Segundo L’ Express, às 9h46 do dia do ataque voltou a conecta-se mas nada publicaria. Segundo as informações da revista, foi impedido de o fazer, porque, provavelmente, nesse momento foi abatido pela Brigada de Busca e Intervenção de Rouen.

Os dois autores do ataque só se conheceram poucos dias antes do atentado, também através de mensagens encriptadas no Telegram. Ainda há perguntas em aberto. Não se sabe quem pôs os dois homens em contacto ou se receberam ordens através da mesma aplicação. “Desencriptar as mensagens leva tempo e este trabalho é complexo até porque Adel Kermiche e Abdel Malik Petitjean estavam ligados a inúmeras pessoas na rede social”, afirmou uma fonte da investigação citada por L’Express.