“O que é que dizem sobre o Equador no vosso país?”, perguntou-nos o taxista que nos apanhou depois de cruzarmos a pé a nossa primeira fronteira. Estávamos no dia mais tramado até agora: tínhamos saído de Popayán, na Colômbia, às quatro da manhã e ainda nos faltava bastante para chegar a Otavalo (no total, foram 15 horas e 11 transportes, entre autocarros e táxis).

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Atravessámos a pé a ponte que faz a fronteira entre a Colômbia e o Equador.

A minha falta de resposta ao taxista era puro desconhecimento. Nunca cá tinha estado, nem conheço nenhum equatoriano. A última aparição do Equador nos nossos noticiários tinha sido o terramoto do início do ano. Sabia apenas que aqui passava a linha que divide os hemisférios, que as ilhas Galápagos (onde não vamos) lhes pertenciam e que o presidente Correa alinhava mais à esquerda.

Para a viagem, tinha apenas escolhido três pontos a visitar: Otavalo, a norte; Quito, a capital; e Cuenca, a sul. Havia vários vulcões e parques naturais à escolha, mas eram programas mais complicados para fazer com os miúdos. E fiquei a saber que, desde 2000, o país tinha adotado o dólar americano como moeda oficial.

A moeda oficial é o dólar americano, cunhado com elementos culturais do Equador.

A moeda oficial é o dólar americano, cunhado com elementos culturais do Equador.

O povo das tranças pretas

Em Otavalo, saltou à vista a forte presença de uma comunidade indígena, os otavalos. Desde os empregados do nosso hotel à multidão que encheu a cidade no sábado, dia de mercado, as longas tranças pretas eram o maior traço distintivo, em ambos os sexos. Muitos envergavam o traje típico: chapéu e poncho azul para eles, blusa branca decorada e saia comprida para elas, alpercatas para ambos. As placas em espanhol e quéchua confirmavam o cruzamento de culturas, a nosso ver harmonioso.

A visita ao mercado de gado foi intensa. Havia porcos e vacas, cabras e ovelhas, galinha e coelhos em exposição, em condições que fariam confusão aos mais sensíveis. Eu só aprecio a bicharada à distância ou no prato — quando Deus Nosso Senhor passou a distribuir o amor pelos animais, eu devia estar distraído –, mas nem por isso deixou de me fazer confusão a luta de galos, que por aqui move paixões e muito dinheiro em apostas. Já o Manel não saiu ao pai: quer fazer festinhas a tudo o que tem quatro patas, o que para nós é uma preocupação, pelo risco de doenças. Os mais fofinhos da feira eram os porquinhos-da-índia, que por aqui não são animais de estimação, mas sim um dos pitéus mais apreciados.

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Foi também aqui que festejámos seis anos de casados, no “melhor dia para casar“. A noiva, que em tempos foi bióloga e escoteira, encheu a alma num passeio à Lagoa de Cuicocha, que fica na cratera de um vulcão. O noivo encheu o estômago no Carbon de Palo, o restaurante mais catita de Otavalo, que tinha corações pendurados e tudo. Além da excelente comida, valeu pela simpatia dos donos, Gaby e Fredy, que até costumam passar férias no Estoril.

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Viagem ao centro do mundo

Seguimos para a capital do país, Quito. Uma cidade importante no Império Espanhol, que não poupou no ouro na construção das suas igrejas. A beleza dos edifícios históricos bem preservados valeu o esforço de empurrar o carrinho e carregá-los ao colo (a nossa maior dificuldade tem sido pô-los a andar) pelos altos e baixos da Cidade Velha, onde ficava o nosso hotel.

Igualmente obrigatória foi a ida ao monumento mais visitado do Equador: a Mitad del Mundo. Depois de hora e meia em autocarros apinhados, lá pisámos a linha que separa os hemisférios — dizem as más-línguas que, bem medido, são umas centenas de metros mais a norte, mas não vamos ser desmancha-prazeres. Tirámos as fotos da praxe e equilibrámos um ovo sobre um prego (dizem que é uma característica geofísica deste lugar; pelo contrário, a ideia de que a água gira em sentidos opostos conforme o hemisfério é um mito).

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Então, e Alfama?

Tinha visto na internet que havia um restaurante português na cidade, e lá nos pusemos a caminho com ganas de almoçar uma bacalhoada. Temos comido bem por aqui, mas é quase sempre carne com arroz, batatas e feijão, e já lá vão 35 dias longe de casa (um quarto da viagem!). Mas chegámos lá e demos com o nariz na porta. Infelizmente, o Alfama fechou há um mês, contaram-nos no restaurante vizinho, onde acabámos por comer… carne com arroz e feijão. Fica a fotografia para provar que tentámos.

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Nos próximos dias, vamos estar na cidade de Cuenca, no sul do Equador. Depois entraremos no Peru, onde vamos ficar no hostel de um compatriota, mesmo à beira-mar. Até à próxima crónica, siga-nos no blogue, no Facebook e no Instagram.