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Os antigos gregos, que souberam quase tudo antes de nós, inventaram as Musas e com elas explicaram-nos que a genialidades dos artistas não acontece no vazio mas dentro de ligações mais ou menos intensas como alguém ou algo em seu redor. Qualquer artista sabia que, para ser bem sucedido, devia evocar o nome de alguma das filhas de Zeus e Mnemosine, devia prestar-lhe homenagem. Não é por acaso que, com o passar dos tempos a Musa passou a ser identificada com a mulher amada, tornando mais visível algo que sempre esteve latente neste mito: o amor.

Dificilmente se pode falar de musas sem falar de longas histórias de amor. E as musas nem sempre são mulheres e nem sempre são as mulheres com as quais se tem uma relação romântica ou sexual. A mãe é talvez uma das principais musas da história da arte mas poucas vezes foi pensada como tal. Mas basta pensarmos no filósofo Roland Barthes ou no romancista Albert Cohen, cujas relações com as respetivas mães deram origem a algumas das suas mais belas páginas. O mesmo acontece em Herberto Helder que conota sempre a mãe com a fonte, a sua fonte, não obstante as amantes que tenha colecionado ao longo da vida. Ou Leigh Bowery, o artista que foi o corpo preferido do pintor Lucien Freud. Já para não falar naqueles que, na sua genialidade, inventaram as suas próprias musas, como Ricardo Reis/Fernando Pessoa que inventou Lídia…

O conceito de musa está, portanto, longe de ser simples e óbvio e ainda recentemente o realizador espanhol José Luis Guerin voltou a levantar a questão no filme Academia de Musas. Uma coisa é certa: há pessoas que despertam noutras a sua capacidade de criar.

A cantora e poeta norte-americana Patti Smith, musa do fotógrafo underground Robert Mapplethorpe, mostra, numa carta que lhe escreveu postumamente, como se manifesta essa ligação poderosa e misteriosa entre duas pessoas: “Aprendi a ver através dos teus olhos e nunca compus uma linha ou desenhei uma curva que não proviesse do nosso tempo juntos”. Isso explica porque é que tantas vezes a perda da musa leva ao definhar do artista, como aconteceu com o poeta português Ernesto Sampaio, que se deixou morrer depois da morte da sua amada Fernanda (Alves), ou porque é que as musas morrem também com a morte do artista, como se a sua vida só tivesse sentido na recriação que estes dela faziam, como Marie-Thérèse Walter que se matou depois da morte de Picasso.

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E se há Caliopes discretas e desconhecidas, outras há que se tornaram elas próprias tão famosas e influentes como os artistas que as convocaram. E apesar de os artistas portugueses não serem entusiastas das musas (exceto Camões, é claro), fizemos uma lista de grandes musas que se tornaram telas, fotografias, cinema, poesia.

Ernesto Sampaio e Fernanda Alves

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Há ainda em Portugal quem não conheça este enorme poeta, desaparecido em 2001, com a poesia esgotada e não reeditada, mais uma obra teórica sobre o surrealismo e adjacências e, por fim, um livro-requiem chamado simplesmente Fernanda (Hiena, 2000). Ernesto nasceu em 1935, foi um dos poetas do Café Gelo no final dos anos 50 e primeira metade de 60. Foi tradutor, ensaísta e jornalista, mas a sua personalidade discreta aliada à disciplina férrea aprendida no Gelo ensinaram-no a cultivar mais a sombra do que os holofotes. A relação com a atriz e encenadora Fernanda Alves, cinco anos mais velha, vem desde os tempos do Gelo. Ela aparecia e ele largava a mesa dos amigos para se sentarem os dois, muito juntos, a conversar. Fernanda Alves, ao contrário, era uma mulher furacão, uma personalidade mais fulgurante, teve uma longa carreira nos palcos da Barraca, do D. Maria II. Durante mais de quatro décadas nunca se separaram por isso, quando ela morre subitamente, em janeiro de 2000, num quarto de hotel do Porto, Ernesto Sampaio desiste de viver. Nos meses que mediaram entre a morte de um e de outro o poeta escreveu o livro Fernanda, uma breve carta de amor e morte que é sobretudo uma forma de convocar ainda a presença da amada. Nele escreveu:

Numa carta comovente, diz-me a Isabel de Castro que eu e a Fernanda éramos um. Penso que ainda somos. Mas a raiz, a alma e o corpo desse ‘um’ era ela. Eu podia entregar-me às minhas manias, não querer saber de nada nem de ninguém, afastar-me, isolar-me; tinha-a a ela, que era tudo, e agora não tenho nada. A Fernanda era a minha embaixatriz do mundo. (…) Quando a Fernanda estava viva, quase tudo era magia. O resto é utilitário e dá-me vontade de chorar. A magia é interior. A Fernanda era-me interior e exterior. Agora só me é interior. Não chega. Que fazer? Onde ir? Não posso deixar de amá-la. A recordação do seu rosto, da expressão do seu sorriso, ainda me enchem o coração de êxtase, de amor e de desespero. Desespero por não lho ter dito e por já não poder dizer-lho. Não posso imaginar-me sem ela. Sem ela não teria sido nada.”

Pablo Picasso e Marie-Thérèse Walter

Picasso e Marie Thérèse Walter nos anos 30

Picasso e Marie Thérèse Walter nos anos 30

Hoje seria um caso judicial de pedofilia, mas, em 1927, quando Picasso conheceu a jovem Marie-Thérèse Walter, o facto de ele ter 45 anos e ela apenas 17 não o impediu de fazer dela sua modelo e depois sua amante. Picasso, nesses anos casado com a bailarina russa Olga Khokhlova, ficou fascinado pelo rosto e depois pelo corpo voluptuoso de Marie. Começou por fazer dela uma guitarra pousada à espera de ser tocada, depois fez dela mais de uma dezena de obras de pintura e escultura entre elas a mais famosa de todas Guernica: é a juventude e a vida de Marie contra a morte e a destruição da guerra. Nunca casaram mas tiveram uma filha e, em 1939, Picasso, quando já tinha outras modelos e outras musas, ainda lhe escrevia intensas cartas de amor. Os dois só se separaram definitivamente quando Picasso deixa Paris com Françoise Gilot, de 21 anos e parte para o sul de França. Colecionador de mulheres e de musas a ponto de a sua obra poder ser dividida em “fase Olga”, “fase Marie”, ou “fase Dora”é hoje consensual que Walter foi a sua musa mais importante. Picasso morreu em 1973 e Marie suicidou-se quatro anos depois.

F. Scott e Zelda Fitzgerald

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“Por vezes não sei se somos reais ou personagens dos meus romances”, escreveu um dia F. Scott Fitzgerald, sobre ele e a mulher Zelda, sem saber que o tempo se encarregaria de os tornar realmente personagens inseparáveis que só existiriam em conjunto. Na vida real ele praticamente só existiu como escritor nos anos em que estiveram juntos, e ela só existiu como musa e como escritora durante esse tempo.

Conheceram-se num baile em 1918, ele no exército e já aspirante a escritor e ela a mais original das criaturas. Casam, em 1920, em Nova Iorque onde o sucesso literário de Scott, o comportamento extravagante de ambos e a sua alta rotatividade pelas festas da alta sociedade fizeram deles celebridades. Eram os enfants terribles dos anos 20, encarnavam o espírito de rebeldia e liberdade da América daqueles anos. Logo depois de conhecer Zelda, Scott terá retocado a personagem do seu primeiro romance para ela ficar mais parecida com ela. A partir daí não se sabe se ele se inspirou na excêntrica Zelda para criar Daisy Buchman de O Grande Gatsby e Nicole de Terna é a Noite ou se se limitou a contar a história da mulher. Na vida real a relação era doentia com cenas quotidianas de ciúme e amargura. Em 1930, quando viviam em França, Zelda foi diagnosticada com psicose maníaco-depressiva (doença Bipolar). Durante esse período Zelda escreveu o seu único romance, Save Me the Waltz, baseando-se na sua relação com Scott que ficou furioso e tentou impedir a publicação do livro. Quando regressam à América já em total declínio emocional e financeiro, Scott vai tentar a vida para Hollywood e Zelda faz-se internar no asilo para doentes mentais onde virá a morrer num incêndio em 1948.

Annie Leibovitz e Susan Sontag

Susan Sontag e Annie Lebowitz em 1991, Nova Iorque

Susan Sontag e Annie Leibovitz em 1991, Nova Iorque

Quando se conheceram, em 1989, a ensaísta e pensadora norte-americana Susan Sontag e a fotógrafa Annie Lebowitz já eram famosas e reconhecidas pelo seu talento. No entanto este encontro vai fazer emergir em ambas novos aspetos das suas vidas e das suas personalidades. Susan passa a ser o modelo preferido de Annie, o corpo e o rosto que ela vai fotografar amorosamente, e que se constitui como um hino de amor a uma mulher de meia idade, coisa cada vez mais rara. Por sua vez, Annie vai experimentar sair do mundo das celebridades (que ela fotografava desde os anos 70, quando entrou para a equipa da Rolling Stone) e embarcar para o cenário de guerra da Sarajevo dos anos 90 e depois todo o médio Oriente. Após a morte de Sontag, em 2004, devido a uma leucemia, Annie contará que a ensinou a andar de bicicleta e a tirar a carta de condução. Captar imagens de Susan Sontag, ela própria autora de dois influentes ensaios sobre fotografia, tornou-se a obsessão de Annie. Da vida em família até ao leito de morte e ao cadáver de Susan, tudo foi registado, tornado imagem privada e depois imagem pública no livro A Photographer’s Life, 1990-2005. A obra envolveu alguma polémica mas revelou no trabalho de Annie uma nova densidade. “Quando conheci Susan ela disse que eu era boa fotógrafa mas poderia ser melhor, a partir daí tudo o que eu queria era ser melhor”, escreveu Leibovitz.

Robert Mapplethorpe e Patti Smith

Patty Smith e Robert Mappletorp, nos anos 60

Patti Smith e Robert Mapplethorpe, nos anos 60

Eram miúdos, pobres, um pouco perdidos nas suas vidas e nos seus corpos quando se encontraram na Nova Iorque de 1967. Patti foi dividir o apartamento com Robert, tornaram-se amigos, amantes, aliados, alter-ego um do outro. Na época ainda eram ambos ilustres desconhecidos, e a fama só viria nos anos 70. Nesses anos a cantora, poeta, deusa punk, trabalhava em livrarias para se sustentar a ela e a Robert. Terá sido nesses anos que ele a começou a fotografar, coisa que vai fazer até à sua morte em 1989. Quando já era o polémico e reconhecido fotógrafo underground, criador de imagens onde a sexualidade BDSM e o sagrado se encontram de forma inquietante, retratista de celebridades como Andy Warhol, Louise Bourgois, Robert fará as fotografias da capa do primeiro livro de poesia de Patti, Witt e depois do álbum Horses e dos seguintes. Tal como Márie Thérèse foi a musa mais solar e vivida da obra de Picasso, Patti Smith foi a musa mais luminosa, quase etérea, na arte sombria de Mapplethorpe. Em 2010 a cantora lançou o livro “Just Kids /Apenas Miúdos” (Quetzal) sobre a relação entre ambos.