Crítica de Livros

“MacBeth”: horror, beleza e quedas para a frente

João Pedro Vala regressa à genialidade da tragédia de Shakespeare e recorda que é precisamente na beleza da coroa que o protagonista persegue que se esconde o horror do seu destino.

JAGADEESH NV/EPA

Autor
  • João Pedro Vala

Título: “MacBeth”
Autor: William Shakespeare
Editora: Relógio d’Água
Páginas: 160
Preço: 7,5€

macbeth

Na primeira cena de MacBeth, três bruxas encontram-se, prometendo voltarem a ver-se quando “se achar um vencedor e um vencido” (I,1,4) na contenda que opõe Duncan, o rei da Escócia, às forças aliadas da Irlanda e da Noruega lideradas pelo traidor MacDonald. Como se compreenderá ao longo da peça, MacBeth, o general que leva as tropas escocesas à vitória, é simultaneamente o vencedor e o vencido que as bruxas esperam. Melhor dito, MacBeth é o vencido porque é o vencedor. É aliás em paradoxos como este que assenta toda a estrutura da peça de Shakespeare. Nessa mesma cena, as bruxas despedem-se dizendo que “o belo é horrível e o horrível, belo” (I,1,11), uma ideia reforçada por MacBeth, ao dizer, quando se cruza com estas Irmãs do Destino pela primeira vez, que nunca vira um dia “tão belo e horrível” (I, 3,38). Esta ideia de que a vitória e a derrota, a beleza e o horror, mais do que andarem de mãos dadas, estão dependentes um do outro é fundamental para compreendermos a tragédia de MacBeth.

A primeira menção a MacBeth na peça é feita por um capitão que o descreve como o mais bravo dos escoceses, mas que é “desdenhado da Fortuna” (I, 2,16). Logo de seguida, as Bruxas confidenciam a MacBeth que este será um dia rei da Escócia. O grande erro que conduz à perdição de MacBeth não é, como seria de esperar, acreditar em prognósticos de figuras demoníacas, uma vez que o que elas dizem é verdade e suficientemente credível para convencer qualquer um. O erro maior de MacBeth é o de não compreender que a profecia que o vaticina como futuro rei escocês é apenas mais uma manifestação do desdém que a Fortuna lhe tem. O erro de MacBeth é portanto semelhante ao do capitão Ahab, em Moby Dick: quando Ahab começa a avistar Moby Dick à distância, entusiasma-se e julga que encurralara a baleia que tanto perseguira, não percebendo que é esta que atrai com o seu jacto de água o capitão do Pequod para um sítio onde o possa devorar mais facilmente. MacBeth não consegue ver que a Fortuna o cegara com a maior das maldições: a de lhe dar tudo o que este desejava, sendo precisamente na beleza da coroa que se esconde o horror do seu destino.

Compreender a tragédia de MacBeth passa em grande parte por compreender o que o distingue de Banquo. Ao mesmo tempo que informam MacBeth de que será rei, as bruxas profetizam que Banquo será pai de reis. No entanto, MacBeth será vencido porque será vencedor enquanto Banquo porque vencido, será vencedor. Sendo evidente a qualquer leitor atento que o retrato de Banquo esconde, no meio de muitos elogios, algumas críticas ao seu carácter (críticas essas que Shakespeare pretenderia muito discretas para agradar a Jaime VI, patrono do dramaturgo e rei de Inglaterra, cuja aspiração ao trono escocês dependia fortemente da sua ligação familiar ao Banquo histórico), a verdade é que Banquo é o grande vencedor da história, ao conduzir, já depois de morto, MacBeth à loucura, abrindo caminho à insurreição que colocaria o seu filho no trono. A derrota de MacBeth e posterior vitória de Banquo assentam, por paradoxal que pareça, numa virtude do primeiro (que exagerada se transforma num vício) e num defeito do segundo. MacBeth torna-se rei porque a sua valentia em combate torna todas as honras e distinções com que o rei Duncan o possa distinguir obsoletas, deixando-se seduzir pelo encanto das palavras das bruxas e de Lady MacBeth. MacBeth sabe que o seu futuro lhe reserva o trono e decide resgatá-lo pelas suas próprias mãos. Banquo, por seu turno, menos corajoso e muito mais calculista que MacBeth, decide ficar à espera que o seu destino se cumpra sozinho, não tomando parte em nenhum acontecimento, remetendo-se ao silêncio mesmo quando percebe que MacBeth matara Duncan.

A caminho do fim

Num ensaio sobre a peça, Harold Bloom descreve as acções de MacBeth como uma perpétua queda para a frente, ou seja, como se cada acção da personagem fosse um passo na direcção da sua derrota final. Esta ideia de constante queda para a frente é justificável pela aparente falta de vontade própria de MacBeth, que em muitos momentos parece transformar-se num fantoche de Lady MacBeth que o arrasta na direcção que pretende, mas, essencialmente, como uma consequência natural e inevitável da sua excessiva bravura, que leva a que, já perto do fim da tragédia, MacBeth afirme que “tanto avancei já nesta corrente de sangue,/ nada posso mais fazer que atravessá-la:/ tanto cansa regressar como seguir até ao fim” (III,4,137-9).

Todas as personagens de MacBeth (à excepção de Banquo) temem acima de tudo a fraqueza, que associam à feminilidade, sendo a consciência, para o casal MacBeth, a maior e mais temível das fraquezas, como declara a futura rainha no monólogo em forma de prece em que pede aos espíritos homicidas que venham a ela (“despojai-me do meu sexo e cumulai-me/ de terrível crueldade. Que meu sangue/ se adense, impedindo a passagem ao remorso” (I,5,40-2)). No entanto, nem o mais bravo dos escoceses é mais forte que as suas fraquezas, uma vez que até MacBeth percebe que o caminho a que se propõe é um caminho sem retorno, o que o assusta terrivelmente. Ao matar Duncan, MacBeth descobre que matar o rei é uma acção que não termina quando o punhal abandona o corpo do seu antecessor, mas que se repete perpétua e constantemente enquanto MacBeth tiver a coroa de Duncan na cabeça.

É isso que se revela nas crises de sonambulismo de Lady MacBeth, em que esta procura desesperadamente lavar as mãos, sem que o sangue que as tinge desapareça, e é para isso que Shakespeare nos aponta quando MacBeth, depois de ter mandado matar Banquo, vê o fantasma do seu antigo amigo sentado no seu trono, impedindo-o assim de se sentar no lugar reservado ao rei. A perpétua queda para a frente de MacBeth fará com que as vitórias alcançadas percam o sabor, deixando o agora rei e dono de tudo o que desejara, desesperado por temer que os filhos de Banquo ocupem o seu trono depois da sua morte. Este receio (que não parece fazer sentido uma vez que, embora Lady MacBeth fale de um filho seu, nunca se menciona a linhagem de MacBeth, tendo essa criança provavelmente morrido, podendo em alternativa ser fruto de um anterior casamento ou completamente irrelevante para o próprio) fará com que a coroa que tanto cobiçara apodreça a seus olhos, sendo descrita pelo protagonista como apenas “uma coroa infértil” (III,1, 61), até que todos aqueles que a podem vir a usar no futuro morram.

É exactamente a tomada de consciência desta queda para a frente em que a sua vida se tornou que leva MacBeth a afirmar, no seu monólogo final, ao se aperceber da inevitabilidade da sua derrota derradeira, que:

De amanhã em amanhã vão-se arrastando

Nossos dias, numa senda sem sentido,

Até à última sílaba do tempo registado;

E a luz dos nossos ontens vai-nos guiando,

Quais tolos, para a morte. (…)

(…) A vida é uma sombra

Que caminha; (…)

(…) é uma história

Contada por um parvo, toda ela som e fúria,

Mas que nada significa. (V,5,20-28)


João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa.

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