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Chama-se manuscrito Voynich (ou Codex Voynich), mas há quem lhe atribua um nome mais “carinhoso”: “o livro impossível”, porque até agora ainda ninguém conseguiu decifrar este documento com mais de 500 anos. Mas se quiser ter uma cópia, basta esperar um par de anos, para que a editora Siloé, de Burgos (Espanha), tenha pronto um dos 898 fac-símiles que vai produzir. Entretanto pode começar a juntar os oito mil euros necessários.

O livro terá sido escrito, na Europa central, no final do século XV ou durante o século XVI, mas ninguém sabe ao certo. Talvez até isso esteja escrito no próprio documento, mas até ao momento ainda não foi possível decifrar a língua em que está redigido. Nem o nome do autor é conhecido. Voynich, o nome dado ao manuscrito, é, na verdade, o nome de um alfarrabista polaco-americano – Wilfrid M. Voynich — que comprou o livro em 1912.

Os donos anteriores do manuscrito não são totalmente conhecidos. À partida, terá estado na posse do imperador Rudolph II da Alemanha, depois de o ter, alegadamente, comprado ao astrólogo inglês John Dee. Aparentemente, este astrólogo tinha vários manuscritos de Roger Bacon, um monge inglês renascentista que chegou a ser tido como potencial autor do livro. E Leonardo Da Vinci também. Mas é pouco provável que o tenham sido de facto.

Depois disso, terá andado de mão em mão até chegar a Wilfrid Voynich e ficou na posse da família até a viúva o vender a H. P. Kraus, como conta a biblioteca da Universidade de Yale (Estados Unidos) — Biblioteca Beinecke de Livros e Manuscritos Raros.

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Em 1969, Kraus ofereceu o manuscrito à Biblioteca Beinecke, mas o mistério continuou (e continua). Especula-se que o tema do livro possa ser magia ou ciência, porque grande parte das páginas estão ilustradas com motivos botânicos. Mas até isso deixa os investigadores confusos: existem 113 ilustrações de espécies de plantas completamente desconhecidas, aliás, nenhuma das 126 ilustrações pode ser perfeitamente identificada. Por outro lado, nota-se a falta de símbolos e motivos religiosos, tornando impossível ligá-lo a uma religião ou a uma escola de pensamento.

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Os desenhos botânicos são uma das seis secções do manuscrito, explica a biblioteca na descrição do documento. As restantes são: desenhos astronómicos e astrológicos, incluindo símbolos do zodíaco; desenhos de nus femininos com abdómenes inchados, imersos em líquido ou interagindo de uma forma estranha com tubos e cápsulas; nove medalhões cosmológicos; mais de 100 espécies de ervas com características medicinais; e, por último, páginas de texto que podem conter receitas [pode conhecer as páginas aqui]. Fala-se de secções para dividir o livro, mas de facto o livro não tem capítulos, nem subtítulos.

Apesar de se saber tão pouco sobre o livro, não quer dizer que ele não tenha sido muito estudado nos últimos 100 anos. Daí que a Universidade do Arizona, graças à datação com radiocarbono, tenha colocado a origem do livro entre 1404 e 1438, segundo Skeptical Inquirer. Sabe-se que o livro tem 246 páginas — 220 das quais ilustradas –, 170 mil carateres e que foi escrito da esquerda para a direita. E que tem alguns dos pormenores curiosos como: tem entre 15 a 25 letras diferentes, tem palavras de 4-5 letras (em média), o texto não tem pontuação e nunca aparece rasurado.

Até os maiores especialistas em mensagens encriptadas foram incapazes de decifrar este código até agora. Talvez por isso haja alguns especialistas que tenham colocado a hipótese de que o manuscrito não passe de um embuste, que as letras não pertençam a nenhuma língua (nem inventada), que os conjuntos de letras não sejam palavras ou mesmo que as plantas desenhadas sejam completamente inventadas.

Pode ser que os fac-similes da editora Siloé venham a demonstrar-se proveitosos para a investigação, já que muito mais pessoas terão acesso a este documento misterioso, refere o jornal espanhol El Mundo. A editora é conhecida por ser uma referência mundial neste tipo de cópias. “Quando quisemos fazer um caderno de apontamentos de Picasso recusaram o nosso pedido argumentado que era tão parecido que poderia roçar a falsificação”, conta o editor da Siloé Juan José García.