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Todos os discos dos Beatles são bons, mas Revolver é melhor do que os outros. A afirmação é certamente discutível, como são todas as considerações definitivas sobre eventuais “melhores de sempre” seja de quem for, quanto mais dos Beatles. Mas é verdade que Revolver é um dos discos mais importantes e arrojados da banda de Liverpool, uma obra de rutura e procura de nova identidade, tanto sónica como existencial. Foi lançado há 50 anos e continua a ser revolucionário.

revolver

A capa de “Revolver” foi desenhada pelo alemão Klaus Voormann

O processo já tinha começado no álbum anterior, Rubber Soul, editado em 1965, menos de um ano antes, mas foi com Revolver que os Beatles começaram de facto a ter outra pele. Em 1966, os quatro de Liverpool estavam numa situação difícil. Cada vez menos confortáveis em palco, onde a sua presença era constantemente exigida mas raras vezes ouvida (tal era o ruído provocado pelas fãs histéricas durante os espetáculos), não conseguiam escapar à fama e aos hits de sempre. O facto daquele momento, em meados dos anos 60, ser um globalmente inspirador em várias esferas artísticas, com uma geração de criadores à procura de novos desafios, ajudou os Beatles a libertarem-se do estigma de rapazes aprumadinhos com canções pop infalíveis. O psicadelismo emergia e tanto George Harrison como John Lennon estavam muito interessados nas portas da perceção que isso poderia abrir-lhes. E enquanto McCartney se interessava por música clássica e apurava rigor e sofisticação na composição, os outros divergiam para territórios mais sujos.

Com Revolver, os Beatles deixaram de ser uma banda de singles e passaram à fase adulta, discos com conceito, construídos em estúdio, usando os recursos técnicos à disposição e experimentando com eles. Revolver terá usado 300 horas de estúdio, algo perfeitamente megalómano para a época. Só “Yellow Submarine” (que Ray Davies, dos Kinks, na altura crítico de musica, considerou uma “porcaria” – “a load of rubbish”, nas palavras do artista) levou mais tempo a gravar que todo primeiro álbum do grupo e teve gente como Brian Jones e Marianne Faithfull nos coros.

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Overdubs, fitas a andar ao contrário, ruído, repetição e saturação, mas também canções sem guitarras, o som dos Beatles ficou mais denso e desafiante e afastou-os definitivamente dos palcos. Nenhuma das canções de Revolver chegou a ser tocada ao vivo. Era demasiado complicado fazê-lo e o grupo deixou de dar concertos um mês depois da saída do disco.

Comecemos pelo fim. Em “Tomorrow Never Knows”, que alguns apelidam a canção mais influente de sempre (até os Chemical Brothers confessam ter sido marcados por ela), Lennon inspirou-se nos escritos de Timothy Leary sobre LSD e o Livro Tibetano Dos Mortos, usou guitarras e cítara a tocar ao contrário, sons de orquestra, vozes processadas, transformou o riso de McCartney no grito de uma gaivota e deu a Ringo espaço para fazer o break de bateria mais hipnótico da pop. Tudo isto pode parecer corriqueiro em 2016 mas, há 50 anos, estas explorações estavam reservadas à música concreta e à library music, não eram do universo pop.

“I’m Only Sleeping”, também de Lennon, partilha do mesmo espirito lisérgico, usa gravações ao contrário e anuncia um novo universo de experimentação sónica. “She Said She Said”, não sendo das canções mais proeminentes, parece ter em si, ou no evento que lhe deu origem, as sementes da mudança. A canção surgiu das memórias de uma festa em Los Angeles, em que Lennon tomou LSD com Roger Mcguinn e David Crosby, dos Byrds, e expulsou Peter Fonda da mansão onde estavam porque tinha acabado de ver o novo filme de Jane Fonda (“Cat Ballou”) e não conseguia lidar com os dois irmãos em simultâneo. Esta festa tem contornos míticos e diz muito sobre o estado de espírito dos elementos da banda na altura. Lennon e Harrison tinham experimentado LSD uns meses antes (com o dentista de Harrison, supostamente a figura por detrás da canção “Doctor Robert”) e ambos queriam que Ringo e McCartney fizessem o mesmo, o que estava planeado para esse dia de folga.

Ringo terá concordado sem hesitação com o ritual “iniciático”. McCartney recusou e, segundo entrevista de Lennon à Rolling Stone, foi gozado por isso. Foi nesse dia, nessa festa, que Harrison descobriu Ravi Shankar, quando os Byrds tentaram reproduzir a sua música numa guitarra que passava de mão em mão (o que teve consequência em “Norwegian Wood”, de Rubber Soul, a primeira canção ocidental a usar cítara). A experiência terá sido determinante também para Lennon que, um ano depois escreveu “She Said She Said”. A gravação exigiu horas de ensaio antes de chegar ao ponto que Lennon queria, uma canção à beira do colapso, ritmicamente irregular, estranha e poderosa.

É verdade que, em Revolver, é a turbulência emocional e filosófica de Lennon que alimenta a mudança e o lado mais experimental dos Beatles, mas McCartney ganha cada vez mais protagonismo, não só contribuindo de forma decisiva em todo o disco, mas sobretudo assumindo a autoria de algumas das canções mais notáveis, como “Good Day Sunshine”, “For No One” ou “Here, There and Everywhere”, que lembra inevitavelmente Brian Wilson e é muitas vezes comparada a “God Only Knows” (convém lembrar que, na altura, Beatles e Beach Boys desafiavam-se mutuamente: Pet Sounds, a obra suprema dos Beach Boys, foi uma resposta a Rubber Soul e terá motivado Sgt Pepper’s… como uma espécie de contra ataque da banda de Liverpool aos surfistas californianos. Wilson por seu lado iria responder a Sgt Pepper’s… com Smile).

Já a “Yellow Submarine”, costumam ser apontadas semelhanças com Bob Dylan. “Eleanor Rigby”, canção de gestação caótica, também é creditada como sendo de McCartney mas é uma das poucas que teve contributo de todos os Beatles. Apesar de triste e desencantada (é sobre uma mulher que morre sozinha) chegou a número 1 do top, onde se manteve várias semanas, e continua a ser das canções mais conhecidas dos Beatles. Só tem cordas e voz e, na sua construção, George Martin inspirou-se nas bandas sonoras dos filmes de François Truffaut.

Revolver é também o disco que finalmente dá protagonismo a George Harrison. Toda a influência indiana vem dele, mas há mais que surge do mesmo génio. Harrison assina três canções: a faixa de abertura, “Taxman”, é uma canção de protesto nascida das preocupações com a carga fiscal em Inglaterra, tem algo de Staxx e Motown e há quem aponte ecos de “I Got You” de James Brown, um hit na altura. “I Want To Tell You” e “Love You To” (onde dá largas à paixão pela musica indiana respeitando as suas técnicas e instrumentação) são as outras canções dominadas por Harrison e confirmam-no como compositor de argumentos próprios, um feito difícil, tendo em conta a presença e a rivalidade crescente entre Lennon e McCartney.

Um ano depois, Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band veio exacerbar tudo e ganhou o consenso universal, mas é em Revolver, disco que quase se chamou Abracadabra, que de facto começou a transformação da banda de Liverpool. A música pop também nunca mais foi a mesma.

Isilda Sanches é jornalista e animadora de rádio na Antena 3