A revolução estava a caminhar para o auge, quando Marcelo Rebelo de Sousa se meteu num avião a 7 de março de 1975 e voou pela primeira vez para o Brasil. Nessa noite, em Setúbal, houve um morto da UDP num comício do PPD. Esta quarta-feira, o Presidente da República volta ao país para onde viajou vezes sem conta desde esse dia, desta vez em funções oficiais, para assistir à abertura dos Jogos Olímpicos e contactar com a comunidade portuguesa, da qual faz parte o seu filho e os cinco netos. Há 41 anos, porém, a viagem não era do Marcelo político, fundador do PPD, nem do jornalista que escrevia análises no Expresso, nem sequer do académico que dava aulas de Direito. Aos 26 anos, Rebelo de Sousa acompanhava a seleção nacional como vogal da Federação Portuguesa de Futebol, para um jogo com a seleção do Estado de Goiás, que inaugurava o novo estádio “Serra Dourada”, em Goiânia, a 200 quilómetros de Brasília.

Como hoje, a motivação para a sua primeira travessia atlântica foi o desporto. Na manhã desta quarta-feira, a bordo do Navio Escola Sagres, fundeado no Rio de Janeiro, Marcelo entregou a bandeira nacional ao velejador João Rodrigues, que será o porta-estandarte da comitiva portuguesa na cerimónia de abertura dos Jogos, sexta-feira. Em 1975, tempos mais conturbados, o jovem jurista assistiu a um jogo que acabou numa enorme confusão.

Manchete de A Bola: “No incrível jogo de Goiânia: Derrota e Escândalo”. Na primeira página, o jornal completava: “A seleção nacional chegou a ser mandada sair do terreno quando reclamava sem ter qualquer razão”. O treinador era o lendário portista José Maria Pedroto e o selecionador era Abílio Rodrigues, futuro dirigente do Benfica (nessa época, selecionar e treinador tinham funções diferentes). Fernando Gomes, o bi-bota de ouro portista, fazia nesse dia a sua primeira internacionalização. Portugal perdeu o jogo por 2-1, com um único golo marcado por Octávio, mas o resultado não foi o mais importante.

Aos 25 minutos da segunda parte, Nené lesionou-se depois de um choque com o guarda-redes brasileiro e Pedroto mandou entrar Teixeira para o lugar do avançado benfiquista. Nesse momento, no entanto, Portugal já tinha feito as três substituições regulamentares e só depois de o jogo ter recomeçado é que o árbitro deu conta do erro. O estádio levantou-se a apupar a seleção portuguesa. Uma substituição a mais? Quatro? Onde é que já se tinha visto? Pedroto protestava como um doido e ameaçava que Portugal saía de campo e abandonava o jogo a meio. Perante uma crise daquelas, Marcelo desceu a bancada a correr e entrou ele próprio no relvado debaixo das vaias brasileiras. Atrás dele, Abílio Rodrigues mandou os jogadores para o balneário. Seguiu-se uma discussão entre Marcelo, Pedroto e Abílio Rodrigues. Rebelo de Sousa dizia que aquilo não se fazia, Pedroto queixava-se de que o árbitro tinha sido ordinário e Abílio pensava no dinheiro que a federação perdia se o jogo ficasse por ali. A partida esteve interrompida 15 minutos, segundo A Bola.

A política era uma complicação. Perante tudo aquilo, o presidente brasileiro Emílio Médici já não entregou a taça ao vencedor. No Brasil, vivia-se em plena ditadura militar de direita. Em Portugal, explodia uma revolução de esquerda. Hoje, Marcelo tem em mãos um Governo inédito de entendimentos à esquerda, e o Brasil vive um caos político nunca visto — o impeachment de Dilma Roussef, o processo de Lula da Silva, a polémica presidencial de Michael Temer, uma convulsão permanente. Por isso, não estão previstos encontros do Chefe de Estado português com as mais altas figuras do Estado brasileiro.

Depois daquele estranho jogo de futebol, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu visitar os pais de surpresa. A sua ligação ao Brasil começou ali e prolongou-se por muitos anos. Baltazar Rebelo de Sousa e Maria das Neves refugiaram-se em São Paulo depois do 25 de abril, onde se exilou parte da elite do regime deposto em 1974. Viviam no Morumbi, um bairro burguês naquela cidade. Sem avisar, tocou à campainha. A mãe, quando o viu, não queria acreditar. O pai, ao chegar a casa, deparou com ele a sair por detrás de uma cortina onde estava escondido. Marcelo nem sequer se tinha despedido dos pais, quando estes tinham deixado Portugal. Havia de se arrepender amargamente disso. Andava nas campanhas do partido quando o casal Rebelo de Sousa fugiu para o Brasil.

Com o filho mais velho diante de si, Baltazar fez tudo para o convencer a não regressar. Nada aconselhava um jovem formado à direita a ficar em Lisboa. No outro dia de manhã, aflito, acordou o filho, para lhe dizer que tinha havido um golpe de Estado em Lisboa. Era 11 de março de 1975. A direita tentava a contrarrevolução mas perdia. O PCP ia ganhar força, dizia o pai a Marcelo. Era verdade: arrancava o PREC — o Processo Revolucionário em Curso. O melhor era ficar no Brasil e mandar vir a família. Mas o filho, que vivia intensamente todos aqueles dias, queria regressar o mais depressa possível, apesar dos aeroportos portugueses estarem encerrados.

Marcelo regressaria mesmo a Portugal dias depois, com uma bobine debaixo do braço — com o filme de um comentário que fez para uma televisão brasileira sobre a revolução portuguesa — e ia sendo preso no aeroporto pelos militares afetos ao Partido Comunista. Salvou-se porque um deles tinha sido seu aluno.

O programa presidencial sem política à mistura

Apesar das suas ambições políticas, Marcelo estava longe de imaginar, nessa época, que regressaria ao Brasil como Presidente da República portuguesa. Esta quarta-feira, terá uma receção com a comunidade portuguesa no Rio de Janeiro. Ainda não é certo que tenha um encontro com o governador em exercício do Rio, Francisco Dornelles. De resto, nada de política. Ou pelo menos de política bilateral. Na quinta-feira, há cultura e desporto: Marcelo Rebelo de Sousa visita a exposição “Leopoldina, Princesa da Independência, das Artes e das Ciências e ao fim da tarde assiste ao jogo de futebol entre Portugal e a Argentina, apesar da sessão de abertura dos Jogos Olímpicos só acontecer na sexta-feira à tarde. Nesta ocasião é que poderá encontrar-se com alguns Chefes de Estado que estejam no Rio de Janeiro para a celebração oficial.

Ao longo da viagem de cinco dias, o Presidente da República terá almoços com empresários na Câmara Portuguesa de Comércio e Indústria do Rio de Janeiro e depois também com a organização homóloga, em São Paulo. Num desses eventos cruzar-se-á com o seu filho, Nuno Rebelo de Sousa, que vive no Brasil onde é quadro da EDP, e que desde junho preside à Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil. Marcelo costuma aproveitar estas oportunidades — como aliás fez recentemente em Paris — para recordar as experiências de emigração da sua família. A história dos Rebelo de Sousa com o Brasil remonta ao século XIX.

António Joaquim, pai de Baltazar, minhoto de Paço de Vides — concelho de Celorico de Basto — havia de emigrar para o Brasil em 1873. Seria aprendiz de comerciante no Rio de Janeiro, tal como o seu irmão. A partir do Minho, o pai dos rapazes, Manuel Joaquim Rebelo de Sousa, havia de lhes remeter um pequeno livro por si redigido, intitulado “Conselhos de um Pae Extremoso”, impresso na Typographia Lusitana, no Porto, com 11 advertências para os rapazes levarem uma vida decente. Por exemplo: “Peço-vos que respeiteis a todos os vossos superiores assim como todas as pessoas com quem tiverdes relações, muito embora sejam inferiores à vossa posição; e usando assim, todos vos ganharão afetos e sereis todos estimados”.

A aventura brasileira dos Rebelo de Sousa oitocentistas seria curta e estes mudariam o seu destino de emigração, com mais sucesso, para Angola. Mas o Brasil voltaria a ser regaço para a família, como já se contou, a seguir ao 25 de abril. Baltazar e Maria das Neves pensam que o PCP vão tomar o poder e decidem voar, subitamente, para o Rio de Janeiro no dia 30 de junho de 1974, apenas um mês depois do golpe militar que acabou com o Estado Novo. O ex-ministro de Marcello Caetano dará aulas e trabalhará como administrador na PNEUAC, uma fábrica da Pirelli em São Paulo, a convite de outro português, José Pinto da Motta — que tinha sido seu subordinado na Mocidade Portuguesa. Mais tarde, quando acaba o curso, Pedro Rebelo de Sousa, o irmão mais novo de Marcelo, juntar-se-á aos pais no Brasil, onde vive vários anos.

Depois da aventura no estádio de Goiás, Marcelo Rebelo de Sousa voltará ao país para passar o Natal de 1975 com a família toda reunida pela primeira vez depois da revolução. A quadra natalícia e o Ano Novo são passados na enorme fazenda de José Pinto da Motta junto à fronteira com o Paraguai, uma oportunidade para Baltazar continuar a insistir com Marcelo para deixar a loucura que é a política e o jornalismo e Portugal e juntar-se a eles no Brasil. Nada feito.

Nos anos seguintes, regressa a terras brasileiras quando acompanha, como jornalista, uma viagem oficial do Presidente da República António Ramalho Eanes. Dita ao telefone múltiplas crónicas para o Expresso a sublinhar como o Presidente português é absolutamente sisudo em comparação com os brasileiros. Nos anos 80, chegou a dar aulas e conferências no Brasil. Nunca se desligou do país, mesmo depois de os pais regressarem a Portugal no início dos anos 90. É público que passou férias várias vezes com a sua namorada Rita Amaral Cabral e com Ricardo Salgado na casa deste, em Salvador da Baía.

Desde que é Presidente da República — apenas desde março — Marcelo Rebelo de Sousa já visitou os países estrangeiros que mais o marcaram. Primeiro, Moçambique, onde o pai tinha sido governador. Agora, o Brasil, onde teve os pais e agora tem o filho e cinco netos, para os quais terá algum tempo reservado fora do programa oficial.

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