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A EuroScience – a associação europeia que representa todos os cientistas, instituições públicas e privadas ligadas à ciência – entregou no dia 25 de julho o Prémio Europeu para Jovens Investigadores 2016 (EYRA, European Young Researchers Award). Marta Entradas, a investigadora do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, foi uma das laureadas.

Marta Entradas foi a primeira portuguesa a receber este prémio criado pela EuroScience em 2010. Juntamente com o outro laureado, o holandês Martijn Wieling, são os primeiros investigadores em ciências sociais e humanidades a receber este prémio que pretende distinguir cientistas que valorizem a componente europeia no trabalho que realizam.

O prémio EYRA é atribuído todos os anos, sendo que em anos impares são distinguidos alunos de doutoramento e em anos pares investigadores a realizar pós-doutoramento. O prémio deste ano homenageou cientistas considerados de nível excecional, com elevada capacidade de liderança e boas competências na área da comunicação.

A investigadora portuguesa tem alguma dificuldade em descrever como se sentiu, em junho, quando soube que tinha sido selecionada. “Estava a ler o email e fartei-me de chorar”, contou ao Observador, agora sorrindo. “Como é que isto é possível?”, pensou na altura. A cientista que tem feito investigação em prol da sociedade confessa: “Senti que o meu trabalho e o meu esforço estavam a ser reconhecidos”.

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A EuroScience recebeu 34 candidaturas que foram avaliadas por um painel multidisciplinar internacional. Da primeira seleção resultaram sete investigadores que foram avaliados por especialistas das respetivas áreas de investigação. A decisão foi tomada em abril de 2016 e foi unânime.

Quebrar barreiras entre cientistas, cidadãos e decisores políticos

Marta Entradas licenciou-se em Ciências da Educação, mas mais tarde enveredou pela Comunicação de Ciência – a área de investigação pela qual foi distinguida. “Em reconhecimento da excelente investigação na área da Comunicação de Ciência e na promoção da agenda de ‘Ciência com e para a Sociedade'”, refere o certificado entregue à investigadora. “Ciência com e para a Sociedade” é um dos conceitos-chave do programa de financiamento da Comissão Europeia – Horizonte 2020. A preocupação principal é aproximar os cidadãos e a sociedade da investigação científica.

O certificado e medalha atribuídos à investigadora portuguesa Marta Entradas

O certificado e medalha atribuídos à investigadora portuguesa Marta Entradas

A investigadora do ISCTE, que agora ganhou uma bolsa Marie Curie para passar dois anos na London School of Economics and Political Science, coordena um projeto que pretende exatamente perceber “como é que as unidades de investigação estão a comunicar a ciência que fazem com a população, como respondem às necessidades da sociedade e que recursos utilizam”.

O projeto será financiado com 170 mil euros pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) durante dois anos e será desenvolvido, não só em Portugal, como na Alemanha, Itália, Reino Unido e Estados Unidos. A ideia é aplicar a mesma metodologia que a investigadora já utilizou nas instituições portuguesas e depois analisar as diferenças entre os países.

“Como nunca foi feito nada deste género, o projeto tem recebido o interesse de outras pessoas [países]”, refere Marta Entradas. O projeto FCT não pode cobrir as despesas de outros países que não tenham sido contemplados na proposta inicial, mas o Taiwan e a Polónia já mostraram conseguir financiar o desenvolvimento do projeto nos respetivos países. Outros dois possíveis candidatos, ainda à espera da confirmação do financiamento, são a China e o Brasil.

As variações das línguas e dos dialetos

A área de investigação do holandês Martijn Wieling, professor na Universidade de Groningen (Holanda), é consideravelmente diferente: compara dialetos e identifica as variações.

A formação de base de Martijn Wieling é em ciências da computação, mas cedo se interessou por linguística e fonética. A tese de mestrado comparava os dialetos holandeses, enquanto no doutoramento fez uma comparação entre as línguas holandesa, inglesa (de Inglaterra, Gales e Escócia), alemã, búlgara, catalã e da Toscania e ainda as comparou com as vogais Bantu de África.

“Uma das características deste trabalho é a mistura de dados geográficos, sociais e geracionais como fatores da variabilidade dos dialetos”, refere o comunicado da EuroScience.

Tal como Marta Entradas, Martijn Wieling tem dedicado parte do seu tempo a fazer comunicação de ciência – a levar a ciência ao público leigo –, tanto em artigos de jornal, entrevistas na rádio e televisão para público não especializado, como com projetos para crianças – por exemplo, um livro de banda desenhada para desfazer o mito de que os cientistas são sempre homens brancos, que trabalham em ciências naturais.