Os Jogos Olímpicos são uma festa do desporto mundial e os atletas empenham-se em alcançar a glória através de medalhas, mas, para os países que mais títulos olímpicos conquistam, o número exato de medalhas conquistadas é um assunto sério. Ao décimo quarto dia dos Jogos do Rio, a tabela é liderada pelos Estados Unidos da América, o que não é surpresa. Mais surpreendente e controverso, pelo menos na China, é o facto de este país, que organizou os Jogos em 2008, estar em terceiro lugar no número de medalhas de ouro ganhas até agora.

Este é o medalheiro atualizado. Apesar de ter mais medalhas do que a Grã-Bretanha, a China fica em terceiro lugar porque os atletas britânicos já conquistaram mais ouros (23) do que os chineses (21).

É a primeira vez que a China está em terceiro lugar desde Sydney 2000, quando o país conseguiu 28 medalhas de ouro, atrás da Rússia (com 32) e dos Estados Unidos (com 37). O melhor resultado chinês registou-se precisamente há quatro anos, em Pequim — ficaram 51 medalhas de ouro em casa.

Já para a Grã-Bretanha, este segundo lugar é o melhor resultado em muitos anos. É preciso recuar até aos Jogos de 1908, precisamente em Londres, para encontrar este país no topo da tabela de medalhas, com 55 ouros. Nesse ano participaram apenas 18 países. Desde então, os britânicos tiveram resultados muito irregulares. Em 2008, ficaram em quarto lugar no medalheiro.

Na China, esta novidade tem sido recebida com sentimentos mistos. Alguns autores e meios de comunicação não perdoam os atletas olímpicos, que não conseguiram conquistar o ouro nas respetivas modalidades, nem o público que os aplaude, ainda assim. “Eles não poupam esforços em elogiar esses atletas irresponsáveis”, criticou um utilizador da rede social Weibo, num texto citado pelo jornal chinês Global Times. E também a agência chinesa de notícias, Xinhua, partilhou um pensamento sobre a prestação olímpica dos atletas, por comparação à dos britânicos. “Estão a brincar? O país que nunca ficou acima da China está quase a consegui-lo”, tweetou a agência, que logo depois apagou o texto.

Nem todas as reações têm sido estas, no entanto. A equipa de natação foi recebida com aplausos e a ascensão mediática de Fu Yuanhui, nadadora que ganhou o bronze na prova de 100 metros costas e fez comentários surpreendentes sobre a menstruação, mudou a atitude dos chineses para com os atletas. Nas redes sociais, muitos utilizadores elogiaram a nadadora, bem como outros membros da equipa olímpica, como a estrela Sun Yang, que conquistou a prata nos 400 metros livres e falhou a passagem à final na prova de 1500 metros livres.

Noutras ocasiões, lembra o mesmo Global Times, os atletas foram duramente criticados. Mas agora, até eles parecem mais relaxados quanto aos maus resultados. O atirador Yang Haoran, que não foi além do 31º lugar na prova de tiro com carabina de ar a dez metros, disse no fim da competição que “há mais vida para além dos Jogos Olímpicos”.

China's Fu Yuanhui poses with her bronze medal on the podium of the Women's 100m Backstroke during the swimming event at the Rio 2016 Olympic Games at the Olympic Aquatics Stadium in Rio de Janeiro on August 8, 2016. / AFP / GABRIEL BOUYS (Photo credit should read GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images)

Fu Yuanhui não ganhou o ouro, mas foi tratada pela imprensa chinesa e internacional como uma estrela, sobretudo depois dos comentários pouco habituais que fez sobre a própria menstruação (Fotografia: GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images)

O que significa esta mudança de atitude num país em que o desporto é subsidiado a 100% pelo Estado? Antes dos Jogos, os responsáveis pelo desporto chinês alertaram que o plano montado desde 2001 — desde que Pequim foi escolhida a anfitriã das provas de 2008 — não está a ser aplicado “com tanto vigor como no início”. Esse plano consistia na captação e treino de jovens atletas e atingiu o auge precisamente nos Jogos da China, quando a seleção olímpica conquistou mais 15 medalhas de ouro do que os Estados Unidos.

James Porteous, subeditor da secção de Desporto do South China Morning Post, publicou um texto de opinião no qual sublinha que estas mudanças perante os Jogos podem significar uma alteração mais profunda na sociedade chinesa. “Com uma nova classe média, gigantesca e burguesa, os dias em que o sucesso olímpico era um bilhete para sair da pobreza pode ser substituído por uma cultura do exercício pelo prazer e pela saúde”, escreve o autor, que acrescenta que vai ser preciso esperar pelos Jogos de Tóquio, em 2020, para ver se esta tendência se confirma.

Em sentido contrário, o crescente sucesso olímpico da Grã-Bretanha resulta de uma aposta consistente no desporto, que começou há mais de 20 anos. Em 1996, nos Jogos de Atlanta, os britânicos não foram além de um 36º lugar na tabela dos países mais medalhados. Desde então, e com os fundos resultantes de uma lotaria especialmente criada para o efeito, a Grã-Bretanha tem melhorado sistematicamente as prestações olímpicas. Isso deve-se a uma estratégia governamental e ao trabalho de centenas de atletas, como Mo Farah, Bradley Wiggins, Chris Froome, Max Whitlock e outros, cujos nomes hoje já não são estranhos a ninguém.