O futuro da obra de Franz Kafka nunca foi consensual para os que (supostamente) tinham ficado responsáveis por tratar do seu espólio. Após a morte do escritor, o amigo Max Brod ficou encarregue de tratar dos manuscritos, mas os anos que se seguiram, aprofundaram as discordâncias entre o Estado de Israel e os privados e colecionadores. Esta segunda-feira, a decisão chegou: o material de Kafka, do qual fazem parte algumas obras não publicadas, fica sob tutela da biblioteca nacional deste país.

Na verdade, o espólio no centro da discórdia nem deveria existir nos dias de hoje. Franz Kafka terá dito a Max Brod — o executor da herança e amigo do escritor — para destruir o material após a sua morte em 1924, o que não aconteceu. Brod nunca cumpriu o que lhe foi pedido: a sua emigração forçada para a Palestina, depois da invasão da então Checoslováquia pela Alemanha nazi em 1939, fez com que os manuscritos fossem também na bagagem.

O material permaneceu intacto durante vários anos, pelo que avança o The Guardian, mas a morte de Max Brod trouxe mais mudanças. O amigo de Kafka deixou o espólio em testamento à sua secretária, Esther Hoffe, com instruções precisas do que deveria fazer com ele. O material devia ser dado à “Universidade Hebraica de Jerusalém, à biblioteca municipal de Tel Aviv ou a outra organização, dentro ou fora de Israel”, segundo noticia o jornal britânico.

Mais uma vez, e à semelhança do que fez Brod ao testamento de Kafka, também a sua vontade não foi cumprida. Esther Hoffe repartiu os direitos legais do espólio entre as duas filhas. Em 2009, o Estado de Israel exigiu que Hoffe desse o material de Kafka a quem de direito, mas as filhas desta argumentaram que “poderiam fazer o que quisessem com os documentos que foram oferecidos à mãe”.

Até esta segunda-feira, a família Hoffe detinha uma importante parte da coleção de Kafka e terá vendido vários documentos a privados. Um deles foi curiosamente o manuscrito de O Processo (The Trial), vendido por cerca de 2 milhões de dólares.

kafka

Edição de 2015 de “O Processo” da editora Livros do Brasil. O preço é cerca de 15 euros

O Tribunal Supremo de Israel decidiu a favor do Estado e a razão apontada foi a de que a biblioteca nacional era “o sítio mais indicado” para os manuscritos e que “Max Brod não queria que o material fosse vendido pelo melhor preço, mas pretendia encontrar o lugar ideal numa instituição cultural”. De acordo com o jornal Jewish News Online, a Biblioteca Nacional de Israel pretende que “o espólio fique acessível ao público geral”.